quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

NOVE VIDAS, NOVE LUAS


Nove sóis de luz
nove sóis de março
‘inda mal eu nasço
já além me pus
já além me pus

Nove vilas corro
nove vilas venço
e não me convenço
que um dia morro
que um dia morro

Nove ais de mim
nove encruzilhadas
mil enganos nadas
há-de ter um fim
há-de ter um fim

Nove meias solas
nove quase amores
novecentas dores
nove carambolas
nove carambolas

Nove águas turvas
nove nuvens rasas
dai-me as vossas asas
às primeiras chuvas
às primeira chuvas

Nove bem contadas
ao longo dos anos
sem contar enganos
nove bem contadas
nove bem contadas

Nove luas d’água
em que fui refém
dentro da minha mãe
nove luas d’água
nove luas d’agua

Nove luas novas
nove luas cheias
são como colmeias
novas caras novas
novas caras novas

Nove vidas nove
vividas uma a uma
sem pressa nenhuma
nove vidas novas
nove vidas novas



domingo, 12 de janeiro de 2020

VÁ LÁ, ALEGRIA


Vá lá uma gotinha de música
neste dia açucarado;
vá lá um raio de sol,
também é do meu agrado.

Vá lá um cheirinho de vento,
não parem as caravelas;
eu quero que o povo acorde,
abra portas e janelas.

Vá lá uma canção de amor
de improviso, sem solfejo,
daquelas que matam a dor
e têm o sabor de um beijo.

Vá lá para o que me deu,
valeu a pena esperar:
sequei as lágrimas do peito
estava farto de chorar.


quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

AVC - ACIDENTE DO VERSEJADOR CEREBRAL




Ontem apaguei dezenas de versos
só por não dizerem, no poema possível, o que procurava
ansiosamente.
Os versos não têm culpa, não há meio de ter juízo…
Agora sinto saudades deles.
Deixaram-me a poesia moendo, moendo, moendo,
e ambos sabemos que sem versos não há poema que valha.

domingo, 5 de janeiro de 2020

MEIAS PALAVRAS


Acabei de criar algumas palavras novas
e não sei ainda o que fazer com elas,
sequer como se pronunciam,
mas já saltitam de linha em linha,
por meias palavras, espalhando a novidade,
enquanto não lhes dou significado e argumento.
Mais tarde falarei com elas.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

ABRIR CAMINHO


Tocando a carga a mando, dia a dia,
e ajoelhando aqui e ali, quando calha,
não dá para ver (não é vida nem é via)
com quantos paus se faz uma cangalha.

Um olho basta aos dois que nos assistem;
um olho só pode ver toda a jogada
que eles, por serem cegos, cumulam, insistem,
com quantos paus se faz uma jangada.

Só uma solução existe, só de um modo,
e esse é o nosso canto, a voz que soa:
assim verão (quando, enfim, formos um todo)
com quantos paus se faz uma canoa…


segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

MALMEQUER


Malmequer a vida inteira,
bem me quer a pura flor.
Este mal, queira ou não queira,
é, meu bem, um mal menor.

Bem me quer eternamente,
o bem querer adivinhado.
Com o bem, bem pode a gente;
com o mal é que é o diabo…

Pior, mas muito pior,
por cada pétala arrancada
para em vão buscar amor:
- mal me quer, muito, pouco, nada.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

HELA


Dizem que vem sem avisar, pé ante pé,
que é furtiva e, amiúde, traiçoeira.
Negra como a noite, não sei se é se não é;
assim a pintam, quando não doutra maneira.

Outros acham que é fado ou fatalidade,
que alerta e dá ares de ser, que se anuncia,
traja de branco e toda ela aparenta castidade,
não fosse a contrariedade de se servir fria.

Não tenho em minhas mãos como sabê-lo,
por ser coisa do acontecido e do acontecer
e não me mata a curiosidade um só cabelo,
nem estou inquieto ou morto por saber.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

DA LÍNGUA PORTUGUESA


Esbanjamos as palavras até à míngua,
rudes garimpeiros de águas turvas;
na verdade, maltratamos a língua,
vendemo-la e estamos aqui p’ras curvas.

Essa, que os eruditos dizem de Camões,
e aos poetas dá tantas dores de cabeça,
anda por aí aos acordos, aos encontrões,
fingindo não haver mal que lhe aconteça.

