terça-feira, 19 de março de 2013

TELAS FINAIS - DINHEIROS E MAIORIAS

O início dos anos 80, do século XX, deu à democracia portuguesa nova roupagem e linguagem a que já nos tínhamos desabituado há meia dúzia de anos. Era o tempo e a ânsia de sermos Europa, mesmo que para tanto deixássemos de ser Portugal.

Os olhares matreiros e de soslaio, o dinheiro a rodos que pingava de todos os lados e o neoespertismo nacional, preenchiam notícias e ganhavam terreno nas ruas, nas empresas e no aparelho de estado. Nisso as autarquias não fugiam à regra. Fundadas em legislação democrática, cedo se tornaram verdadeiros polos de desenvolvimento, geradoras de crescimento e progresso em benefício das populações, cujas carências, especialmente no interior, obrigavam a um esforço empenhado e colectivo dos cidadãos e autarcas. Outras, porém, mereciam outro tipo de atenções.

Os PGU’s começavam a ser aprovados, mas havia, nestas últimas, quando não resistência, pelo menos a atitude displicente que tanto podia ignorá-los, como alterá-los dum dia para o outro.

O mais importante de tudo era o “negócio”, a oportunidade de compra e venda de terrenos; de locais para demolir, alterar, construir de novo, o tempo daqueles que, olhando aos próprios bolsos mais que às almas das freguesias, compravam quintas e quintinhas, cobiçavam locais de alto rendimento em zonas urbanas. Para tanto era necessário um amigo na autarquia ou que sobre ela tivesse influência decisiva.

Da noite para o dia algum solar desabava a camartelo, algum prédio crescia como se fosse elástico, algumas árvores pareciam ter sido engolidas pela terra mãe, não fossem os vestígios de serrote. Não tardaria, muito mais rápido do que seria de esperar, que os altos prédios, como grades de cerveja empilhadas, não se mostrassem como novos habitantes do espaço, arrogantes e iguais, iguais e arrogantes, sem qualquer parentesco com o que ali sempre existira, de tudo fazendo igual, igual, igual e incaracterístico.

Era o tempo dos tijolos e das vigas de betão armado, para os quais não há ciência humana, lei ou limite, estética ou cércea.

Por esta altura dava José Cruz os primeiros passos na banca. Um rapaz vivaço dentro do seu fato completo. Atendia ao balcão com simpatia a todos por igual, que assim mandavam as regras impostas pela gerências e os princípios que trouxera da aldeia. Depressa passou a efectivo. Na fila para o gabinete do gerente eram quase sempre as mesmas respeitadas criaturas. Iam pedir dinheiro vivo. O progresso exigia uma rua seguida de outra rua e logo um bairro e outro bairro, aqui, ali, uma cidade em cima doutra cidade. José Cruz via esta gente entrar e sair vermelha de sorrir, estalando ruidosamente as mãos após a assinatura dos contratos de novo empréstimo, e presumia que a felicidade dos clientes era também a sua, a da sua família, não tardaria muito.

Na Câmara Municipal pontificava uma qualquer eminência parda, de nome Valência, que engenhava, cortava, abria e dava azo a esta correria desenfreada.

- Falou com o Valência sobre aquilo que lhe pedi?

- Ele não fica prejudicado…

- Ah, claro que não! Ele sabe que pode contar com a instituição.

- As coisas são assim mesmo: onde há cinco pisos, há seis…

- Ou sete!

Agora não podiam deixar de soltar uma gargalhada cúmplice, agarrados de mão direita, cliente e responsável do banco. Pela algazarra que invariavelmente acompanhava a despedida, todos os funcionários olhavam com discrição, procurando não melindrar os clientes do balcão, para a porta do gabinete do gerente.

Sendo nesta altura frequentes este tipo de atendimentos vip, a verdade é que todos aqueles homens se assemelhavam: vermelhuscos de carnes, caras de lua cheia, barrigas alarves e linguagem que soava a falsete, para além dos escandalosos pontapés na gramática.

Primeiro os pedreiros e serventes, depois carpinteiros e armadores de ferro, todos vão subindo à medida que os edifícios tomam altura. A empreitada é de sol a sol; de sol a sol os vemos como artífices da obra nova. Algum tempo após o edifício fecha-se como um casulo. Tem então a forma definitiva de prédio urbano e gigantesco. É o tempo de estucadores, electricistas e pintores darem o seu melhor em igual empreitada oculta e silenciosa. Não tardará que a cidade ostente chamativos cartazes anunciando o empreendimento aos melhores preços por fracção e condições extraordinárias de financiamento.

E aí estão os novos gigantes, talvez como aqueles de que fala o livro que José Cruz poderia ter lido num Domingo de Páscoa ocioso, não fosse a sua falta de hábitos de leitura, a ocupação dos seus sentidos com outros monstros invisíveis, que povoam as entrelinhas das circulares do banco e, no melhor sentido, a proveitosa conversa com Beta.

Quando pela manhã o sol bate na fachada dos recém-criados mordomos da cidade, a luminosidade das suas cores berrantes ferem de morte o nosso olhar. À primeira vista dá a sensação que Deus enlouqueceu e naquele mesmo instante os pintou de cores diabólicas como castigo por todos os pecados que por dentro contraíram, desde o mais fundo alicerce até à última telha colocada.

Serão em breve habitados por todos os querem casar, experimentar o que agora é mais moderno ou simplesmente mudar de ares, que a banca facilita e até incentiva. Por enquanto, estes que pela demanda de casa nova se acercam dos escritórios da especialidade, estão todos em pé de igualdade quer para a banca, quer para os empreiteiros e vendedores. Tarde de mais saberão que assim não é. Mas isso são contas de outro rosário. Esse tempo virá depois.

- É só facilidades…

- É dinheiro a girar, meu amigo, é dinheiro a girar…

Era um diálogo avulso ouvido por José Cruz ao balcão do banco.

- E por que não eu entrar num negócio destes? – Pensou –.

Não havia mãos a medir para tanto cliente ávido de um andar, pequeno que fosse, e dele pudesse dizer com orgulho, “é meu”. É certo que muitos se ficavam pela satisfação de dúvidas e logo desistiam para não esticarem demasiado a corda dos seus proventos. Agradeciam as explicações, levavam uns prospectos para lerem em família e por aí ficavam.

