Ora agora, adeus!
já não há cocos
e quem os tem chama-lhes seus;
restam os bacocos.
Os bacocos
em linha
esperam os cocos
no alto da pinha.
Olha o coco, diz o bacoco,
parece um novelo.
Disse o bacoco, mas o coco
nem vê-lo.
Ora agora, adeus!
já não há cocos
e quem os tem chama-lhes seus;
restam os bacocos.
Os bacocos
em linha
esperam os cocos
no alto da pinha.
Olha o coco, diz o bacoco,
parece um novelo.
Disse o bacoco, mas o coco
nem vê-lo.
A ravina do olhar com lágrimas,
essa mesma, a que permite a queda
do céu carregado de estrelas
sem nunca chegar ao fundo;
a ravina para onde empurro
tudo o que não quero ver ou sentir,
incluindo as lágrimas
e demais subtilezas da alma que há em mim
é onde guardo as pequenas coisas.
Há dias salvei de morte certa
o que restava duma folha branca
separada do bloco de apontamentos.
Escrevi um recado breve
e pu-la bem à vista de quem o precisasse.
Foi alvo de todas as atenções
durante o período activo de validade.
Depois afundou-se na ravina
do olhar com lágrimas, essa mesma,
a que permite a queda
do céu carregado de estrelas
sem nunca chegar ao fundo.
Estou indisponível, hoje estou indisponível:
não subirei ou descerei a rua,
nem tomarei qualquer transporte.
As paredes gritam-me, ferem-me, insultam-me
e a rua tem uma inclinação inacessível.
Não, hoje estou indisponível,
hoje não vou seguir o trilho costumado!
Vou seguir o itinerário do sangue,
vou inquietar-me, armar-me de palavras
até aos dentes e rebelar-me!
Nunca me fizeram um retrato
de poeta.
Mas fotografaram, pintaram e até esculpiram Pessoa
com o inevitável chapéu de feltro e o par de lunetas
que repartia com todos os heterónimos.
Não tenho um único retrato
de poeta.
Ao contrário de Walt Whitman,
que foi imortalizado em pose de patriarca iluminado,
velho, de barbas esgadanhadas muito além da decência
da pilosidade poética.
A Baudelaire que era feio, fizeram-no
com certeza por maldade.
Eu é que nunca posei
enquanto poeta,
com a mão apoiando o queixo, como os românticos
ou ambas todo o rosto, como os surrealistas.
Ou será ao contrário?
Vá lá, por favor, façam o meu retrato
de poeta,
que não tardam aí poetas do futuro,
desejosos de escrever sobre ele um ou dois versos
dum poema magnífico.
Tremiam com pétalas de rosa as tuas mãos
de um branco tão casto e imaculado,
que mesmo entrelaçadas, como bons irmãos
nada mais nos comprazia; nada era errado.
Caminhávamos pelo bosque enfeitiçado
como pombas alvas, de interesses vãos,
e afinal tão juntos, inocentes e de braço dado,
dos ramos mais sadios, frutos sãos.
Comedidos, como deus manda, sorridentes,
medindo frases, deixando outras entre dentes,
deambulantes fomos ao sabor da vida airada.
Findo o passeio, o casto passeio de inocentes,
éramos ainda simples enleio de parentes,
trementes pétalas de rosa… e mais nada.
O fogo já não arde como ardia; tornou-se meigo,
um enternecedor afago ou quase.
Queima por queimar, sem ímpeto, sem chama.
A água deixou de saciar as sedes mais antigas,
aquelas que não foram satisfeitas em devido tempo
e corre agora, salobra, entre musgos e juncos.
São irmãos que o tempo transformou em brandura,
que as viagens do Sol tornaram rotina.
Um dia acordarão com estrondo. A ver vamos.
Em prudente equilíbrio, que vai-não-vai,
vai indo, vai indo…
Em permanente equilíbrio
entre todas as coisas e coisa alguma;
entre o que nunca chega e o que já basta.
