
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
DOIS EM UM
- Não sejas maricas, arranca!
- Tem calma, pá, deixa ver se está tudo em ordem.
- Deixa-te de tretas, tens é miufa...
- Não é isso: se fosses tu a conduzir...
- Olha, olha, se fosse eu. Se fosse eu, verias.
- Está tudo em ordem, pronto.
- Vá, arranca, antes que a velha comece a atravessar a passadeira.
- Ainda não percebi a tua pressa...
- Ó pá, não é pressa, é genica. Agora é bem feita: hás-de esperar um ano que a velha passe.
- Não digas asneiras. Primeira. (2ª,3ª, 4ª, 5ª). Já estás mais sossegado?
- Passa-me esses empatas. Vai aí a pisar ovos.
- Falta pouco para sairmos da localidade, não te precipites.
- Quero ver! Por este andar, nem amanhã de manhã!
- Cá está. Vamos pela IP ou queres ir a corta mato?
- A corta mato? És parvo?!
- Vamos pela IP.
- Acelera, porra!
- Vamos a 120, para o caso de não teres dado por isso.
- Vamos mas é atrás dessa lata velha, e ainda por cima é uma gaja a conduzir.
- Está ultrapassada. Satisfeito?
- Se eu não falasse, ainda agora vinhas nas encolhas.
- Bolas!!!
- O que foi agora?
- Olha para aquela fila de camiões a seguir à curva.
- Então? Qual é o problema?!
- Não é um, são dois: os camiões e tu que não te calas.
- Já não digo mais nada.
- Isso. Amua, fazes bem.
-...
- (oh pá, uma tangente!) Já passou a birra? Viste como papei os quatro camiões seguidinhos? Foi canja. Não dizes nada?
- Não querias que estivesse calado? Não fazes outra.
- Tens é inveja, cala-te!
- Outra vez?
- Eh pá, não sejas estúpido. É uma maneira de dizer.
- Por que é que afrouxaste?
- Não viste a placa de 80?
- Valha-me S. Cristóvão! Só me faltava esta... vês uma placa a cascos de rolha e pões logo o pé no travão. Assim não ganhas para calces.
- Não sejas injusto: saímos há meia hora e já galgamos 55 quilómetros!
- Por este andar ainda te chamam o Schumacher da Alameda...
- Às vezes irritas-me. Gostava de te ver a conduzir à noite e com esta chuva miudinha, que no alcatrão é manteiga.
- Tudo te pica, gaita!!!
- Não, meu caro, tu é que não medes as consequências. Para ti é sempre estrada e o conta-quilómetros até era dispensável. É prego ao fundo e por aqui me sirvo...
- Erro. O volante fez-se para homens, não para meninas.
- Bonito! Além de alarve és machista!
- Erro novamente! Nunca ouviste dizer que o automóvel é o prolongamento do sexo?
- Prolongamento?
- Sim, o prolongamento. E que eu saiba o sexo feminino não é prolongável...
- Deixa-te mas é de preconceitos... Está demasiado escuro e chove a cântaros.
- Então continua assim, que havemos de lá chegar a lindas horas!
- Espera. O que é isto? Curva e contra curva para a direita. Não se vê quase nada. Parece um galho de árvore ali no meio da estrada...
- É uma sombra, menina Amélia...
- É? Vou passar-lhe por cima... ai!...
…
- Há feridos?
- Infelizmente, não.
- Infelizmente?
- Sim. Há um morto. Tentou contornar esta falha de alcatrão e só parou lá em baixo. Nem soube do que morreu...
- Há pelo menos testemunhas; alguém que tenha presenciado o acidente?
- Não. Só um morto. Viajava sozinho.
- Tem calma, pá, deixa ver se está tudo em ordem.
- Deixa-te de tretas, tens é miufa...
- Não é isso: se fosses tu a conduzir...
- Olha, olha, se fosse eu. Se fosse eu, verias.
- Está tudo em ordem, pronto.
- Vá, arranca, antes que a velha comece a atravessar a passadeira.
- Ainda não percebi a tua pressa...
- Ó pá, não é pressa, é genica. Agora é bem feita: hás-de esperar um ano que a velha passe.
- Não digas asneiras. Primeira. (2ª,3ª, 4ª, 5ª). Já estás mais sossegado?
- Passa-me esses empatas. Vai aí a pisar ovos.
- Falta pouco para sairmos da localidade, não te precipites.
- Quero ver! Por este andar, nem amanhã de manhã!
- Cá está. Vamos pela IP ou queres ir a corta mato?
- A corta mato? És parvo?!
- Vamos pela IP.
- Acelera, porra!
- Vamos a 120, para o caso de não teres dado por isso.
- Vamos mas é atrás dessa lata velha, e ainda por cima é uma gaja a conduzir.
- Está ultrapassada. Satisfeito?
- Se eu não falasse, ainda agora vinhas nas encolhas.
- Bolas!!!
- O que foi agora?
- Olha para aquela fila de camiões a seguir à curva.
- Então? Qual é o problema?!
- Não é um, são dois: os camiões e tu que não te calas.
- Já não digo mais nada.
- Isso. Amua, fazes bem.
-...
- (oh pá, uma tangente!) Já passou a birra? Viste como papei os quatro camiões seguidinhos? Foi canja. Não dizes nada?
- Não querias que estivesse calado? Não fazes outra.
- Tens é inveja, cala-te!
- Outra vez?
- Eh pá, não sejas estúpido. É uma maneira de dizer.
- Por que é que afrouxaste?
- Não viste a placa de 80?
- Valha-me S. Cristóvão! Só me faltava esta... vês uma placa a cascos de rolha e pões logo o pé no travão. Assim não ganhas para calces.
- Não sejas injusto: saímos há meia hora e já galgamos 55 quilómetros!
- Por este andar ainda te chamam o Schumacher da Alameda...
- Às vezes irritas-me. Gostava de te ver a conduzir à noite e com esta chuva miudinha, que no alcatrão é manteiga.
- Tudo te pica, gaita!!!
- Não, meu caro, tu é que não medes as consequências. Para ti é sempre estrada e o conta-quilómetros até era dispensável. É prego ao fundo e por aqui me sirvo...
- Erro. O volante fez-se para homens, não para meninas.
- Bonito! Além de alarve és machista!
- Erro novamente! Nunca ouviste dizer que o automóvel é o prolongamento do sexo?
- Prolongamento?
- Sim, o prolongamento. E que eu saiba o sexo feminino não é prolongável...
- Deixa-te mas é de preconceitos... Está demasiado escuro e chove a cântaros.
- Então continua assim, que havemos de lá chegar a lindas horas!
- Espera. O que é isto? Curva e contra curva para a direita. Não se vê quase nada. Parece um galho de árvore ali no meio da estrada...
- É uma sombra, menina Amélia...
- É? Vou passar-lhe por cima... ai!...
…
- Há feridos?
- Infelizmente, não.
- Infelizmente?
- Sim. Há um morto. Tentou contornar esta falha de alcatrão e só parou lá em baixo. Nem soube do que morreu...
- Há pelo menos testemunhas; alguém que tenha presenciado o acidente?
- Não. Só um morto. Viajava sozinho.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
É BEM POSSÍVEL
É bem possível que haja mundo
que eu não saiba ou não visse;
é mais provável que, no fundo,
o mundo não saiba o que eu disse.
É bem possível que me encante
– ou não – o canto do meu igual.
É mais provável que não cante.
E se cantar? – Vale o que vale.
É bem possível o apelo às almas,
o seu aplauso para meu conforto.
É mais provável receber palmas
e as não ouvir por já estar morto.
que eu não saiba ou não visse;
é mais provável que, no fundo,
o mundo não saiba o que eu disse.
É bem possível que me encante
– ou não – o canto do meu igual.
É mais provável que não cante.
E se cantar? – Vale o que vale.
É bem possível o apelo às almas,
o seu aplauso para meu conforto.
É mais provável receber palmas
e as não ouvir por já estar morto.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
OS OUTROS

