segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

CIRCO LO VICIOSO


O mágico é fenomenal
aplausos
à ilusão mesclada da pista
aplausos
ao anão pingente sobre charolas
aplausos
ao diadema cintilante e ao equilíbrio
das trapezistas siamesas
aplausos
ao assédio do circo lo vicioso
ao cerco canalha
aplausos
aos palhaços que trazem a boca
maquilhada de sorriso
aplausos
à valentia do domador de feras
aplausos
aplausos
aplausos

respeitável público
o grande circo lo vicioso adia a esperança

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

CALDEIRADA


(VERSÃO SENSIVELMENTE GASTRONÓMICA,SE HOUVER PEIXE, SE AINDA HOUVER PEIXE...)


Para o dia da festa
só contam alegrias.
Peixe, eirós (enguias)
e para quem não gosta,
não queira ou proteste,
pode comer lagosta.

Há vinho da casa,
reserva e água-pé
(de se lhe tirar o boné).
Aqui, a tristeza
só consome e atrasa
e não faz boa mesa.

Por fim, refastelados,
os que tiverem soltura,
que botem faladura
e não desatem à estalada
aos convidados
desta grande caldeirada.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

AZULEJOS


Azulejos, digo, pedaços de cor,
aclamando desejos e caminhos,
como lantejoulas em flor;
poesia aos quadradinhos…

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

PROSADA POESIA (dois pontos)


Precisamos às vezes de uma espécie de catarse, que nos faça repensar o que fizemos, como o fizemos e como sentimos e vivemos todas essas acções passadas. O que nos trouxe até aqui e porque escolhemos este caminho e não outro? O que é o que fazemos e que destinatários tem? Qual a sua utilidade? Que sentimentos (evidentes, encobertos ou metafóricos) nos moveram e nos movem ainda? Finalmente, que mágoas ou alegrias nos impelem e nos fazem, de algum modo, seres activos e intervenientes no mundo que nos rodeia. Falo da poesia, evidentemente.
Andei há dias de volta dos papéis antigos e encontrei um texto de 1976, que quero partilhar agora. Tomem lá:


PROSADA POESIA (dois pontos)
A montra dedada do café é, por enquanto, o oceano possível, o percurso admitido pelas nep’s. Tudo seria mais fácil se temporariamente assumisse a anarquia dos insectos ou mais ainda a ultra-anarquia dos insecticidas. Mas não. E ainda bem que inventaram o vidro de cinco milímetros, apesar das dedadas nojentas de gordura. Agora escorrem mulheres lentas e inexplicavelmente impessoais. Rabisquei o primeiro verso. Redondo. É a terceira vez que recomeço. Número de desistências, idem. Ah, as persianas metálicas, o pautado rigoroso sobre a montra dedada do café, deixa-as ondular, quase líquidas, como rabos de abelha má. Afinal são prostitutas, comentam ao meu lado. Escanzeladas e negras como andorinhas mortas por uma qualquer trovoada mas, porventura, brusca. Trepadeiras pingentes de fim de verão. Sinto quase gelo nos olhos. Provavelmente dramatizo: dez tostões de poesia para a obra piedosa das ruas sem montras de café, dez tostõezinhos, pelas almas… Curvado até à vertigem, o poeta agradece e retira-se. Nervoso.

Pisquei às tuas coxas ondulantes, de um veludo malicioso, sob a saia de seda em carne viva. Imagina que me sugeriste uma boa dose de ideias, por certo lugares comuns, para al/face e verso lírico do dia. Dose reforçada foi quando deixaste de ser silhueta de serpente fácil e me tocaste com a sobra sensualmente supérflua das nádegas rijas, perturbadora revelação dum sexo neutro. Aí o poema tomava já um aspecto aflitivo: a ejaculação precoce de verso sobre verso agonizava. Tentei depois um golpe de rins inesperado: a apoteose do verso rebentaria a qualquer instante. Mas foi no derradeiro percurso, no escasso metro e sessenta e cinco (dos teus cabelos soltos, às pontas aguçadas dos calcanhares doridos) que tudo se perdeu irremediavelmente: nos saltinhos finos de insuportável cegonha, uma casca de laranja ficara presa, trespassada e suja. Perdi o fôlego.

Faltava ainda a cor. A tua cor. A maquilhagem que me solicita o beijo. Me torna a língua um potro solto e órfão, desenhando círculos fictícios, convulsos, de saliva conseguida até ao grito. E nada mais que uma imperceptível mímica, uma enorme mancha vermelha sobre os olhos e grande, grande capacidade para o silêncio.