Mas também havia os que se aventuravam sem cuidar de fazer contas, tal era o entusiasmo criado pela propaganda da banca, nos cartazes que cercavam a cidade e o boca-a-boca constante sobre tais novidades. A verdade é que ninguém queria ficar para trás.

A oposição na autarquia marcava agenda com inúmeras ilegalidades e compadrios. Falava até do endividamento e desnorte, que a uns beneficiava, a outros iludia e à grande maioria prejudicava.

O entendimento da maioria, porém, era outro bem diferente.

Segundo estes, o progresso era evidente, os cidadãos respiravam sorrisos de contentamento e, como ainda há pouco se ouvia no banco, o dinheiro gira, gira, gira.

E é tanto assim, que a maioria dos eleitores voltou a eleger aqueles que tanto bem-estar proporcionavam. Eis como José Cruz raciocinava.

Os relatórios municipais transbordavam de números, cifras e demais arengas, que quantificavam a grandeza e o regozijo de um mandato de sucesso. A maior parte das vezes era Valência que elaborava os dossiês e os apresentava como fabulosos documentos de prova da excelente gestão autárquica. Valência procedia como os generais que após a batalha, tendo garantido o seu quinhão nos despojos, contam as espingardas e desdenham dos soldados que as empunharam, para anunciarem vitória sobre o inimigo. A maioria e o presidente exorbitavam com tal progresso, tanto empreendimento. Depois de tanta promessa podiam dizer que a obra aí estava. Evidentemente uma grande obra.

O órgão deliberativo assim o confirmou. A maioria e todos os que de juntas de freguesia eram presidentes se levantaram, e já não era sem tempo, que os rabos doíam de tanto assento, dando com a sua levantadura aval à nobre causa. Nada que não fosse esperado de tão fidedigna gente.

continua

domingo, 17 de março de 2013

TELAS FINAIS - CHEGAM AS RETROESCAVADORAS

A política era, para os recém instalados, meia dúzia de anos após Abril de setenta e quatro, o fruto mais apetecido. A euforia reinava na maioria autárquica. Não eram precisos programas (não os possuíam) ou de qualquer ideia inovadora, que não fosse deitar as mãos à massa. Está tudo à sua mercê: os serviços estão atulhados de projectos e mais projectos acabados sem nunca terem sido mais que papel com bonecos e quadrículas; as populações têm por resolver as necessidades básicas.

A febre obreira não necessita por isso de qualquer plano ou programa: está tudo por fazer. Hoje uma escola, amanhã uma junta de freguesia e a recuperação de infraestruturas, no outro dia um fontanário e o saneamento de uma aldeia à escolha, e tudo isso está inscrito nos programas da oposição mais séria e combativa. O avanço é casuístico. Não tardam as inaugurações com placa e assinatura do novo messias. É o início da obra.

Não tardam os anjos cinzentos, digo aqueles que são capazes de ler a alma das pedras e de quem a pode ter em saldo para vender ao melhor preço, adivinhar o sentido prático dos tijolos burros. Estabelecem redes de interesses. É agradável saber que são anjos; era importante não ignorar a sua cor cinzenta…

Os lotes de terreno, as quintinhas e pequenos bosques em redor da cidade, tudo entra no negócio, tudo tem um preço.

Há dinheiro e retroescavadoras. Há populações com carências de todo o género, por isso é urgente criar a oferta.

A maioria, eufórica, torna-se arrogante por tanta empreitada e a teia vai crescendo dentro e fora da autarquia.

Deliberações e projectos passarão para segundo plano; são um empecilho à obra. A cidade, antes apática e conformada, depressa se assemelha a um estaleiro gigante e cresce até ao limite, se o limite puder ser também oportunidade de negócio, conter a febre do cimento, do tijolo, do alcatrão.

O movimento no banco aumenta, o balcão apinha-se de gente que usa uma linguagem de solvência sem balizas, de olhos que brilham e se refletem naquele eldorado com paredes de mármore e balcões de madeira envernizada.

José Cruz sente também, apesar do imenso trabalho, o seu quinhão de felicidade. A magia do dinheiro tudo transformava em futuros auspiciosos, em sucessos garantidos.

Consumou-se o prodígio: em pouco tempo a cidade ficou irreconhecível; a velha cidade já não se revê nesta moderna urbe, maior do que alguma vez pode ser sonhada.

A exaltação não deixa ver que estes limites, estes novos marcos da civilização, em breve serão esquecidos, passado o interesse económico dos promotores e que, anos após, haverão de apontar baterias para o coração da cidade, para onde regressará o espelho da vaidade, o alvo de todas as atenções, as mesmas teias de interesses, a mesma euforia obreira, variando nos nomes das placas inauguratórias, mas mantendo o propósito dos que aí se mandam inscrever. A nova ordem, a nova obra.

Além do mais, são as obras o que são: umas capazes de persistir porque o cimento e as vigas conseguem resistir à erosão por mais tempo e outras que, não existindo já fisicamente, continuam na memória de quem as comtemplou ou delas tomou conhecimento de fonte segura.

Nunca saberemos nós o que vai na cabeça de outros ao observar uma obra, se o que lhes interessa é o proveito que da obra podem ter ou se, pelo contrário, sentir que os demais vêem o que se lhes mostra ao olhar, sendo eles a verdadeira obra. Restam uma placa, uma inscrição com o nome, as atribuições e as mordomias de um fulano de tal cujo sonho deixou inscrito em coisa qualquer para ser revisto.

Continua

sábado, 16 de março de 2013

TELAS FINAIS - PEQUENOS PRAZERES

- Sempre me saíste uma ave… - Disse José Cruz ao encontrar Alexandre no bar do costume, no centro da cidade.

- Levo-te só uma de avanço. Pede que hoje pago eu.

- Não estava à espera de te encontrar tão cedo.

- Ora, negócios… Combinei com um cliente, não saí e afinal teve de levar a esposa ao hospital por causa dumas dores, não sei, e fiquei com a tarde estragada.

- Estragada não, que tu não deixas…

- É.

Nestes convívios, quase sempre a dois, por vezes com clientes de Alexandre ou colegas de José Cruz, mas muito raramente, os amigos conversam tudo do muitas vezes nada que há para dizer.

É nestas alturas que o bancário arrasta o vendedor, a pretexto do jantar, até sua casa, onde Beta é apanhada sempre de surpresa.

- Anda até lá abaixo.