Tardavam os apreensivos duques, subalternos,
mas aí estão, enfim, para o desassossego:
trazem pés de lã, são benevolentes e ternos,
têm dúvidas sobre se os aceito ou renego.
Atiram o barro aos prémios municipais,
às menções honrosas de qualquer evento
e arrumam-se por aí como os animais,
com o coração a abarrotar de ar e vento
São como eu, proscritos, descontentes.
De ouvidos virgens, ainda sem maldade,
- mas esta noite é noite de sobreviventes:
deitem-se comigo; fiquem à vossa vontade.
mas aí estão, enfim, para o desassossego:
trazem pés de lã, são benevolentes e ternos,
têm dúvidas sobre se os aceito ou renego.
Atiram o barro aos prémios municipais,
às menções honrosas de qualquer evento
e arrumam-se por aí como os animais,
com o coração a abarrotar de ar e vento
São como eu, proscritos, descontentes.
De ouvidos virgens, ainda sem maldade,
- mas esta noite é noite de sobreviventes:
deitem-se comigo; fiquem à vossa vontade.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
RAINER MARIA RILKE

Este seu hábito de aceitar convites, ainda,
Rainer Maria Rilke! Não me sove a cama
com a gordura dos seus versos e rimas:
hoje quero dormir só, dispenso a sua fama.
Tinha sono e tenho agora muito mais razões
para me entregar nos braços de melhor sorte.
(Já não aturo, como antes, intermináveis serões)
- Sossegue: pode ser que durante a noite acorde…
O tempo em que deuses poisavam nos poemas
fez-me refractário, como ao lobo faz o burburinho.
Agora, se o pressinto, finjo que não oiço, fujo ao tema
e "uiva em mim a pergunta à busca de caminho".
Rainer Maria Rilke! Não me sove a cama
com a gordura dos seus versos e rimas:
hoje quero dormir só, dispenso a sua fama.
Tinha sono e tenho agora muito mais razões
para me entregar nos braços de melhor sorte.
(Já não aturo, como antes, intermináveis serões)
- Sossegue: pode ser que durante a noite acorde…
O tempo em que deuses poisavam nos poemas
fez-me refractário, como ao lobo faz o burburinho.
Agora, se o pressinto, finjo que não oiço, fujo ao tema
e "uiva em mim a pergunta à busca de caminho".
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
CATECISMO
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
O DESPLANTE DA FLOR
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
INCONSEQUENTE

