terça-feira, 19 de junho de 2018

À PALAVRA DADA


A palavra dada
não se olha à caligrafia,

salvo a palavra nada,
que é de outra filosofia.

domingo, 17 de junho de 2018

SETE SAIAS RODADAS


As sete saias rodadas
deixam-te as pernas ao léu,
não saias com as saias rodadas,
que assim quem roda sou eu.

Nem dances de costas voltadas,
que as voltas que a roda leva
revolta as tuas saias rodadas,
e não sei se fique ou me atreva.

Não saias sem paradeiro,
eu vou buscar-te às escadas,
quero ser eu o primeiro
a ver tuas saias rodadas. 

sexta-feira, 15 de junho de 2018

CANTIGA


Não venhas hoje à janela
que não estou para cantigas
e só por estar perto dela
me lembram coisas antigas.

Serenatas que então fazia,
a que achavas tanta graça,
hoje, se cantasse podia
quebrar-te toda a vidraça…

Não surjas ou ainda melhor:
manda mesmo emparedá-la;
talvez a cantiga de amor
se entenda melhor sem fala.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O CACHORRINHO COM SORTE


O cachorrinho não nada,
nada não o cachorrinho;
em troca, bem sei que ladra,
caso não, adeus cãozinho…

Foi com amor e destreza
(ai, cachorrinho com sorte)
resgatado à natureza
e salvo in extremis da morte.

Não voltará a tentar
o pequeno diabrete,
se não aprender a nadar,
que a história não se repete.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

FALA-BARATO


Se já se viu nalgum lado
sujeito tão adjectivo,
verbo de encher agoirado,
pobre verbo defectivo.

Zombas, bravejas amuado
de modo nada assertivo
e usas o verbo afiado
no presente do implicativo.

E mais não será narrado,
que nada tem de positivo,
pois falares ou estares calado
produz o mesmo sentido.

sábado, 9 de junho de 2018

LUÍS DE CAMÕES


Fez bem Sebastião, o rei, em dar-te ouvidos,
que em algum mister haveria de ter dotes…
Porém, de pouco lhe valeram os teus motes
em Alcácer, as estrofes e o rei, ambos perdidos.

Valeu depois, longos anos e reis daí para cá,
quando te tornaste língua constitucional,
poeta herói e merecedor de feriado nacional.
Nada mau para quem viveu ao deus dará.

Por falar nisso, Lázaro de morte desgraçada,
de fome, de desamor e magra tença, quase nada,
excepto a fama dos teus feitos controversos…

Efémeros te foram os dias de vida airada
e de tristezas bastos, de tão longa caminhada,
descansa agora, que nós cuidamos dos teus versos.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

FERREIRA DE CASTRO


Para conhecer o mundo viajamos,
tocamos pedra a pedra, a calçada
e para nos conhecermos, onde vamos,
qual é o rio, o mar, a estrada?

Assim fizeste com todos os sentidos,
criando gestos e palavras quando a voz
faltava ao próprio mundo, e já perdidos,
contavas em viagem à volta de nós.

Ainda mal chegado, já estavas de saída,
e, por aí fora, um dia, um mês, um ano,
até que a missão fosse concluída.

E que nos deste desse teu labor insano,
senão obra universal de amor à vida,
palmo a palmo, um hino ao valor humano?

****

Viajar não é sair daqui, abalar;
agitar o lenço a quem se deixa
com promessas de depois voltar
consolado e sem razões de queixa.

Vêm aquelas lágrimas da praxe,
com as mãos atiramos beijos,
havendo mesmo quem não ache
ser motivo para festejos.

Não, viajar é não estarmos sós
e, mais do que palmilhar o mundo,
é caminharmos dentro de nós
no sentido humano e mais profundo.

terça-feira, 5 de junho de 2018

JOSÉ FERREIRA MONTE


Às escuras, estendo a mão aberta e afago
o Tempo de Silêncio em repouso, vigilante.
Ainda te oiço gritar o verbo mais amargo
da tua Lucília e austera poesia militante.

Que amargurado poeta foste a vida inteira!
Bradavas os teus versos e esse era o pranto,
a arte e a razão, únicos e à tua maneira,
poeta e homem em cada verso do teu canto.

Depois, é como se alvoroçássemos de novo
a Quinta do Amieiro na passagem de ano,
com Pablo, Lopes Graça, as Heróicas do povo,
neste tempo - como então – ainda insano.

domingo, 3 de junho de 2018

RUY BELO


Contigo não faço mais que a minha obrigação.
Só não sei o que fazer com os teus versos d’iodo
e a tua mortificada vida, cantada na Consolação,
poeta à tona ou náufrago, dito de outro modo.