- Hoje não dá, pá. Tenho aí umas entrevistas…

José Cruz já conhecia o calão. Alexandre não era pássaro de gaiola. Era de vida airada, de pardal sem ninho e quanta inveja lhe causava!

- Se não tivesse espaço como tu lá em baixo morria em menos dum fósforo.

José dirigiu-se à jovem empregada e pediu:

- Traga mais duas e amendoins.

Estas conversas não têm mote, princípio ou fim, mas se a ambos agora perguntássemos sobre o enfado de tais convívios, sujeitávamo-nos a uma resposta torta. O que dizem (podem até repeti-lo outra e mais outra vez) não tem interesse de maior; o mais importante é como dizem um ao outro o que é mais íntimo e também o que de mais corriqueiro por aí circula.

Não tarda, os itinerários opõem-se e até custa acreditar como conciliam modos de vida tão distintos. Para José Cruz o itinerário está traçado, decorado há anos, não tem fugas possíveis. Já no destino, as rotinas mantêm-se. Amanhã poderá contar a mesma história de hoje, que pouca diferença fará um qualquer pormenor sem importância. O mesmo não se dirá de Alexandre para quem toda a cidade é a sua casa, todos os caminhos são o seu caminho, sem horas, sem roteiros precisos e sempre a tempo de inverter a marcha. Retém o cheiro das ruas e das casas como alimento das suas raízes empedernidas de citadino. Lamenta as ausências de força maior, mas também estas lhe acrescentam o prazer de se sentir bem dentro do seu espaço de eleição, por tudo e por nada, como agora está com o seu amigo de sempre.

- Um dia destes faço-te uma visita surpresa. Como vai a Beta, anda bem?

- Estás a prometer! Ela também ficaria contente de te ver por lá.

- Prometo e cumpro. Ainda lá tenho aquele uisquezinho doze anos?

- Claro, sabes que eu não bebo em casa.

A ânsia de ambos contarem tudo e nada tem enfim o tamanho de dois dedos de cerveja no fundo dos copos de vidro. Amanhã recomeçarão o que nunca estará acabado. Os mesmos caminhos separados por uma estrada ou uma rua invisíveis, ausentes de todos os mapas e cartas, apenas presentes nos resíduos, já em espuma, da cerveja compartida.

continua

sexta-feira, 15 de março de 2013

TELAS FINAIS - A CASA

Sete horas da manhã, Domingo de Páscoa. José Cruz saiu da cama de mansinho. Maria Alberta não deu conta e, se por acaso deu, não nos pareceu a nós. Nem um nem outro recordavam o Domingo de Páscoa de há 27 anos. Este ano o feriado veio mais tarde no calendário e o aniversário do casamento já tinha ocorrido no mês passado.

Este era talvez o dia mais estúpido do ano: duplamente feriado; o alívio da folga não tinha a compensação de um café aberto, pelo menos àquela hora. Teria de manter-se ali por casa, fazendo de faz de conta, que estas lides não têm objectivos e metas a cumprir, nem as atenções de Beta, que tudo acha obrigação e nada mais que isso. Dirigiu-se para a sala. Estava silenciosa e escura. Apenas dois ou três dos primeiros raios de sol atravessavam as persianas como fios de luz e poeira e desenhavam no chão outras tantas bolas luminosas como esferas de vidro. Passou em revista todos os objectos mudos que talvez o contemplassem e, em surdina, lhe agradecessem tão insólita visita. Olhou o aparelho de televisão, agora mais parecido com a velha ardósia da escola primária, depois a mesa de jantar conversível feita de pinho envernizado. A faixa de linho bordada que a adornava rigorosamente ao centro, fora ele que a oferecera à mulher pelo seu aniversário há dez, onze ou talvez doze anos, não se lembrava já. Por último virou-se para estante, da mesma mobília, com duas portas do lado direito, em vidro, que tinha dentro, em perfeita harmonia, os copos e cálices alinhados a rigor por alturas e funcionalidades. A um canto sobressaiam garrafas de licores e uísques, quase todas por abrir. Do lado esquerdo, as pratas, os bibelots e uma colecção de cinco volumes, de fina encadernação em couro, cujos títulos e autores respectivos se faziam anunciar em folha de ouro nas lombadas. Retirou um ao calha. Desviou o naperon que cobria a mesa e dispôs-se a ler o que fosse. Recordou a rapariga elegante e cheirosa que um dia, pelo início da sua carreira de bancário, por aí, ainda havia aquele balcão corrido e todos os colegas acorreram em busca dum olhar ou sabe-se lá o quê da moça que parecia atrair a atenção dos homens. À medida que se foram apercebendo que o intuito da aparecida era a venda de livros e nada mais que isso, esgueiraram-se para as suas ocupações, deixando o Zé Cruz na situação de quase ser obrigado à compra daqueles cinco volumes de autores famosos de todo o mundo. Pensando bem, foi o argumento que José Cruz encontrou para si mesmo, por que não comprar aqueles livros tão bem cuidados e de autores de qualidade insuspeita, contra a entrega imediata e pagamento em doze prestações? Por trás, os colegas, sem que ele o suspeitasse, faziam apostas. Uns que o Zé comprava, outros que apenas esticava os dois dedos de conversa com a simpática vendedora. Ganharam os primeiros, já o sabemos nós.

Levantou a pesada capa e logo na primeira página, em letras de um bastardo francês com arrebites semelhantes a gavinhas para dar um ar mais erudito, podia ler-se: D. Quixote de La Mancha e, por baixo, Miguel de Cervantes. Já tinha ouvido falar e lembrava-se até duma figura de homem grotesco e redondo escarranchado num burrito magro e obediente que mal podia com o seu peso. Por que diabos nunca tinha aberto aquele livro. Aquele e os restantes quatro, pensou. Passou algumas páginas e eis que o texto começa. Demorou alguns segundos para decifrar a primeira letra que se escondia um pequeno quadro também rendilhado como na primeira página e mergulhou na leitura.

Se a esta calma matinal com o sol ainda a dar os primeiros passos se pode chamar silêncio, chamemos-lhe então isso mesmo. Beta continuava sem dar acordo de si e a penumbra da sala dava ambiente para esta aventura nunca experimentada antes.

