quarta-feira, 10 de novembro de 2010

POEMA ECOLÓGICO


Cheiro todas as flores que perfumam as manhãs,
como a maresia, o sol, a terra e o fumo dos casais.
Todos me alimentam; todas são minhas irmãs,
quanto mais me quero e transfiguro, quanto mais.

Quanto mais cheiro, ao raiar do sol, o que desponta,
mais me sinto terra, água, elemento vivo e natural.
Se acaso este dom se esgota, será de pouca monta;
pior será se toda esta fragrância tiver destino igual.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

CABALA


Dei contigo
metro e setenta e dois
de cera e manipanso

tal como se em ti
a guerra tivesse deixado
o frio do corpo as cicatrizes
e o cheiro sempre morno
de capela mortuária

dei contigo
quase açafate de rendas agonia e mofo
metro e setenta e dois
tenso
pálido
puerperal
promessa de cera e devoção

dei contigo
medida tão ideal
para não saber se realmente vives
se a morte valeu
tanta imaginação

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O EQULÍBRIO, FINALMENTE


Finalmente recuperámos o equilíbrio
acordamos com facilidade às oito e trinta

e cumpridas as demais formalidades

fica-nos o balanço do reclamo intermitente
a cor mais subtil do lusco-fusco
e o afago decorado há cinco gerações

adormecemos sem custo às vinte e três

ah! o equilíbrio finalmente

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

REGRAS DO JOGO AO AZAR


O Necas era assim
repetia diariamente a proeza
com a mesma e fatal pontaria danada

a competição era permanente
quase ritual:
ele empertigado cumpria o papel fascinante de vencer
eu um terrível e amargo desprazer de me ficar

o orgulho porém jamais me permitiu
lutar pela inversão das coisas
aceitava ferido (de sangue mais desportivo
que orgânico) a superioridade do Necas
e muito mais as regras do jogo que sempre julguei
irremediavelmente eternas

confesso:
vivi anos de esperança em derrotá-lo
mas ele era assim
sem escrúpulos ou mágoa
com o fôlego de quem por sede bebe um copo de água
olhava-me e anunciava quase cínico:
- chapotada em terreno liso
‘trás de pedras ‘trás de nada
limpos!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

QUADRA


Anda o mundo às avessas
p’ra maior galantaria
os que hão-de valer não valem
os que valem não têm valia

(popular)

Outros para valer se valem
do valor de quem o cria…
até que as avessas do mundo
lhes dêem a volta um dia

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

MILAGROSAMENTE


Eu faço milagres
é verdade
eu faço milagres

quem melhor do que eu
o poderia afirmar com segurança?
eu faço milagres
além disso não sou caso único na família
o meu avô fazia milagres

a Senhora de Mércoles
a Senhora Sant’Ana e a Senhora do Almortão
fazem milagres
dizem até que o ti Alexandre de Segura
também fazia autênticos milagres

eu porém faço milagres
eu e todos os santos da minha terra.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

COISAS DA VIDA
















eu sou a flor – disse o sol;
eu sou o sol – disse a flor;
tempero de nós, seja como for .

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

MOMENTO IV

Sei que um traço
marginal
mesmo a carvão
pode
sangrar
mas não será à força
de aparar o lápis
que as palavras
mais frescas
se soltarão
em pedaços
de cristal

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

MOMENTO I


Vingo-me nas palavras
- atalhos da verdade pura
penetro-as sorvo-lhes o sémen
da literatura

terça-feira, 19 de outubro de 2010

MOMENTO VIII



Há sílabas
amputadas
em cada grito
que se desfia
enxuto e gutural
poema que não
derrama
mas percorre
anónimo
o itinerário do sangue

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

JANELAS

Janelas de nós






sexta-feira, 15 de outubro de 2010

ПРАВДА


Miseravelmente, tudo se tornou
indistinto e escuro
como se um manto opaco descesse
sem promessa de sol
e memória de futuro

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

COMPLEXO


D. Perpétua
disse, enferma,
que é efémera.
e eu, perplexo,
aceitei
a surpresa.
- Ora essa,
com certeza,
D. Perpétua,
quando lhe aprouver
faleça.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

DA LIBERDADE


O sorriso é um cavalo à solta
galopando através da boca
o resto
é fruto da imaginação dum puto
que não quer comer a sopa

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

AS TRÊS SEARAS

SEARA DE VENTO

Todos os ventos são bons à sua maneira. E todas as chuvas, e todos os sóis. O vento é também ar que se respira. A seara é a sua cama, o seu colchão de erva e palha estendido até onde se chama linha do horizonte, por mais não nos ser dado a ver.
A brisa da noite é fresca como a água da fonte. Entranha-se nos ossos dos homens e no coração das espigas. Então a seara balança, ondula, qual bandeira de pão, tanto quanto a lua deixa perceber. De madrugada juntam-se-lhe as papoilas, tremendas. Na verdade sempre ali estiveram, mas só agora as suas pétalas deslumbram.
Se a aragem se aquieta a geometria é perfeita: sombras, perfis irrepreensíveis, múltiplos jogos de espelhos, reflectem toda a luz dum imenso sol.
O suão escalda como nenhum outro vento. Tem a bondade duma navalha afiada; corta; tudo submete à sua vontade; queima.
Quando vem, pesado e lento, sufoca. Não é a mesma a cor das papoilas que sobram, onde ainda há pouco tremiam, lambendo como línguas vermelhas o pão semeado. SEARA VERMELHA

O rancho canta enquanto adentra e leva o pão de vencida, a troco de suor. Muito suor e pouca jorna. A quarta não tem descanso. Muito menos quem a transporta.
- Água para além, para molhar a cantiga e o alento!
A seara é um mar que se espraia à força dos braços e do balanço dos corpos curvados de homens e mulheres, que levam a proa à derrota das espigas até à última réstia de sol.
Foices em punho, segam a eito. Hoje, amanhã, no dia seguinte e assim por diante. Tornam os caminhos do pão e pelo pão.
Tudo se faz lutando. Quase tudo é empecilho e estorvo até o pão chegar à mesa de quem, com as próprias mãos, o produziu. Por isso lutam os homens. A seara é um quinhão colectivo de quem a trabalha.
Hão-de vir as máquinas e tractores passados anos e mondas. Que venham. Não será por isso que a memória da seara deixará de ser da cor do sangue. SEARA NOVA

Esta seara não existe (ainda) e é, ao mesmo tempo, a maior: tem o tamanho da esperança. E a esperança é como um silo: se não enche não vale a pena.
A seara nova corre nas águas do Guadiana. Canta quando roça nas pequenas ilhas que espreitam curiosas ao longo da corrente ou repousa nas enseadas para retomar o fôlego e iniciar nova jornada.
Ao fim de cada dia torna a ouvir-se o diálogo:
- Para quando, por quanto tempo mais este caminho?!
- Vou com as águas.
O mesmo é dizer que o seu corpo é a planície.
- Como pode um corpo imenso com tanta deriva?
- Sou imune à dor. Sempre me doeu a dor e agora já não me faz diferença: carrego-a como parte de mim.
- E o açude, a barragem, não te diz nada?
- Quero ouvir o teu dizer. Eu apenas sonho.