Só com o ver o trilho, a terra batida,
já o meu olhar progride muito além
do que ao ser humano é permitido,
que é caminhar quando o olhar vem
ao meu encontro e o caminho feito.
Só me abalança o estar presente,
longe de estar perto para o efeito
- inexplicavelmente ausente –
se o resultado for onde agora estou
e não onde me leva este caminhar.
Melhor é não ter para onde ir ou
seguir o rasto vagabundo do olhar.
já o meu olhar progride muito além
do que ao ser humano é permitido,
que é caminhar quando o olhar vem
ao meu encontro e o caminho feito.
Só me abalança o estar presente,
longe de estar perto para o efeito
- inexplicavelmente ausente –
se o resultado for onde agora estou
e não onde me leva este caminhar.
Melhor é não ter para onde ir ou
seguir o rasto vagabundo do olhar.
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Foto enviada por mail de origem desconhecida
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
CÃO POLÍCIA
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
O MEU GATO
Sei menos dele do que ele de mim:
altivo, mas por natureza insensato,
tem-me na mão só com olhar, enfim,
faço-lhe tudo. Sabe-a toda, o meu gato.
Não é por mim que ele me procura.
Descobre-me gestos, usos e sons,
e assim se insinua com doçura
dando-me em troca afagos e ronrons.
E eu o que lhe dou, o que lhe faço?
Nada. Contento-me em que seja meu.
Marco o terreno e dou-lhe espaço
tal como se o meu gato fosse eu.
altivo, mas por natureza insensato,
tem-me na mão só com olhar, enfim,
faço-lhe tudo. Sabe-a toda, o meu gato.
Não é por mim que ele me procura.
Descobre-me gestos, usos e sons,
e assim se insinua com doçura
dando-me em troca afagos e ronrons.
E eu o que lhe dou, o que lhe faço?
Nada. Contento-me em que seja meu.
Marco o terreno e dou-lhe espaço
tal como se o meu gato fosse eu.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
VIAGEM
Ao longe, um sereno povoado.
- Assim o vejo, assim o penso:
paredes brancas com telhado,
chaminés soltando fumo denso.
Só o fumo é sinal de gente,
que não ainda ao meu olhar,
distante, mas aparentemente
já sou eu, além, a fumegar.
Ambos partimos sem norte,
o fumo e eu, lado a lado,
ver de novo, com igual sorte,
ao longe, um sereno povoado.
- Assim o vejo, assim o penso:
paredes brancas com telhado,
chaminés soltando fumo denso.
Só o fumo é sinal de gente,
que não ainda ao meu olhar,
distante, mas aparentemente
já sou eu, além, a fumegar.
Ambos partimos sem norte,
o fumo e eu, lado a lado,
ver de novo, com igual sorte,
ao longe, um sereno povoado.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
CREPUSCULAR ALEGRIA

Brisa de efémero sorriso
transitório, qual mercê;
redondo sinal de aviso
no instante em que se vê.
Depois esfuma-se, fenece,
vem a noite tocada a vento
e o que afinal permanece
é o sorriso do momento.
transitório, qual mercê;
redondo sinal de aviso
no instante em que se vê.
Depois esfuma-se, fenece,
vem a noite tocada a vento
e o que afinal permanece
é o sorriso do momento.
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Foto: Google. Recebida de Mário Quintas
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
REMISSÃO

Agora vejo o rubor do teu rosto,
a aurora boreal do teu olhar.
Vejo açucenas e fogo posto
queimando-me dentro e devagar.
E uma centelha de luz e flama
fulmina-me. Fico cinza e nada,
fumos, pó, restos de chama;
um chão estéril após a trovoada.
Ainda assim sou lisonjeiro,
como pé de água sobre brasas:
detono as veias e, prazenteiro,
troco as minhas armas por asas.
a aurora boreal do teu olhar.
Vejo açucenas e fogo posto
queimando-me dentro e devagar.
E uma centelha de luz e flama
fulmina-me. Fico cinza e nada,
fumos, pó, restos de chama;
um chão estéril após a trovoada.
Ainda assim sou lisonjeiro,
como pé de água sobre brasas:
detono as veias e, prazenteiro,
troco as minhas armas por asas.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
DAS ÁRVORES
Alegria incompleta onde as palavras
nidificam entre pássaros e metáforas
em cada madrugada tingem mais de pólen
e sobressalto o empedrado das avenidas
das solenes avenidas com bar ao fundo
respiração avulsa e inquietude
é quanto as árvores podem dar-nos
se ainda tivermos tempo e fingimento
nidificam entre pássaros e metáforas
em cada madrugada tingem mais de pólen
e sobressalto o empedrado das avenidas
das solenes avenidas com bar ao fundo
respiração avulsa e inquietude
é quanto as árvores podem dar-nos
se ainda tivermos tempo e fingimento
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ALEGRIA INCOMPLETA,
vega 1988
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