Leu rapidamente a primeira página mas hesitou, ao virar a folha, dera-se conta que nada lhe tinha ficado na memória. Voltou ao princípio. Procurou absorver quase letra a letra o texto, virgem para si, até quase soletrar a erudita descrição do Cavaleiro Andante que vivia no mundo dos sonhos. Chegara novamente ao fim da página e, fosse por magia ou outra artimanha qualquer de difícil explicação, continuava sem conseguir recordar-se do que até aí tinha lido.

O fenómeno não lhe era completamente estranho. Afinal já o experimentara várias vezes no banco, quando lhe caíam em cima, logo pela manhã, resmas de normas de serviço e circulares. Mas estas traziam números, taxas, juros, percentagens e, às vezes, até equações. Tinha de relê-las e em muitos casos solicitar a ajuda de colegas mais experientes na matéria e atreitos a leituras, não fosse fazer má figura com algum cliente mais exigente, que os há que querem saber de assuntos para além de onde o Judas perdeu as calças. Achou por isso que a solução seria ouvir-se. Retomou a leitura, desta vez em voz alta. A meio da página, a primeira, que ainda daqui não saímos, sentiu ranger a porta e ao mesmo tempo entreabrir-se lentamente. Perdeu a concentração e fixou-se na entrada da sala. Era Beta que acordara entretanto, ajudada pelo murmúrio da sincopada leitura do marido.

Tinha o robe vestido e o cabelo ainda vincado pela almofada. Já sabemos que não é mulher de se produzir antes da hora do almoço. Mas hoje está ainda um tanto enxovalhada. Talvez tenha tido uma má noite de sono ou o zumbido do Zé lhe tenha soado estranho aos ouvidos, interrompendo um qualquer sonho bom que não chegou ao fim.

- Que fazes aí, Zé?

- Nada, nada. Ia agora mesmo arrumar o livro.

Levantou-se como uma mola e foi colocar a obra no local onde há bem pouco tempo a tinha retirado com tanta curiosidade e vão proveito. Mentiu. Não sentiu necessidade de grandes explicações ou não o saberia explicar convincentemente.

Beta, ao contrário, sentou-se devagar numa cadeira lateral da mesa, bocejou sonoramente e apoiou a cabeça entre as duas mãos. Não nos parece que esfregue os olhos e muito menos que queira ajeitar o cabelo. Está cansada. É assim que costuma achar-se quando não tem ainda os fusíveis todos ligados.

- Por que falavas, Zé?

- Eu?

Ia mentir de novo, mas recuou. Porquê mentir? Que mal tem ler um livro, ler um livro em voz alta? Ainda assim…

- Estava a passar os olhos ali pelo…

Já não se recordava do título.

- Que te apetece hoje para o almoço?

Interrompeu Beta, desinteressada e, sem o saber, no momento oportuno.

Estavam sozinhos. Depois da partida de Sónia para o estrangeiro, que lá está muito bem e se recomenda, pensaram em arranjar um cãozinho daqueles que é só pelo, mas o Zé disse logo:

- Não te metas em trabalhos, Beta. Se tens tanto gosto por cães, entretém-te com os da vizinhança, que bicheza que por aí não falta!

A D. Perpétua, disso sabedora e de muito mais coisas que agora seria fastidioso contar, quis oferecer-lhes um caniche branco, todo ele caracóis de seda, como um anjo de cão. Na verdade, apareceu na igreja a uma missa matinal, ia a meio a homilia, e o padre que, como bom católico, não quis escorraçar o bicho, afinal também criatura de deus, sugeriu a D. Perpétua que cuidasse do pobre animal e o encaminhasse ao seu critério.

- Cabrito, não é costume ser cabrito?

Beta tinha feito a pergunta por uma questão de hábito doméstico e teve de fazer esforço para entender a resposta do marido.

- Ah, claro. Está temperado desde ontem…

Se avaliarmos o comportamento de Beta saberemos que não era aquela a sua preocupação, nem a hora diurna e a conversa ensonada que a traz sem descanso. Mas ficaremos a sabê-lo pelo diálogo que prossegue:

- Tens falado com o Alexandre?

José Cruz esqueceu definitivamente o livro de capas em couro e letras doiradas, desfez as pregas do rosto que lhe ficaram das pequenas mentiras ensaiadas quando a mulher o interrogou sobre a leitura e foi sentar-se a seu lado. Colocou os cotovelos sobre a mesa e olhou-a com ar sério e pesaroso.

- Falei, sim, sexta-feira.

E mais nada se ouviu durante intermináveis segundos. Horas, foi o que pareceram.

- E…

- Tu não sabes metade da minha vida…

- Se não me contares…

- Não sei se sei contar. Ser bancário é vida que muitos ambicionam. Emprego seguro e limpo, leve e bem remunerado… Mentira!

O dia, olhado do ponto de vista católico é de ressurreição, de aleluia. Porventura estamos crentes que será também um dia assim para este casal amargurado e supostamente morto há muito mais de três dias.

José Cruz prosseguiu:

- Todos os dias chovem normas e circulares com tretas dos que estão lá em cima e só vêem números e lucros, sempre a multiplicar, sempre a multiplicar. Há dias tive de enfrentar um cliente que pediu um empréstimo para investimento. Chegou indignado, com uma carta do banco na mão, parecia que me queria comer. É um tipo ponderado e bom cliente.

O cliente tinha recebido uma carta, endereçada pelos serviços financeiros do banco, dizendo que por causa do artigo tal, da norma não sei quê, o empréstimo tinha sido cancelado. Primeiro estava tudo bem, o gerente chegou a aconselhá-lo a dar início às obras e agora voltou tudo à estaca zero. E quem leva com isto em cima? O Zé, pois claro! Noutro tempo pediam dez e levavam vinte, agora que as vacas emagreceram falam de créditos mal parados e demais entraves que sempre existiram mas só agora são argumento.

- Mas onde é que isto vai chegar?! Já não bastavam amigos e clientes antigos se verem obrigados a entregarem as casas porque o desemprego lhes bateu à porta e a isso recorreram para não morrer de fome e aqueles a quem não é concedido crédito por evidente endividamento e saldo mais que negativo!

Agora José Cruz tinha o rosto fechado e as rugas de há pouco voltaram a sulcar-lhe a testa.

Vinham-lhe à memória as ofertas de créditos contaminados, produtos financeiros bonificados de duvidosa rendibilidade que o capital financeiro promove para se abastecer de mais-valias especulativas, sem correspondência com a respectiva produção de bens.

