quarta-feira, 7 de novembro de 2018

MALVAS


Às malvas, é dito vulgar,
como coisa sem valor.
Não é justo assim falar
de tão generosa flor.

Serena flor, benigna rama,
- nunca o diria se não fosse -
e não se livra da fama:
o seu chá faz bem à tosse.

Outrossim para a malícia,
mas aqui com outro fito,
dizem ser uma delícia,
aguar de malvas o dito.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

A VERDADE PELAS ÁRVORES


Tempos após sermos floresta, dados à sorte,
voltamos à cinza, o pó a que chamamos morte.
Uma vida presa às raízes, se é que elas prendem,
quase tudo e quase nada de quanto somos
e, por fim, algures, como candeias que se acedem,
um dia seremos apenas o retrato do que fomos.

sábado, 3 de novembro de 2018

NATAL


Um dia destes enfeito-me de azevinho,
bagas vermelhas em cima e aos pés caruma.
Vestido assim, (a ver se adivinho):
humana árvore de Natal ou coisa nenhuma.

De azeviche não, (ai a língua portuguesa!)
À maneira sóbria das damas antigas,
fazendo sinal da cruz, sentadas à mesa,
exibindo no decote um colar de figas.

Visto-me assim de vermelhos frutos,
que da natureza sou, de vermelhos gosto
e sem vaidade digo: são gostos mútuos;
de hipocrisias basta, é nisso que eu aposto.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

CAMINHOS



Um caminho na terra não é
um caminho de terra, porém,
indo de cavalo ou a pé,
caminho é ir mais além.

E, estando além, volta a ser
caminho o que foi percorrido:
caminho voltamos a ter
depois do caminho cumprido.

Volvemos então ao lugar
de onde partíramos à ida,
que à volta temos de aceitar,
tornar ao ponto de partida.

E eis que voltamos a ter
mais caminho para andar,
quantas vezes se quiser,
que estar vivo é caminhar.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

O PRÓXIMO COMBATE


Pára onde estás, não te mexas
e escuta o que te quero dizer.
Estás vivo. Consegues ouvir o sangue
percorrendo cada artéria do teu corpo?
És um sobrevivente.
A morte só acontece a quem se deixa morrer.
Agora podes movimentar-te, podes falar;
gritar, se preferires. Não dês o braço a torcer.
Luta.

domingo, 28 de outubro de 2018

O GATO E O CACTO


Um facto é um facto,
não é um fato;
e um gato é um gato,
não é um cacto.
O cacto pica
e o gato mia,
de facto;

coço o pico do cacto,
cato o pelo do gato.
O facto é que o cacto
pica no fato,
enquanto o gato mia,
que é chato.
Gato que é gato
não mia de fato
e o cacto pica
de facto.
Corta o cacto,
sape malvado gato,
não comam do mesmo prato!

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

ARVORELA

in Depositphotos


Árvore de sol, frutos de luz,
vento que perturba e zela
e demais sedes a que induz
o afogo da pálida aguarela.

Apesar disso vive, resiste
e não se entrega à sorte,
que o tempo a tudo assiste
impávido, mesmo à morte.

O tempo aqui é o pão
e a árvore faz de conduto:
sem terra, um pouco de chão,
não há vida nem há fruto.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

LÁGRIMAS DE SOL


Não se faz de água e sal a minha vontade;
faz-se do sol que todas as manhãs rompe,
aflito, na ânsia de ser dia em terra firme.

E não se faz de mitos, de assombros:
se não dá fruto a semente é porque o sol
se atrasa de tanto romper a treva.

Mas há uma excepção de água e sal
na minha vida: essa não é potável
e invade-me na tristeza: eu também choro.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O MUNDO À JANELA


O mundo pôs-se à janela
debruçado no parapeito
e viu-se pintado em tela;
num quadro quase perfeito.

Não era o mundo afinal
aquele quadro pintado:
era apenas um postal
do mundo em seu passado.

Propaganda e nada mais
de um mundo de sucesso,
que visto assim em postais
nem parece do avesso.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

ILUSÃO


Cheira-me a perfume, a doce aroma,
como se, furtiva, neste momento
por mim passasse, fugaz, airosa dama,
e me deixasse o rasto nesse atrevimento.

Que olor pode ser o que me convoca
num só- etéreo, este - todos os sentidos
e que, além de me deleitar, provoca
subtis tumultos e prazeres desconhecidos?

Procurei em vão; o cheiro dissipou-se,
deixando-me impregnada a sensação
que esta fragrância, que a aragem trouxe,
como tantas outras, não são mais que ilusão.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

O SUOR DA ESCRITA




De quantos versos fiz jus,
nem todos foram perfeitos;
negros uns, a contraluz,
vacilantes outros, contrafeitos.

Mas de ouro, de mão cheia,
incluindo os contracorrente,
esses saem, volta e meia,
sem compressão aparente.

Vendo a questão ao contrário:
que faço eu para os merecer?
É somente necessário
escrever, escrever, escrever…

domingo, 14 de outubro de 2018

OUTONO


Repentinamente escureceu. Abastosa,
a chuva, caiu-me em cima dos ombros.
Chuva morna ainda, obesa, ociosa,
capaz de me deixar em escombros.

Que tempo é este – disse para mim –
a que vem tamanho aguaceiro?
Fez-se silêncio, negro, e por fim,
o Outono lançou-me um adeus matreiro.

Ah, és tu, indefinido tempo encoberto
- acenei-lhe, logo que o reconheci;
não esperava ver-te aqui por perto –
Sacudi-me e, virando-lhe a cara, segui.

Mas que é menos este que os demais?
Mal se chove, mal se é tempo quente…
Estas mudanças são, assim, normais,
“o povo é que nunca está contente”…

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

DÉDALO E ÍCARO


Dédalo Fugiu. Creta, Sicília, por aí fora,
levou Ícaro e em breve o fez asado,
mas que de nada lhe logrou agora,
jazidos em terra, Ícaro e o voo sonhado.

O labirinto ainda existe, e existe o boi
perdido na obra maior do arquitecto.
E se tudo isto parece que um dia foi,
desenganem-se, que a história é aqui perto.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

IRMÃO DO TRÓPICO


Brasil tem amazonas no coração
e a ditadura a agitar o calendário
ao meu irmão
há um século sem salário

Brasil tem samba no coração
sessenta e quatro ponto final
no meu irmão
que nunca foi general

Brasil tem carnaval no coração
e um polícia omnipotente ou um cristo sinaleiro
que o meu irmão
carrega às costas por ser povo brasileiro

Brasil tem sol no coração
e um guindaste que ergue de um fosso
o meu irmão
com uma corda enrolada ao pescoço

Brasil tem sertões no coração
cravados no peito em riste
e o meu irmão
irmão de Luís Carlos não desiste

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

FLORES À JANELA


Da janela vejo flores e elas
a olharem para mim
debruçadas em janelas,
que só elas o fazem assim.

Sinto o perfume das flores
como tranças de uma fada;
respiro-as e cheiro as cores,
mesmo não cheirando a nada.

Fico suspenso, preso a elas,
como o caule que as alteia:
cortejam-me do alto das janelas
e eu saúdo-as com a mesma ideia.