quarta-feira, 21 de setembro de 2011
SONETO PERVERSO
Vai ser bonito quando chegares
e vires as palavras do serão:
deitaram-se às rimas, aos pares,
como se agita a fé em procissão.
Por fim, era já mais o desnorte,
batendo a via sacra em arraial,
de pavio aceso, valha a sorte,
velavam um poema artesanal…
Afinado o coro metricamente
- ‘inda obra tosca, inacabada –
que de ti era oração independente.
Hás-de ver, poesia, a abençoada
lira, a um só tempo ateia e crente,
faz chorar as pedras da calçada…
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
SOBRE O QUE É INSOSSO
Há gente que é como as aspirinas:
não faz bem nem mal, qual enfeite.
Eu trato-as assim como às lamparinas;
dou-lhes meia d’água, meia de azeite…
Quase nunca enchem, nunca, quase,
tal como os alcatruzes no vai e vem,
como a lua sempre na mesma fase,
“é morto ou vivo, o que é que tem?”
Não se confessam, não dizem nada;
de falinhas mansas, mordem p’la calada.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
DUAS VAZAS
1.
Vamos lá ver se nos entendemos
duma vez por todas:
disse bolas, sim, disse bolas,
mas não me referi ao sólido geométrico.
Na verdade, estou há quatro jogadas à melhor de duas
e nada.
Bolas!
2.
Tinha a palavra alinhavada:
meu straight flush imbatível,
julguei teu bluff impossível.
Não fosse o royal flush e ganhava.
Vamos lá ver se nos entendemos
duma vez por todas:
disse bolas, sim, disse bolas,
mas não me referi ao sólido geométrico.
Na verdade, estou há quatro jogadas à melhor de duas
e nada.
Bolas!
2.
Tinha a palavra alinhavada:
meu straight flush imbatível,
julguei teu bluff impossível.
Não fosse o royal flush e ganhava.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
UTOPIA
Joan Miró, Estéticas, Sonhos e Utopias
Finalmente posso voar
preciso só abrir os braços
como num reencontro de amigos
e de breve impulsão do vento
as asas virão depois
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
À VOLTA DA VIDA
Manhãs de negros corvos e de azia
é quanto oiço e quanto posso ver:
estes que julguei mortos um dia;
os mesmos que a terra há-de comer.
Neste meu alfobre, tem pouco a ver
semente e fruto como então soía
e, se for tal o caso, se sobreviver,
que a terra enfim lhe possa ser macia.
Contraditório é o vaivém da vida,
na terra nasce e morre o mesmo corpo;
cumpre em ambos a gesta corrompida,
de não saber se se chega a bom porto,
pelo contrário, se já estamos de partida,
decifrar se se é morto-vivo ou vivo-morto.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
LOUIS ARMSTRONG
Louis Armstrong, acompanhado da sua mulher, Lucille, em digressão pela Europa, na sua passagem por Roma foram convidados a visitar o Papa. Pontificava então o cinzento Pio XII.
A certa altura da conversa, insípida como seria de esperar, o chefe da Igreja Católica perguntou:
- Têm filhos?
Armstrong, fez um daqueles sorrisos largos que o caracterizavam e respondeu:
- Não, Santidade, mas divertimo-nos muito tentando-o.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
O ESPECIALISTA II
Revi em baixa o meu próprio caso:
depois do doutoramento em estar e o mestrado em ser,
para leigos, depois de saber estar,
concluí: sou um europeu; sou um on trick pony.
O atraso e as insuficiências do meu país, que é Portugal,
levaram-me a esta inusitada demora.
Invejo os franceses.
Na Europa toda a gente inveja toda a gente.
O Presidente da Comissão Europeia inveja-se a si próprio
como a um cherne.
Mas eu invejo os franceses.
Nada da sua história, dos seus Bonapartes, da sua guilhotina, dos seus
quelque chose sur quelque chose, não.
Invejo a sua inteligência:
Eles criaram o verbo être.
É um verbo extraordinário
que significa, ao mesmo tempo, ser e estar.
Isso, por si só, ter-me-ia poupado um tempo precioso
na minha carreira académica
e o meu sucesso teria ocorrido muito antes desta crise global,
como dizem outros especialistas
de áreas que não domino.
Desta forma, nunca chegarei a tempo de saber.
domingo, 4 de setembro de 2011
ANIMAIS
Logo que comecei a aproximar-me da quinta, o come-se-há - assim se chama o guarda canino do lugar – já me tinha farejado.
Agitava-se e gania de ansiedade e contentamento, se me é permitido interpretar desta forma a atitude do animal, depois de uma noite de vigilante trabalho, entregue a si mesmo e sem ladrar, que para isso foi ensinado.
Assim que me viu ao portão correu desenfreadamente ao meu encontro e, como não podia deixar de ser, fincou-me aquelas enormes mãos nos ombros, lambendo-me a cara e o que de mais lhe deu na gana, como faz a tudo e todos de quem gosta. Afinal de contas, é um animal de grande porte, suficientemente corpulento para intimidar quem não lhe adivinhe o carácter meigo e pacífico que na realidade possui.
Não tenho dúvidas em relação a este seu comportamento. Sei que me estima e respeita como macho alfa, mas se exagera nas festas de boas-vindas, desconfio logo de asneira grossa na minha ausência…
Olhei discretamente de relance, mas aparentemente estava tudo no seu lugar. Parecia até que o vento nocturno tinha varrido ordenadamente as folhas das árvores de fruto e arrumado as alfaias.
- Que fizeste tu desta vez, meu malandro?