Em periclitante equilíbrio:
morto pelo início, vivendo para chegar ao fim.
E no fim são as contas, as contas à vida
em vésperas de concluir a equação.
Uma procissão de palavras com maior
ou menor sentido, encharcadas de fé ou fértil imaginação,
caminha com devoção à frente do poema.
Alguma serventia terão. Mas não será por isso
que o céu a todas abrirá os portões de ouro e mogno
- que, sendo o céu o que é, assim deverá ser –
porque agora é tarde e faz tempo que o poema deixou a
praça.
Ide, digo-lhes, por hoje é tudo,
amanhã haverá nova
safra e tudo começará de novo.
Cabisbaixas, regressam aos subúrbios da memória.
Oiço-as grazinar à medida que se afastam
porque é com elas que eu também regresso
e ao poema não importa a minha ausência.
Deuses e demónios zumbiam-me ao ouvido
julgando-me permeável, surdo ou distraído;
terão achado que o assunto me deixava comovido
e cuidavam fazer-me bem, o que eu duvido.
Quiseram ter-me sem nunca me terem tido,
por engano ou porque lhes fosse desconhecido
e por fim, tudo apurado, mas não compreendido
concluíram que não fazia qualquer sentido.
Deste incidente não resultou qualquer morto ou ferido.
Quis saber o que pensa a Liberdade.
- E o que disse ela?
Maravilhas. Disse-me até, valha a verdade,
que a flor da livre giesta é amarela.
Amarela? – Perguntei-lhe eu,
não podia, por natureza, ser encarnada?
E foi simples a resposta que me deu:
é da cor que mais gostares, ela é giesta e mais nada.
Chorar de alegria
são lágrimas de poesia;
uma metáfora urdida
em tecido de cambraia,
onda que se desfaz na praia
sem conta, peso ou medida.
Já o choro e a tristeza
são da mesma natureza;
águas da mesma levada:
uma só lágrima vertida
tem conta e tem medida
e pesa uma tonelada.
Ontem, já noite de pijama,
deu-me para escrever um poema a partir do nada.
Meio acordado, deitado na cama,
confesso que não lhe achei grande piada.
Levantei-me, que a poesia assim obriga
e adora ser apaparicada,
meti qualquer coisa na barriga,
voltando depois à empreitada.
O qualquer coisa que é nada
(como bem sabeis) deu-lhe para tomar jeito
e já rompia a madrugada
quando concluí: nada feito!
Perguntam-me: se nada fiz, porque partilho,
mas tudo tem a sua razão de ser:
livro-me deste peculiar espartilho,
e de vós terei um deixa lá, vamos lá ver.
No tempo em que a neve e as nuvens eram de algodão,
assim nos parecia bem disfarçar a cândida natureza,
salpicando as árvores, os rústicos telhados e a ilusão
de alegres e pueris alvuras e tudo era elementar beleza.
Nesse tempo, se existiu esse tempo e nos foi comum,
havia príncipes e princesas a imitar os sonhos e a
felicidade…
Rasgões nos joelhos, lanhos na cabeça de cada um,
estes sim, trouxemo-los intactos a reboque da idade.
O som da palavra bom,
é a sua pele, o seu tom:
o bom da palavra é esse;
o dom não lhe pertence.
Meio-tom é quando abranda,
amolece e não desanda,
é som que não aquece,
dom que nem aquece nem arrefece.
Puxa palavra, palavra puxa
e não dá, não desembucha,
o dom não flui, não sai
nem com palavra d’honra lá vai.
Cheiro cada flor como quem beija
e todo o meu corpo sorri nesse instante.
Respiro e é tudo o que preciso.
Por aqui me socorro de jardins e de flores,
mas só por aqui. Em qualquer outro lugar
não me farão falta; não precisarei de respirar.
É provável até que nem memória de flores
possa haver noutro lugar diferente deste
onde cheiro cada flor como quem beija
e sorrio, e respiro, e vivo.