- E o pior disto tudo é que a muitos deles fui eu que em tempos lhes sugeri e até insisti para que contraíssem empréstimos, que eram só facilidades, pressionado pelos objectivos, sempre os objectivos!

Beta, que há muito não tinha conversas deste género, com o marido ou com quem quer que fosse, não sabia o que responder. Desde a sua saída da fábrica que as suas conversas não passam da lana caprina, se nos é autorizada a aproximação ao seu antigo ofício. Ela é mais de vizinhas e vizinhos, de coisas e loisas, de voltas e reviravoltas como um croché interminável e de duvidosa utilidade.

- Sabes que só somos santos quando morremos. Nessa altura sim, “era uma santa criatura”. Enquanto cá andamos é malhar para não sermos anjinhos.

Assim rematou José Cruz para despertar a mulher que parecia ter ficado assolapada com as histórias do banco.

É incrível como estes prédios altos e simétricos, de quadrículas no lugar de janelas, se fecham por si e ao fechar-se encerram quem lá vive dentro e dentro de si. Este pequeno diálogo, por pequeno que fosse, teve sabor a milagre. Nunca entre paredes tinham experimentado, o Zé e a Beta, uma tão completa conversa, com palavras e frases até ao fim, sem discussão ou discórdia.

Na rua não se ouvia vivalma. Era um feriado a sério. O pouco comércio que existe, caso não fosse feriado, não acrescentaria grande coisa. Há menos de uma semana a papelaria abriu falência e a retrosaria já não abre portas vai para três meses. Não fosse outro o esmagamento de que falamos e só de olharmos para aqueles estabelecimentos encerrados, com correspondência antiga no interior junto à porta, nos pareceriam eles vítimas do silêncio da rua e do peso dos andares encaixotados. Sobrevivem os cafés e o minimercado para sedes e fomes de ocasião.

Seria no entanto incompleto este relato, e não dizemos injusto porque de justiça nada tem o que incompletamente descrevemos, também fechou a única agência bancária sediada no bairro. Constatámo-lo com um certo regozijo interior, difícil de explicar por palavras. E quando assim é, a memória tem uma borracha especial que apaga tudo o que não queremos ou não desejamos lembrar. Por outro lado, todos sabemos, e este que a história vos conta não é excepção, que todo o comércio que fecha ou muda de lugar, além da saudade ou do alívio, conforme os casos, sempre deixa vestígios da sua passagem. Assim, a papelaria deixou papéis, uma espécie de confettis de furação de folhas, raias de papel triturado, o que, até para um leigo, não deixava dúvidas sobre o falido inclino. A retrosaria, para além de alguns pequenos botões de camisa, deixou rasto de fragmentos de gregas, nastros fitas de gorgorão esgarçados sem qualquer préstimo, prova esta também evidente de quem por ali passou. Ora a agência bancária não deixou qualquer vestígio do seu comércio: por mais que olhássemos, não vimos moeda, cêntimo que fosse, ou nota amarrotada por engano confundida com papel vulgar. Só isto prova a nossa distração e o desdém por este comércio que tudo aproveita, que tudo oculta, que tudo varre à sua volta.

No bairro ninguém compra nada de vulto. Para isso estão as grandes superfícies que cercam a cidade e as vontades dos clientes.

Não é o caso do cabrito que, comido a dois, estava uma delícia. Este veio da aldeia, que a terra ainda tem destes mimos. Estava de comer e não diremos chorar por mais por não valer a pena. Sobrou ainda para o jantar. Por isso estava e estará de comer e chupar os dedos, que a intimidade permite e não constrange.

A tarde do feriado de Páscoa é ainda mais pesada no bairro. Os vizinhos não se afoitam a saídas vespertinas e os que tiveram oportunidade saíram bem cedo e só voltarão quando o sol arrefecer atrás da serra. Os que ficaram não dizem nada: escutam às paredes por divertimento e espreitam pelos orifícios das persianas. Já o tínhamos dito, a vida no bairro é o que se ouve e o que se vê e quase nunca o que realmente é. Por isso a Beta e o Zé repousam ainda consolados à mesa do almoço.

- Esqueci-me de fazer uma sobremesa, Zé…

Que interesse tinha tal remate, ainda que o dia solene o sugerisse.

- Sobremesa? Não me cabe nem o palito nos dentes!

Estavam felizes. Conversaram. Beta soube das intrincadas vidas no banco que apoquentam o marido e tinha-lhe, sem o dizer, perdoado as más-caras, o almoço correu de feição, pese o facto de a Sónia estar tão longe, de modo que até faria amor com ele, caso lhe solicitasse e não fizesse mal à digestão como ouvira uma vez dizer a D. Perpétua, que disso sabe ou diz saber, vá-se lá saber como, se de homem não conhece senão o padre Alberto.

As sentenças e pequenos ódios de estimação da vizinha, de quem, aparentemente, quase todos desdenhavam, acabavam sempre por fazer mossa e moer a rosca dos condóminos que se dedicam ao ofício de falar por falar.

O vizinho do rés-do-chão direito, para ali mudado há pouco tempo, não tem nome ainda. Por isso é tratado por “aleijadinho”. A criatura teve um acidente de trabalho grave e ficou ligado a uma cadeira de rodas. Mudou-se para este rés-do-chão por oportunidade de assim poder ter maior mobilidade, juntamente com a mulher e duas filhas menores.

- Como é que o homem, naquele estado se impõe como pai, se nem consegue pôr-se de pé? - Zumbe Perpétua. – E a vida dele com a mulher, uma tristeza… - Perpétua, corrompe desta forma a massa cinzenta de quem se dispõe a ouvi-la e depois retira-se fungando e, num tom de voz de religiosidade latente, remata: - Coitado!

Beta lembrou-se desta recente ladainha e ficou sem vontade daquilo que ainda há pouco tanto parecia desejar.

Assim se mitigam os sentimentos nestas sucessivas ilhas. Uma solidão colectiva, cuja canseira diária, a luta pelo futuro, passa quase sempre pelo pagamento daquele seu quinhão a tempo de o poderem chamar realmente seu.