No escrever e no falar é dor d’alma,
ver a língua tratada de qualquer maneira:
ao bom senso não se dá a palma
e no fim ou entra mosca ou sai asneira.

Também os tempos verbais e as corruptelas
já não dão para ninguém ficar calmo,
até um dia andarmos às apalpadelas
e pagarmos, bem pago, com língua de palmo.

Uns, porque o que mais importa
é que, em síntese, a gente se entenda;
outros, porque das regras fazem letra morta,
não tardará quem ponha a língua à venda. 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

LUA ATRIBULADA




Ao cimo da ladeira,
ao fundo da rua,
abre a clareira
e vê-se a Lua
nublada, errante,
despida, nua,
em quarto minguante,

em quarto minguante,
despida, nua.

De candeia acesa,
de nuvem vestida,
não tem a certeza
se é luz indevida
ou só ela pressente
uma réstia de vida
em quarto crescente,

em quarto crescente
uma réstia de vida.

domingo, 15 de dezembro de 2019

O TEMPO DA ROSA


Explodiu uma rosa na palma da minha mão;
desfez-se em pétalas, letal estilhaço,
não tinha espinhos nem males de insolação;
foi de repente, explodiu de astenia e de cansaço.

Cansaço de não ser mais nada além de rosa…
Nunca como antes: apetecida rosa em botão
crescia no jardim, alteada pelo caule, viçosa,
jamais como depois, solitária rosa de imitação.

Será plástico, perguntava quem lhe passava a mão,
que artesão foi capaz de obra tão perfeita?
- Antes morta me quero, a este aperto de coração!
E assim explodiu de dor, na minha mão, desfeita.     

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

ESCADAS


Em um só segundo
se chega ao fim do mundo,
para tanto basta subir
as escadas para o conseguir.

Descê-las já não digo,
isso aconselho, meus amigos,
não é o mesmo, não se iludam,
nem todos os santos ajudam.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

O RIO


Num impulso violento,
o rio dilacera a montanha;
abre um leito fecundo
e corre ligeiro para o mar.

Perde, pelo caminho,
a impetuosidade primordial…
Doce, lambe a terra áspera,
e descansa, por fim, exausto,
na praia da memória.

Os rios não morrem nunca.  


sábado, 7 de dezembro de 2019

É UMA PENA

É uma asa
uma casa pequena
não é uma casa
é uma pena

é um ninho de pardais
um imaginário bando
um a menos um a mais
que vai voando

é o tecto do mundo
a cair-nos em cima
de andar vagabundo
é o clima é o clima

um que vai e que volta
outro que já não vem
outro fica à solta
à boleia duma nuvem

são anjos alados
é quem mais ordena
é uma pena aos bocados
é uma pena

são os pássaros à toa
na eterna novena
é uma pena que voa
é uma pena é uma pena

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

INTERLÚDIO LUNAR (VARIANTE)


Não assistirei à floração dos jardins da Lua,
não chegarei a tempo para ver as flores radioactivas
explodirem cinzentas, nem o pó da natureza nua
cobrindo as vinhas doces que foram prometidas.

A Lua perdeu pontualidade sobre as ondas do mar
e é agora sombra da própria sombra rara e escura.
O tempo ganhou penumbra; perdeu de vez o luar
e morre junto à praia, que a Terra encharca de secura.

Não voltarei, que errante me perco na espessa neblina,
em tufos de gás e fumos, que o chão expele agastado.
Das fases ficou aviso para o vazio que domina
e o brilho, o encanto dos jardins, memória do passado.    

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

INTERLÚDIO LUNAR (PRIMEIRA FASE)


Não assistirei à floração dos jardins da Lua,
que me importa, se apenas a quero olhar…
Basta-me pálida, de manhã cedo, se saio à rua
ou noite fora, nua, lambendo o sal do mar.

Como agora se esconde, depois reaparece,
num jogo permanente de sombras e de segredos.
Ora em carne viva, ora quando desaparece,
qual areia fina que escorre por entre os dedos.

E sem o desejar volto aos presumidos jardins
lunares com botões de rosas, buganvílias, lilases,
esculpidos como futuros magistrais gradins.
Tudo é sonho e, tal como as da Lua, são fases.