Questionei sem esperança de resposta, mas antes para me convencer de que o primeiro olhar me tinha iludido, como quase sempre acontecia.
- Vamos lá, vamos lá – ordenei.
A euforia do come-se-há aumentava à medida que caminhávamos em direcção à sua casota.
- Come-se-há! – Gritei-lhe, em tom de repreensão. E não precisei de mais nada: deitou-se junto aos meus pés e começou a ganir baixinho como se pedisse desculpa por algo que eu não estava ainda preparado para entender.
Nesse instante, um som idêntico vindo da sua casota fez-me aproximar da entrada e eis a surpresa: um cachorro de raposa com dias de vida, aninhava-se a um canto, tremendo de frio.
- Onde foste tu roubar a raposinha, meu patife? Era claro que a rapinara à progenitora.
Descoberta a marosca e presumindo o meu assentimento, entrou na casota, lambeu a criatura e enroscou-se ternamente em volta daquele corpinho frágil e carente, de modo que a própria mãe não faria melhor.
- Bonito serviço, desabafei para ver se, entretanto, me ocorria alguma ideia com pés e cabeça.
Daqui em diante já não há matéria para ficção.
Por motivos desconhecidos, a raposa mãe, supondo-se não ter sido pacífica a adopção do filhote pelo come-se-há, não foi vista em algum momento nas redondezas e por isso a pequena raposa foi entregue a quem de ofício.
O mais difícil foi convencer o “pai”, coração de manteiga, a aceitar esta forma humana e burocrática de resolver o assunto. A dedicação de uma noite bastou para uma saudade infinita.
Por tudo isto terei sempre relutância em apelidar de animal a quem de humano não julgue inteiramente, coisa que hoje em dia me ocorre com frequência.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
MANIFESTO
“A força das circunstâncias obriga”…
(ora aí está a chave para a ditadura)
é como quem diz: queira ou não, siga
os meus passos, a minha assinatura.
Causa nobre, esta coisa de ordenar…
só de ouvi-los no discurso activo,
se entende que o verbo a conjugar
tem ardis nas entranhas e é transitivo.
Impostos do alto de eleita condição
por quem, que saiba, não se manifesta,
o melhor de tudo, assim, é dizer não,
resistir como é devido e com razão
e chegar no lombo da dita besta,
perdem-se as que caírem no chão.
terça-feira, 30 de agosto de 2011
A RONDA DOS DEMÓNIOS
Os demónios cercam-me a casa. É seu costume.
Os deuses deixaram de o fazer há algum tempo.
Mas não o fazem por inveja ou por ciúme;
apenas porque é o tempo agora o seu momento.
Tentam-me, espiam-me, induzem-me consentimento
a tudo o que é fácil, descartável e a bom preço,
e eu já farto de promessas, quase não argumento,
deixando que se convençam do jeito que lhes pareço.
O resto é fácil: como se faz às pulgas, entalam-se
entre as unhas dos polegares. É o mais comum.
Remédio santo: perdem de vez o pio; calam-se
à vez – a fila dos novíssimos arcanjos – um a um
e, mortos-vivos ou acabrunhados, danam-se
por não lhes vender a alma por preço algum.
domingo, 28 de agosto de 2011
MODO DE SER
Nem sempre divago além do ponto
onde a sombra se me assemelha:
mesmo sendo inevitável o confronto,
raramente acende a luz vermelha.
Dizem que é ser fraco, pouco ousado
deixar acerejar o ânimo sem reagir.
Mas aposto singelo contra dobrado
qual de nós será o primeiro a cair.
De tanto me fazer a vida negra
a cáfila inteligente da mó de cima,
faz de tal vileza a sua obra prima.
Eu vou tentando de forma íntegra
sem grande pressa e, por via de regra,
um modo mais seguro para a arrima.
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
PARA UMA MARCHA DA PRAÇA VELHA
Por aqui passa a gente
aos paços de antigamente:
passam cavaleiros peões
ao trabalho nas procissões
e com a gente a passar
passa o tempo sobre a praça
ai já não temos vagar
p’ra lhe achar a mesma graça
ref. S. Pedro tem as chaves
da rua de Santa Maria
e o povo tu bem sabes
as chaves da freguesia
menino da rua nova
vai fazer a tua prova
vem p’lo arco de regresso
trocas as voltas do avesso
menino enquanto demoras
na praça em cada quelha
o relógio bate as horas
que fazem a praça velha
ref. S. Pedro tem as chaves
da rua de Santa Maria
e o povo tu bem sabes
as chaves da freguesia
terça-feira, 23 de agosto de 2011
SOGRAS E NORAS
É muito frágil esta relação
em que tudo pode acontecer:
pela frente estão no coração;
por trás nem se podem ver…
É pelo príncipe encantado
que todo o enredo se tece,
ambas o querem ao lado,
o que nem sempre merece.
De candeias às avessas,
sempre a meter a colher,
zaragateiam, pedem meças;
é complexo ser mulher!...
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
JOGO BRANCO
De insónias se faz o sono,
toda a chona de solavanco.
Já se não é de si dono
e passa-se a noite em branco.
Há três gerações que é o isto:
faz-se da vida um tamanco,
a investir, a correr riscos,
vai-se a ver, sai tudo branco.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
FACE E VERSO
Se o mundo tivesse rosto
seria ainda mais evidente,
numa das faces o sol posto
e na outra o sol nascente.
Tal como a cara da gente,
em que ser não é suposto
ter o mundo pela frente
e envelhecer de desgosto.
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