Continua

quarta-feira, 13 de março de 2013

TELAS FINAIS - DIZ QUEM SABE

Conheço bem o casal. Há um par de anos que sou visita lá de casa. Desde que vieram da aldeia, ele para o liceu e ela para a fábrica de têxteis e confecções, que sou amigo do Zé. É bom tipo. Já agora apresento-me: o meu nome é Alexandre Monteiro, sou solteiro e vendo ao retalho componentes electrónicas, no ramo automóvel, por conta duma empresa alemã. Isto de não ter horário para entradas e saídas, andar de terra em terra como os ciganos, não é para quem se estima e, casamento que viesse a acontecer seria sol de pouca dura. As mulheres gostam de ser apaparicadas e com esta minha vida errante não tardaria a que o caldo se entornasse. É assim que penso.


Apesar das ideias lhe saírem pela boca a velocidade capaz de atropelar algumas palavras, acrescentaremos nós, da frequente utilização do bordão “digamos assim” de que tanto usa e abusa, e da sua vida de celibatário, de pardal rabo de saia – consequência das andanças a que obriga a sua profissão e do meio mundo que diariamente lhe preenche todo o dia de sol e não poucas luas – Alexandre tem outro lado mais íntimo e culto; mais atento à vida, à leitura e às artes. Alguns dos seus clientes mais antigos afirmam mesmo que ele escreve poemas, embora tenha um certo pudor em mostrá-los. A amizade com o casal Beta e José Cruz é sincera, não porque tenha neles correspondência a este seu lado menos conhecido, mas antes pelo sentido humano e verdadeiro da forma como se relaciona com as pessoas e preserva as amizades mais antigas.


O Zé e a Beta moram, desde o boom do cimento armado dos anos 80, num sítio periférico semelhante a milhares de outros, incaracterístico, como se de velhos granitos e charnecas tivessem brotado arranha-céus, autênticas gaiolas humanas. Na verdade, mais parecem grades de cerveja empilhadas e arrumadas à espera de substituição do vasilhame. Moram num quinto direito com vista para a avenida e para o campo inculto a perder de vista nas traseiras, que esse ainda lá está, meio deserto, meio lixeira. A avenida está quase sempre às moscas. Aparentemente ninguém mexe, fala ou vê. Digo aparentemente. A verdade é que atrás duma arcada há um par de ouvidos que nos escutam; pela fresta duma cortina espreita-nos um olhar de mórbida curiosidade; ouvem-se sussurros de gente além das portas, latidos de cães obrigados a ser domésticos para o resto da vida, que não suportam quem é livre de andar, subir e descer escadas e passear na rua, como seria a sua natural condição.


Ninguém se conhece pelo próprio nome. Talvez deva dizer que a maior parte dos moradores não gostam de se dar a conhecer. Por isso é frequente a identificação pela fracção que cada um habita. Bem, é um modo de dizer…


Este tratamento frio e quase impessoal leva a que ninguém seja o que realmente é, mas por via do epíteto, algo sem nome, sem personalidade, sem alma, com excepção da D. Perpétua, solteirona e beata, a avaliar pelas vezes que vai à missa, deve ter o corpinho cheio delas.


Este comportamento é meio caminho para a livre interpretação da aparência, para o juízo de valor e, claro, para a coscuvilhice.


Não são raras as falsas preocupações pelo estado de saúde do vizinho do rés-do-chão, que é deficiente motor e se move em cadeira de rodas, sendo a verdadeira inquietação, não a evolução positiva da enfermidade, mas como se deitará ele com a mulher ainda nova e com bom aspecto ou como faz o papel de pai, se sempre está sentado e dependente da família como uma criança. As entradas e saídas deste ou daquela, pois, à do 2º. esquerdo, ou aquele vaidoso do 3º. frente, que vive sozinho, que segredos terá? Já para não falar do boato em que me envolveu, que só me deu vontade…


Estou a desviar-me daquilo que realmente queria contar-vos e já estava a entrar no meu próprio jogo.


Há dias comprei um par de calças de ganga. Aquilo é coisa universal e as bainhas precisam de ser subidas. Calhou falar nisso ao Zé, lá em casa, e a Beta ofereceu-se logo para me resolver o problema. “Traz as calças, que isso é num instante enquanto as subo”, disse-me ela.


Ontem de manhã, quando me preparava para mais um dia de estrada, cheguei à conclusão que não tinha um único par de calças lavado. Restavam as de ganga que nunca vesti e ainda permaneciam enroladas no saco da loja onde as comprei.


Lembrei-me por isso do oferecimento da Beta. Sabendo embora que o Zé já teria saído para o trabalho, a nossa intimidade e já longa amizade, não me inibiu de ir lá a casa, digamos assim, de calças na mão.


Quando a Beta me abriu a porta ficou um pouco assarapantada por não me esperar ali àquela hora. Menos não estava eu pelo que tive de passar de ouvidos, falas e latidos escada acima, que a ausência do Zé todas as especulações permitiam, mal sabia eu, mas isso é outra história…


Ela estava ainda em robe e, digamos assim, descomposta. A Beta é mulher de se ver só para depois de almoço…


Mas eu expliquei tudo direitinho e rapidamente para não causar mal entendidos, mesmo antes dela fechar a porta atrás de mim. “É num abrir e fechar de olhos”, garantiu-me ela, com ar simpático.


Tirou-me as medidas da virilha ao calcanhar, mediu depois as calças novas e pôs-se a descoser, a cortar, a alinhavar e, por fim, na máquina de costura, com meia dúzia de pedaladas, ali estavam as calças à minha medida como se fosse eu padrão universal.


Agradeci, pedi desculpa pelo inconveniente e, quando me preparava para sair, ela atirou-me: “Tens falado com o Zé?”, “Tenho, porquê, passa-se alguma coisa?” Quis eu saber. Foi então que a Beta me disse que o meu amigo andava esquisito, quase não falava, entra e sai de casa sem dizer água vai e à noite pula para cima dela, satisfaz-se e adormece que nem um passarinho. Já com a lágrima ao canto do olho, confessou-me: “Sabes, Alexandre, ainda ontem, estava com uma dor de cabeça daquelas, saltou-me para cima, começou no vai e vem, vai e vem, e não sei se para se aguentar mais um bocadinho ou por não chegar lá, ali esteve tempos sem fim, que eu só pensava se não se vem depressa deixo-me dormir”


Vá lá saber-se porquê, a homem que é homem, isto custa a ouvir, ainda para mais dum amigo como o Zé.


Mais não consegui que assegurar-lhe uma conversa de tirar nabos da púcara, digamos assim, para depois esclarecê-la, correndo o risco da intermediação nada saudável para o meu feitio.