Arrimas às ondas as rimas das odes alterosas
e os poemas desfazem-se em sal e espuma.
- Densos e sublimes são teus versos e prosas,
inquietas odes, que desfio à noite, uma a uma.

É como ter no mesmo frasco o mal e o remédio
e, voluntariamente, tomá-los qual bebedeira,
de modo que, desperto e de exuberante tédio,
durma enfim, merecidamente, a noite inteira.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

JOSÉ SARAMAGO

Rua da Esperança, sala com os livros e a foto de Isabel da Nóbrega


Eu tinha os livros e papeis cheios de rasuras,
de esperança, como a rua onde moravas,
de onde me expedias as críticas e censuras
e os conselhos que te pedia e tu me davas.

Lanzarote é apenas um lugar longe, a sul;
um vazio entre o coração e o estômago,
não mais que isso e um imenso mar azul
onde flutua e te leva dentro, José Saramago.

A tua obra? Ganhei em cada página impressa
muito da devoção que tenho à literatura,
que vou lendo e relendo sem qualquer pressa.

Somente pelo prazer de ler, à minha altura,
vou dando voz ao ímpeto que não cessa,
e deixo-te estes versos já sem rasura.








quarta-feira, 30 de maio de 2018

JOSÉ RODRIGUES MIGUEIS


De que valeu aos mais a escapatória,
o palco, os veludos, as purpurinas?
Aqui combatíamos pela efémera glória
a troco de tafetás e popelinas.

Tivemos, porém, deste lado, a história
macerada de várias sortes, de várias sinas.
Um tempo insano cuja memória
se fez de medo e caixas de aspirinas.

Aquele que nos zelava e não dormia,
- Inventor do absurdo e da sordícia -
atulhou-nos as algibeiras com lama.

Sabia-se em Nova Yorque ou em Alfama,
que em Portugal o cárcere, as letras pela rama,
a côdea e a tabuada, já eram bastante pedagogia.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

EUGÉNIO DE ANDRADE

                                          Biblioteca Municipal Eugénio de Andrade, pintura Isabel Nunes


Inventor de gerânios e de espelhos,
pétalas, líquenes, juncos, alfazema.
E searas com os morangos mais vermelhos,
trepando às varandas do poema.

Às vezes, limos e ninfas sobre os joelhos
rumoravam como queixumes e fonemas:
uns eram versos de água, outros conselhos,
mágoas, gritos, lágrimas e penas.

Cultivaste as madressilvas na viagem,
mas do oiro, apenas sóis. Porém,
a música e o fogo foram bastantes.

E quando em ti houve versos exultantes,
(do garimpo perene por ocultos diamantes),
eram como se tivessem dentro a própria mãe.

sábado, 26 de maio de 2018

O SOL É COMUM



O Sol quando nasce é para todos
mas com regras e bons modos
pois não tem jeito nenhum
ter no céu sóis a rodos
e na Terra um para cada um.
Se quiserem mais calor,
mais aninho, comprem um irradiador:
assim ficarão mais cómodos,
sem causar dano e poderem dar valor,
que o Sol quando nasce é para todos.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

DIA DE FEIRA


Além da chita, o riscado
na borda da tenda pendentes
em dia de mercado:
são pobres os clientes.

Mas há lá coisa mais sã
que um casaco de surrobeco
ou burel, que é autêntica lã;
não é qualquer farrapeco…

Para o dia de mercado,
pano cru de metro e quarenta,
que o povo quere-se tapado
ainda assim, a ver se aguenta.

De sarjas grossas e cotins
também se gastam na feira;
gangas e tecidos afins
para os de parca algibeira.

Popelinas e tafetás são
lordes das prateleiras,
panos de outra condição,
não são trapos para feiras.

O mesmo de sedas e rendas,
que aqui nem é bom falar…
Isso é doutras encomendas,
Não serve p’ra trabalhar.

Na feira de assentido engano
onde não há pontos sem nós,
enquanto uns tecem o pano
o tecido faz-nos a nós.

domingo, 20 de maio de 2018

COM TRADIÇÕES


Ligeira contradição se encerra
(vulgo pequeno deslize)
entre o raio dos centímetros e os centímetros do raio da terra…
- Traz lá o peclise.

Assim como fazer confusão
(pese a boa vontade)
entre o dedo da mão grande e o dedo grande da mão,
não é semântica é defectividade.

Pior, muito pior
(como fazer figura d’urso)
é improvisar, de cor,
lendo, a páginas tantas do discurso.