Registo memórias magoadas como tumores malignos, expostos, mortais, oh imperdoável contabilidade. Felizmente, tudo fica medido, pesado, quantificado em embalagens populares, familiares e de luxo. A poesia tem assim fortes possibilidades no mercado. Agradável nos rótulos, cintas e etiquetas de todos os produtos de higiene mental.
A vida tem artifícios de sol-posto…
- Então?! Com a vida não se brinca…
Canalhas!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

EDIÇÃO ESPECIAL


Quando realmente se gosta de alguém,
é queimar-lhe a seara e, em jeito de ajuda humanitária,
usando os mesmos aviões, despejar-lhe pães.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

PORTUGAL COM GENTE


agora Portugal companheiro empedernido
de mármore granito xisto
de pedra e cal dura de ouvido

agora Portugal companheiro revisitado
estamos outra vez de abalada
sem nunca cá termos estado

agora Portugal companheiro e mais
que isso: pantalha, que em vez de notícias,
te revês em telejornais

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

ERA UMA VEZ A CIDADE


O frio agudo; a aura breve,
foram sinais da novidade:
diminutos flocos de neve
vestiram de branco a cidade.

Por natureza inclemente,
de extremos na temperatura,
hoje frio; amanhã quente,
e só nas gentes brandura.

E assim, de noiva trajada,
tão a rigor como o gelo,
fica ainda mais prendada;
mais branca que castelo…

Porém, meteorologicamente,
- o tempo que faz e que fez –
há-de ser verão novamente,
e Castelo Branco outra vez.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

ENTRE A BORRASCA E O BOM TEMPO


entre a borrasca e o bom tempo há um traço furta cores
bom tempo
entre o bom tempo e a borrasca há um traço furta cores
borrasca

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

DO ALENTEJO


Alentejo, que tanto levas
dentro: sonhos, migas
e coentros. Se me obrigas,
vejo oiro onde só há estevas…

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

CONTRABAIXO


Não há nada mais tocante
- tocante, sim, nos dois sentidos! –
que o som, pizzicato , dum contrabaixo.
O suspiro percutido nos bordões
enche de sumaúma o peito,
e a alma flui como névoa densa e branca.

Aqui jazz e vou andando
como um pássaro de fogo.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

ANO COLORIDO


Vêm Janeiro e Fevereiro
e ainda não abri o tinteiro.

Chega o primaveril Março
com matizes de pigarço,

assim como o não menos Abril,
mas em tons de rosa e anil.

Quando irrompe Maio
já há cores em que não caio.

De repente, vem Junho:
de que cor é este punho?

Lentamente, lá vem Julho.
Este tem a minha cor. Pouco barulho!

Mais devagar, Agosto
e o vermelho ardente do sol-posto.

Sorrateiro, entra Setembro.
Não tem cor ou não me lembro?

O mesmo direi de Outubro,
de que sei a cor mas não descubro.

Novembro e Dezembro vêm a seguir
cor de burro a fugir.

(Este ano, novo mês em suplemento,
para equilíbrio do orçamento.)

domingo, 26 de dezembro de 2010

LISBOA II



Silveira, Lisboa, Alcântara
Técnica mista sobre tela 40 x 120 cm



Em cada esquina, os andarilhos da cidade,
quase furtivos, emergem deslumbrados
em busca pelas ruas eternais e sem idade,
do tempo que lhes rareia e doutros fados.

A luz é o ocre sujo e consumido da caliça,
na parede que cerca o bairro por inteiro.
O sol foi deserdado, não entra aqui na liça;
cedeu lugar à lua, que a sombra está primeiro.

O céu é como o chão, a mesma irmandade
na cor e na alma feita de pedaços,
como em magotes, os andarilhos da cidade,

sulcam vielas, velhos becos, passo a passo,
a um só golpe o céu, a terra e a vontade
genuína de ter vida e cor no mesmo espaço.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

QUERIDO BICHANO


Meu caro e sabido bichano,
por que te acoitas, dissimulado,
em pose de conquistador
dos fundos do oceano
sem teres sido o predador
nem o búzio por ti predado?

Talvez possas pressentir
não a presa mas o som
que dos búzios dizem manar
e assim ficas a ouvir
os afagos vindos do mar
nesse acolhedor romrom.

Ou então, coisa nenhuma;
uma pausa de reflexão;
uma espera vã ou furtiva.
Porque não fazer nada, em suma,
meu bichano, não é vida,
e gato não é excepção.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

SE O DIABO TEM UMA CRUZ


Se o diabo tem uma cruz
e a carrega por alguém
não é como a de Jesus,
se é ele que ainda a tem.

Imagino líquen e trama;
musgo brotando do chão,
que não pese um só grama
mas puxe pela imaginação.

Será por estes de agora,
beatos de tipo novo,
que as penas deixam de fora
e doam a cruz ao povo.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

MULHERES DE PICASSO


Oiro sobre azul; menino da sua mãe,
desnudo de roupagens e de destino.
- Quem me dera seu colo também…