Agradeci de novo o arranjo das calças, dei-lhe um beijo de despedida e acariciei-lhe o cabelo em jeito de solidariedade e carinho. “Passarei um dia destes”, disse ao fechar a porta.


Por mais que o tentasse, andei todo o dia com a queixa da Beta a bater nas paredes do cérebro. Hoje continua. É insuportável. Não é que uma pessoa de vida airada como eu não oiça destas e doutras, às vezes bem mais trágicas. Mas são de gente anónima, às vezes até anedota de veracidade duvidosa. Estes são meus amigos, porra!


Agora por gente anónima, digamos assim, será que o Zé e a Beta são protagonistas de algumas dessas histórias que se contam, de que nos rimos a bandeiras despregadas, entre duas rodadas de imperiais?


Isto só pode ser efeito daquele labirinto onde residem. As pessoas ficam mortas por dentro; parece que vivem mas há muito que não têm vida dentro de si. É como se arrastassem a carcaça, que é o corpo, em sucessivas rotinas, os mesmos gestos de sempre, as mesmas falas, o mesmo cansaço, as mesmas preocupações, a mesma incerteza no futuro.


A culpa só pode ser daquele maldito sítio sem alma e dos desalmados que o mandaram construir. Fazem-se sacrifícios a vida inteira a poupar para a prestação da nossa independência, da nossa casa, e vai-se a ver é isto.


Dentro dos edifícios há aquilo a que chamam condomínio, ou seja, pelo menos nas escrituras há um património com dono e é comum. Mas na rua não. A rua é anónima. É como se ali ninguém pisasse mas apenas escorregasse para se meter em casa, fugindo assim às angústias do mundo e a este deserto de fantasmas.


Ainda não vos tinha dito mas digo agora: sítios destes, e eu vejo centenas deles diariamente, todos iguais, como atrás contei, são cemitérios do pior que há porque enterram gente viva. As pessoas que lá vivem estão mortas e não sabem. É o que eu penso e dá-me pena, se bem que pena não é um sentimento nada saudável. O que é preciso é falar com as pessoas, agitá-las antes que morram, digamos assim, por completo.


Um bairro a sério, para além de habitação propriamente dita, necessita de serviços, escolas, empresas, espaços de lazer e convívio dos moradores (jardins, associações) mas, para além de tudo isso, precisa de memória. Se assim não for; se constituir apenas um espaço em que as raízes são unicamente as que ainda restam após a devastação das árvores que antes povoavam o local, para abrir caboucos e alicerces, em troca da implantação de gaiolas gigantes; absurdos blocos de tijolo, violadores do céu e da paisagem, então teremos de esquecer essa noção de “bairro”, como lhes chamam, ou aconchego da vida em comunidade e passamos a chamar-lhe “sítio”: lugar indefinido e artificial, sem raiz, sem memória, sem vida.


Hoje à noite, sem falta, vou falar com o Zé. Ele precisa duma boa conversa com este seu verdadeiro amigo.


Vão desculpar-me, digamos assim, por esta minha prosa. A verdade é que toda a gente sabe como estas coisas me indignam e sou frontal: digo o que penso e os meus clientes, que são também meus amigos já o sabem. Aliás, comercial que seja frouxo de conversa tem os dias contados. Posso gabar-me de ter um amigo em cada cliente. Até nos pagamentos. Quando não podem a trinta dias, pagam a sessenta, quando a coisa aperta até podem passar um cheque pré-datado, que o mal do dinheiro obriga a isso mesmo.


Não o disse, mas digo-o agora, se precisarem de motores de arranque, cambotas, juntas de cabeça ou mesmo de relés e outros componentes electrónicos, falem comigo. Há sempre uma atenção…


A razão de estar aqui, porém, é outra. Sou muito amigo de quem tem a incumbência de escrever a história e foi ele que me pediu esta arenga. Desculpem-me se fui maçador, mas é assim que eu vejo as coisas. Outro assunto é a pontuação, os pontos finais e as vírgulas, que são da autoria dele. E a ele dou então a palavra.

continua

TELAS FINAIS - GENTE VULGAR


… cada uma das coisas boas da vida que se perde é a própria vida que perdemos.


Italo Calvino em a Especulação Imobiliária


Maria Alberta, Maria Alberta Sequeira da Cruz ou Beta para os amigos e para ela mesma, já que é assim que se apresenta quando alguém de novo lhe estende a mão ou inclina ligeiramente o rosto para a cumprimentar e dar-se ao conhecimento. A Beta, portanto, é rapariga para os seus quarentas e muitos nunca confessados, um jeito muito particular de balançar as ancas ao andar e um sorriso de muito batom e muita maquilhagem.

Porém, se a ocasião é solene, lá vêm aquelas febres que sempre atacam as mulheres, afirmação de independência, essas coisas, e então declara:

-Maria Alberta Sequeira, Cruz é do meu marido.

Em várias ocasiões sentiu uma espécie de ironia contida no rosto daqueles a quem assim se declarava, mas foi coisa que nunca a fez corar ou sequer bulir com o empenho da sua pose altiva.

Estes desabafos, porém, não são para levar a peito. Beta fala desta forma para que lhe achem graça. Talvez até tenha ouvido o dislate de alguma boca com fome de conversa, acabando por adotá-lo. Mesmo assim fala de barriga cheia, salvo seja, que já não tem idade ou, em seu dizer, “paciência” para essas coisas, iludindo os anos que leva de vida e felicidade escolhida, esses sim, não lhe permitem tais ousadias.

Além do mais, combinam estas falas com a sua personalidade: sabe o marido e sabemo-lo nós para o contar, que nos seus verdes anos, ainda na aldeia natal, os mais próximos a zurziam com epítetos de pelo na venta e maria rapaz. Se a tudo isto acrescentarmos o quanto custará a uma mulher carregar a vida inteira com o estranho apelido do marido, será moléstia censura-la.

Em tempos trabalhou numa empresa têxtil. Esta faliu e ela não teve outro remédio se não atirar-se aos trapinhos. Em casa fazia arranjos para fora e desta forma ajudava o orçamento doméstico. Agora pouco faz. “Estou cansada de não viver”, como é seu costume dizer.

