quarta-feira, 8 de julho de 2020

APEADEIROS


Ah, pois, o Verão mói, amolece,
quem pode vai a banhos, descontrai
e quem não, fica com ânsias, stresse,
enquanto o pau vem e vai…

O Inverno entranha-se, faz frieiras
rasga a pele e deixa exposto
o quanto de nós são maneiras
e vãos apelos ao mês de Agosto.

Na Primavera já não é assim:
negligente como é o ser humano,
toma a circunstância por um fim,
julgando três meses por um ano.

Todas fazem falta, nos comprazem,
estação que vem; estação vencida:
lamentos? Fugir a elas todos fazem,
excepto ao Outono… da vida

quarta-feira, 1 de julho de 2020

ORÇAMENTO À LA CARTE


A cada ministro, sua tutela
de serviço comunitário,
e uma gamela
para o que for necessário.

Mais um tacho secundário,
restos da conta-corrente
para o secretário,
que também é gente.

Haverá sempre um lugar
no processo em curso
para dialogar
e engolir um discurso.

À mesa do orçamento,
não haverá consolo
para os de pouco alimento,
os que não comem do bolo.

terça-feira, 30 de junho de 2020

A NOTÍCIA


O jornalista morreu a meio
da reportagem. Deixou viúva a notícia,
e três artigos menores por editar.

Consta que a notícia, despudoradamente,
anda já por aí a dar nas vistas,
para garantir o share da sobrevivência.

Fim de citação.



sábado, 27 de junho de 2020

NUM TELHADO, ALÉM


Ia jurar que sobre aquele telhado erguido no casario,
dois pássaros namoram desenfreadamente.
Ia jurar mas não o faço porque não juro
sobre coisa alguma, por princípio, há muitos anos.
Além disso, nada do que julgo ver acrescenta aos pássaros
e ao seu namoro desenfreado.
Guardo para mim o que vejo e a sincronia dos chilreios.
Sabe-me bem só de ouvir e pensar nisso,
contado ser verdade o que penso. 

domingo, 21 de junho de 2020

REINCIDÊNCIAS DA FÉ


Dão à costa os espólios da aventura:
jóias, pedras preciosas, camafeus…
não há fome que não dê fartura
- diz quem sabe, graças a Deus.

Pérolas, pepitas, diamantes, quando não
lentejoulas, pechisbeque variado
e demais filigranas de ilusão
de um galeão em tempos naufragado.

Mas se for pedra-pomes a miragem
do que acaba de dar à costa?
- Nova corrida, nova viagem,
que o carrossel não pára, vai uma aposta?!


segunda-feira, 8 de junho de 2020

AVISO AOS NAVEGANTES



Ide e desdenhai das fomes e das sedes,
nada espereis que vos seja dado;
nem peixe fresco nem melhores redes
e todo o caminho do mar será salgado.

Navegai a eito e não aceiteis beijos,
que vos devoram da boca os lábios;
ninfas, que vos traficarão os desejos,
escravas de deuses ímpios e de sábios.

Não deveis sorrir: é pecado como sabeis
e recebei com a espada ao rei e ao vagabundo:
se os houver, todos são impuros e cruéis
é Portugal que vos espera, não o mundo.

Ide pois. E rogai a Deus e às almas puras
para que desta aventura vos haja aval
e tal sorte vos traga mercês e não agruras
a estas, que deixais sedentas, areias de Portugal.

E dada por obedecida tamanha andança
dareis ao reino terras e cobiças, divina glória,
que para vós será o mundo e a lembrança
em todos os compêndios da nossa História.

(E desde então, degredados, hóspedes do mundo;
Portugal, o porta-bandeira, em pano de fundo.)

sexta-feira, 5 de junho de 2020

PÁSSAROS NA GAIOLA



Tenho pensado muito sobre o que leva um pássaro
a cantar dentro da gaiola. Não fechei ainda o tema
mas começo a ver uma pequena luz ao fundo do túnel.

No início pensei que ele praguejava, que me insultava.
Mudei de ideia por falta de uma prova científica.
Neste caso, o risco de uma tradução pouco credível.

Tempo a mais dentro de casa foi motivo bastante
para sentir o efeito que a clausura provocou às minhas asas,
e a todos os que as têm; a tormenta que é não fazer uso delas.

E então cantámos todas as canções aprendidas em liberdade,
que em liberdade nos tínhamos esquecido de cantar.
Talvez os pássaros cantam também a liberdade.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

TRÊS POR TRÊS


OITAVA MARAVILHA

Eis como a oitava maravilha se enuncia:
a quinta emenda, a sexta esquadra
e o heróico sétimo de cavalaria.    

COMUNIDADE EUROPEIA

As voltas que nós demos por este passaporte.
Agora, é só seguir a boa estrela, que, se deus existe,
há também uma CEE para além da morte.

AS NÓDOAS

Umas são negras (como no dorso as andorinhas)
outras têm cores tão angelicais,
que sem óculos tridimensionais, não advinhas.


segunda-feira, 1 de junho de 2020

PRIMAVERA


A Primavera não precisa que nos lembremos dela
para existir e no entanto é em seu nome
que abrimos as asas e ensaiamos os primeiros voos.

sábado, 30 de maio de 2020

DIALÉCTICA


A verdade anda na rua:
vai e vira, vai e vira,
a verdade nua e crua,
que até parece mentira…

A passo lá vai a verdade
enquanto o tempo não expira,
arrastada pela idade,
já foi verdade e é mentira.

O que faz a mentira verdade
e a verdade ser mentira
é o prazo de validade
que ambas têm por medida.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

VERSOS DA FELICIDADE DOMÉSTICA


Debaixo da mesma bandeira,
qual arco-íris de luz e cores,
o tempo mantem-se no Continente e na Madeira;
menos uma hora nos Açores.

Se tem cura, que deus o guarde;
se peca, que deus seja complacente.
Mas se deus não releva, quando já é tarde,
não passa  de adjectivo omnipresente.

Meias verdades, mentiras, louvaminhas e cantigas,
aqui, onde é bom de ver,
são virgens todas as raparigas
até deixarem de o ser.

terça-feira, 26 de maio de 2020

O AVÔ RELOJOEIRO


Para o avô Sousa, relojoeiro,
a contas com o tempo em fracções,
a cada qual com seu ponteiro
dava números às ocasiões.

Se a vida corresse p´ró torto,
impondo forçado jejum,
pobre de quem, vivo ou morto,
mas que grande trinta e um.

Tudo afinado ao segundo
batiam horas, tocavam campainha
relógios de todo o mundo
era o trinta por uma linha.

Naquele vacilava uma donzela
e num outro, um cuco afoito
apregoava as horas à janela
de nos fazer a vida num oito.

Porém, se não tivessem conserto,
e perdessem serventia
iam pregar para o deserto,
dar as onze ao meio-dia.

domingo, 24 de maio de 2020

AI AS DORES


Não há palavras poéticas
nem ais de mim que não sejam
figuras de estilo patéticas,
que mordem enquanto beijam.

Beijos na face ou na testa,
aqui não entra o amor.
Quando muito, pequena festa:
ai os ais, ai esta dor…

Ai das dores que me consomem
e desta vida de cão;
ai dos filhos que não comem,
ai das tripas coração.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

DOS IGUAIS


Geminar peça por peça
em modelo, altura, condição,
por muito que se pareça,
iguais é que as partes não são.

Semelhar-se já é diferente;
dá ares, sai ao pai ou à mãe,
pois se até o espelho mente
como confiar em alguém?

Nada é igual, parecido seja,
tudo é distinto a seu modo,
por muito igual que se veja
nem as metades de um todo.