sexta-feira, 20 de novembro de 2020

PALAVRAS DISPARADAS


Vou carregar a pistola

com palavras já usadas,

bem sonoras, versadas,

aprendidas na escola.

 

São como balas reais:

fazem brecha no impacto

quando disparadas de facto

e vêm a ser mortais.

 

O primeiro tiro é à sorte,

que se não mata, intimida;

o segundo, certeiro, faz ferida

e se não matar é uma sorte.

 

Com tiros para o ar e demais

palavras sem sentido

pode alguém ser abatido

por danos colaterais.

 

Aqui chegado, fim de papo:

nem mais um tiro no pé,

nem frase de rodapé

e meto a pistola no saco!


 

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

NOITE, A RESISTÊNCIA


Os que inventaram esta noite sabiam o que ela é

fria, silenciosa e negra de ambos os lados.

Aos que a proclamaram noite, que o dia lhes seja leve;

um dia lhes seja noite sem explicação.

Os criadores do medo poderão então mentir em cima

das minhas convicções e dizer que choram as buganvílias,

que as papoilas não são essenciais: estão habituadas à contrariedade.

As restantes flores dormirão tranquilamente no meu colo

até o sol chegar.

Os inventores da noite nunca saberão que é desta forma que 

adormeço

e os maldigo, filhos dos infernos! 


 

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

FOGO-FÁTUO



A peste foi anterior ao fogo e o fumo

era um artifício, uma cortina de ilusão,

depois a cinza, o possível lume,

tudo como o previsto na criação.

 

Manipulado, contrafeito, o Sol luziu,

bailou no céu, alimentou esperanças

de pouca dura, disse quem viu

e recolheu, sisudo, ao ministério das finanças.

 

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

O TEMPO PASSA!



Esta manhã encontrei o passado.

Ambos conhecemos aquela esquina:

eu, por tal sina;

ele, por lá ter ficado.

 

Vestia fato preto, discreto,

mas de porte leve e transparente.

Todo um passado em seu aspecto

intacto como se fosse presente.

 

De tarde, com o sol já descendente,

e o passado um presente prematuro,

reparei que afinal estive ausente

a caminho do futuro.

 

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

VERÃO DE S. MARTINHO


Vou contar-te: fazia sol

e tomei a benesse por natural

(não havia razões para a por em causa).

Fazia sol, dizia.

As árvores sorriam-me

como se fossem as rainhas do parque

e eu um príncipe encantado.

Quase sempre me comprazem estes dias

de inesperada luminosidade

e por isso me lembrei de te contar.

A par de tudo isto as folhas vão caindo

em cima dos nossos outonos

mas não era isso que te queria contar agora,

apenas se tornou inevitável dizê-lo.


 

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

ATIRANDO PEDRAS


Para onde vou ou quero ir,

quem sou, que penso eu,

o que de mim posso sentir,

tudo o que realmente é meu..

 

Como saber se é bem

o que por bem me faço

ou que mal há neste vaivém:

penso e daí não passo.

 

E se penso faço o que posso,

se posso já não peço.

Por fim, resta o remorso 

do que sou e não pareço.

 


 

domingo, 18 de outubro de 2020

AVEC LE TEMPS


Muitas vezes não foi o préstimo das flores,

a beleza das pétalas; era o cheiro sem nome,

o perfume que as primaveras têm

por serem primaveras e mais nada.

Dizíamos que o cheiro era agradável e nos comprazia.

À falta de substantivo melhor, chamávamos-lhe Primavera.

Nunca fomos além do consentido, do que era comum.

Até hoje, todos os nomes se mantêm intactos,

apesar de nenhum deles ser verdadeiro. 

 

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

(RE)CICLO

Com mistério e medo,

algemas cerebrais,

vestígios de segredo,

que esperas mais?

 

Não podes, não faças,

acorda mais cedo,

o vinho das taças

está azedo.

 

Servida a zurrapa

dirás que é reserva, um licor raro,

beberás à socapa,

que o barato sai caro.

 

A bebedeira é segura,

a causa é sagrada.

Dada a conjuntura

venha outra uma rodada.



 

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

DA MONTANHA AO MONTE


Um monte, uma montanha, tanto faz,

que me comova ou tire a respiração

por ser cinzento, intransponível como a paz,

choro com ele, doí-me o coração.

 

Depois, transposto, que tudo se consegue,

o que vejo mais além no horizonte?

Nada, a não ser caminho e sede,

vontade para alcançar um novo monte.


 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

DE OUVIR DIZER



Como posso eu comprar vinho, Senhor,

ao preço que estão as uvas,

mais o pé-de-obra de esmagá-las;

como posso eu aventurar-me assim

como vós, que sois capaz de o fazer

a partir da água, a partir do nada,

que é o valor dado à água quando abunda?

Guardai, que vos pedirei ajuda.

 

Mas é de água que preciso agora, Senhor,

não desse etílico líquido, que me mata

e não mata sedes antigas.

Guardarei o bem-aventurado vinho

para as sopas de cavalo cansado, tão nutritivas,

e mais tarde falaremos do pão necessário,

assunto em que também sois mestre

muito competente, segundo ouvi dizer.

 

É de água, pois, o meu pedido, Senhor,

não daquela deslavada que me entra

pelas frinchas do telhado e eu chamo chuva

há uma data de anos.

Água doce, benzida ou não, tanto faz,

mas que eu não tenha de a chorar,

não precise de fingir que tudo está bem assim

e morra de sede como as nuvens.

 

domingo, 4 de outubro de 2020

ESPERAS


No tempo em que o Sol não tinha para nós

segredos de maior, visitávamos os primos,

as avós (inexplicavelmente, os avôs morriam muito cedo)

e a família acrescentada em cada rua da cidade.

 

Depois que o Sol se tornou, além de calendário,

um inexorável marcador de esperas e desesperos,

a vida tornou-se um sítio de desencontros

e passámos a aguardar pacientemente que nos visitem.

 


 

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

LUANDANTE




Confesso: sabia que haverias de chegar

cheia, sensual e nua.

Li na carta astral; estava no ar…

Sabia-te branca, redonda lua.

 

Tinhas pressa, talvez hora marcada

e as minhas adulações não eram desejos teus.

seguiste o teu caminho, porfiada

e eu não pude mais que dizer-te adeus.


domingo, 27 de setembro de 2020

DISCRIÇÃO



Quando não tinhas mais indultos para os devaneios,

baixavas o rosto e o teu olhar colava-se ao chão.

Tenho vergonha, dizias, raios partam os freios

da boa educação! 

 

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

O MEU SANGUE

     
Ambrósio Ferreira

Palpam-me o braço. Teimosa a veia

teme o ferrão. Emerge depois rendida.

A ampola fica cheia

de escassos segundos de vida.

 

Umas vezes a veia é boa e a enfermeira

gaba-nos o braço

outras, por desalinho ou asneira,

o sangue sobe à cabeça e é um colapso.

 

Nada que não se resolva, nada que mate

este devasso,

inquieto como convém, sendo de um vate,

percorre todo o corpo, havendo espaço.



 

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

PARTIRAM AS ANDORINHAS


De repente, quase sem dar por ela,

as andorinhas partiram num até breve

convocado de urgência. Da janela,

vejo um céu inquieto, que de nada serve

 

assim, pendente, sem nada para contar,

de vacilantes nuvens, feito sala de espera,

com sinais de que lhe falta o ar,

suspenso até à próxima Primavera.