José Bernardes Cruz, o seu marido, é bancário há mais de vinte anos e ocupa no banco, um desses cargos intermédios, à custa de moderníssimas nomenclaturas, não passando nunca de subalterno. Pelo menos é isso que dizem aqueles seus colegas a recibo verde e outros que vão passando temporariamente pelo balcão, enquanto não arranjam coisa melhor. O Zé, digo, o José Bernardes Cruz é um mouro de trabalho naquela função designada por gestor de conta.

Está já distante dos tempos de galã solitário e bem-parecido de estudante no Liceu. Apareceram-lhe as primeiras rugas e as entradas da calvície tornaram-se mais profundas, obra da profissão cheia de preocupações, objectivos e outras canseiras. “Comeram-me a carne, agora vão ter de me roer os ossos”, diz com ironia entre duas imperiais ao Alexandre, seu amigo de sempre. Conserva no entanto o ar aprimorado a cuja “montra” do banco obriga, veste fato completo e usa gravatas de seda de cores suaves e claras. O que o banco lhe retirou de dentro, vai compondo por fora…

No atendimento ao público nunca se esquece dos produtos financeiros, das colecções de moedas e outras preciosidades mais ou menos douradas, dos seguros e dos cartões de crédito que a direcção lhe impõe com metas a cumprir. É verdade que, no seu íntimo, é seu dever não endrominar o cliente, mas é a sua carreira que o exige e, mais do que isso, a sua sobrevivência e da sua Beta, já que a Sónia, o único rebento do casal, casou há três anos e vive com o marido, que é licenciado em direito, e tem emprego em Estrasburgo num qualquer gabinete da União Europeia.

Não se mete em política, o Zé. “São todos iguais”, diz. Manifesta quase sempre, com excepções de pormenor para alimentar conversa, o seu apoio a quem está no poder. “Se foram eleitos, foi o povo que os elegeu, por isso têm toda a legitimidade.” E mais não quer dizer ou ouvir.

(continua)

terça-feira, 12 de março de 2013

TELAS FINAIS - UMA EXPLICAÇÃO

… Na casa nasci e hei-de morrer


na casa sofri convivi amei

na casa atravessei as estações

Respirei – ó vida simples problema de respiração

Oh as casas as casas as casas

Ruy Belo, Poema Oh as casas as casas as casas, excerto


Passei os últimos cinco anos de trabalho nos serviços técnicos municipais dum pequeno concelho do Alentejo: Viana do Alentejo.
Primeiro em áreas ligadas à cartografia e, em seguida, na gestão de águas. Quer numa quer noutra secção, o convívio com o desenho, os projectos de arquitectura, a fiscalização e o licenciamento era diário. De toda aquela linguagem técnica que surgia nas conversas entre colegas, havia um nome composto por duas palavras que volta e meia se soltava e me inquietava sem o demonstrar. Também nunca quis perguntar o significado por não ser das minhas atribuições mas, confesso, também porque sentia receio, infundado, é certo, pela revelação do seu conteúdo. Refiro-me às TELAS FINAIS, que hoje sei que constituem o conjunto de desenhos finais de um dado projecto, incluído alterações e correcções introduzidas no decorrer da obra. Mas não o sabia na altura. A imagem que então me ocorria sempre que ouvia aquela exigência técnica era algo parecido com mortalha, coisa definitiva e sem regresso. Enfim, algo angustiante.

Agora, mais do que razões ou suspeitas; mais do que dúvidas ou superstições, é também o título desta estória e ainda a procissão vai no adro.

Dada a explicação sobre o título, resta apresentar-vos as “telas finais”. As obras estão prontas e habitadas…



(continua)

segunda-feira, 11 de março de 2013

PONTE PARA NENHURES



A partir do próximo post vou deixar a poesia descansar e passarei a contar-vos uma história (ficcionada) sobre… urbanismo, isto é, de como se vive na cidade moderna. A estória terá de ser contada por capítulos, caso contrário poderia ser acusado de alguns torcicolos e eu não quero que tal aconteça. Já há por aí coisas a mais para carregarmos às costas.
Ah, a estória chama-se Telas Finais. Até lá.
Para já, um pequeno texto de introdução, depois lá iremos…



O sol rompeu as nuvens escuras e cravou os seus raios em toda a praça. Emergiu então o edifício de betão e ferro. Os raios de sol não tinham já qualquer importância. Os meus olhos morreram naquele instante… e a memória contou-me uma estória de embalar:


-Aqui, neste local onde nos encontramos, vou construir uma ponte suspensa, a maior e mais imponente que alguma vez os vossos olhos enxergaram – disse o autarca, chispando com a flama daquela ideia tão surpreendente –

- Mas não temos rio, Senhor Presidente, para quê uma ponte se não temos rio?!

- Não temos, é verdade. Hoje. Considero isso um erro da natureza… - lamentou o autarca – Mas se um dia o tivermos, já cá está a ponte, a maior alguma vez vista e a memória de alguém que teve visão e se antecipou aos elementos!









sábado, 9 de março de 2013

D' (assim no original)


Vai-lhe tão bem
o lenço no regaço
ou será que ela vem
nas ondas que eu faço?

A modos que voa
são seus seios asas
ou sou eu que à toa
plano sobre as casas?

Leva-a consigo o vento
com carícias e pressa
ou sou eu que a invento
para meter conversa?

sexta-feira, 8 de março de 2013

POEMA DO LADO CONHECIDO



Tocavam
tambores
tumores
tamborilando
tantarantam

tartufos
tremendo

e a tropa
tornando
travando
tropeça

terminou o tempo
- saltar do unimog à pressa

terça-feira, 5 de março de 2013

ESCOLHAS



O que é que tem mais alento,
rompe o sufocante chão,
e floresce ao mesmo tempo:
a palavra sim ou a palavra não?

O que é que tem mais verdade,
de se revoltar em motim,
porque é seu desejo e vontade:
a palavra não ou a palavra sim?

Sim ao amor, sim à vida
e não a quem trai, a quem mente.
Ambas, na justa medida,
são verdade equivalente.

domingo, 3 de março de 2013

LOGRO



Para seguirmos o caminho alheio
dão-nos o trilho e até uma ponte;
acenam-nos um oculto horizonte
com vistas até ao meio.
Queres que to diga ou que to conte?

Depois do convencimento
(e outros que virão de seguida)
julgarás ser tua essa vida,
a que deste consentimento.
Queres que to conte ou que to diga?

Antes que alguém to apronte
e tu embarques na cantiga:
queres que to diga ou que to conte,
queres que to conte ou que to diga?