segunda-feira, 18 de outubro de 2010

JANELAS

Janelas de nós






sexta-feira, 15 de outubro de 2010

ПРАВДА


Miseravelmente, tudo se tornou
indistinto e escuro
como se um manto opaco descesse
sem promessa de sol
e memória de futuro

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

COMPLEXO


D. Perpétua
disse, enferma,
que é efémera.
e eu, perplexo,
aceitei
a surpresa.
- Ora essa,
com certeza,
D. Perpétua,
quando lhe aprouver
faleça.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

DA LIBERDADE


O sorriso é um cavalo à solta
galopando através da boca
o resto
é fruto da imaginação dum puto
que não quer comer a sopa

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

AS TRÊS SEARAS

SEARA DE VENTO

Todos os ventos são bons à sua maneira. E todas as chuvas, e todos os sóis. O vento é também ar que se respira. A seara é a sua cama, o seu colchão de erva e palha estendido até onde se chama linha do horizonte, por mais não nos ser dado a ver.
A brisa da noite é fresca como a água da fonte. Entranha-se nos ossos dos homens e no coração das espigas. Então a seara balança, ondula, qual bandeira de pão, tanto quanto a lua deixa perceber. De madrugada juntam-se-lhe as papoilas, tremendas. Na verdade sempre ali estiveram, mas só agora as suas pétalas deslumbram.
Se a aragem se aquieta a geometria é perfeita: sombras, perfis irrepreensíveis, múltiplos jogos de espelhos, reflectem toda a luz dum imenso sol.
O suão escalda como nenhum outro vento. Tem a bondade duma navalha afiada; corta; tudo submete à sua vontade; queima.
Quando vem, pesado e lento, sufoca. Não é a mesma a cor das papoilas que sobram, onde ainda há pouco tremiam, lambendo como línguas vermelhas o pão semeado. SEARA VERMELHA

O rancho canta enquanto adentra e leva o pão de vencida, a troco de suor. Muito suor e pouca jorna. A quarta não tem descanso. Muito menos quem a transporta.
- Água para além, para molhar a cantiga e o alento!
A seara é um mar que se espraia à força dos braços e do balanço dos corpos curvados de homens e mulheres, que levam a proa à derrota das espigas até à última réstia de sol.
Foices em punho, segam a eito. Hoje, amanhã, no dia seguinte e assim por diante. Tornam os caminhos do pão e pelo pão.
Tudo se faz lutando. Quase tudo é empecilho e estorvo até o pão chegar à mesa de quem, com as próprias mãos, o produziu. Por isso lutam os homens. A seara é um quinhão colectivo de quem a trabalha.
Hão-de vir as máquinas e tractores passados anos e mondas. Que venham. Não será por isso que a memória da seara deixará de ser da cor do sangue. SEARA NOVA

Esta seara não existe (ainda) e é, ao mesmo tempo, a maior: tem o tamanho da esperança. E a esperança é como um silo: se não enche não vale a pena.
A seara nova corre nas águas do Guadiana. Canta quando roça nas pequenas ilhas que espreitam curiosas ao longo da corrente ou repousa nas enseadas para retomar o fôlego e iniciar nova jornada.
Ao fim de cada dia torna a ouvir-se o diálogo:
- Para quando, por quanto tempo mais este caminho?!
- Vou com as águas.
O mesmo é dizer que o seu corpo é a planície.
- Como pode um corpo imenso com tanta deriva?
- Sou imune à dor. Sempre me doeu a dor e agora já não me faz diferença: carrego-a como parte de mim.
- E o açude, a barragem, não te diz nada?
- Quero ouvir o teu dizer. Eu apenas sonho.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

BALADA DA MÃE


Um filho é como um pássaro: voa.
Depois do amor, depois do ninho,
vem o adeus, a despedida que magoa,
quando, por fim, busca o seu caminho.

A mãe sabe, por isso não são à toa
a provação, o incentivo e o carinho,
que a seu tempo alimenta e doa,
para todas as horas, a rosa e o espinho.

O mundo é agora a sua casa.
- Voa, meu menino, voa alto e além,
onde pode a alma e o olhar de mãe.

E se os ventos forem de feição,
leva-me também o coração
e alarga o céu a golpes de asa.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

SENHORAS DE TODO O ANO

...
Se fosse menina, seria Maria das Dores, como aquela que julgava ser a padroeira da vila. Porém, contrariada e desgostosa. Afinal, um conterrâneo seu, o Asdrúbal, vizinho agora e também camarada da mesma diáspora, explicou-lhe que o verdadeiro nome da padroeira era o de Senhora da Encarnação e não das Dores, como lhe chamam.
- Olha, Miraldina, das Dores, da Encarnação ou dos Prazeres, é tudo a mesma coisa. O que têm é momentos diferentes.
Atenuou o Asdrúbal ao sentir-lhe decepção.
...

...

Os estendais de roupa são como pautas de música. De outra música, não daquela que se toca agora. A música dos próximos dias tem data e hora anunciadas: são as festas da Senhora dos Milagres, das Dores, do Rosário, da Ressurreição e de outras, de mais fácil explicação, do Monte, D’Aires, da Represa e muitas, muitas mais, até lhes perder o conto.
...

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

SEM PEIAS


Os crocodilos choram, estou comovido
e choro com lágrimas de suprimento,
que as minhas secaram já em tempo ido
e a comoção não tem lugar no orçamento.

Quero agora ser comum marginal,
capaz de resistir e dar o peito á luta:
quero gritar aos repteis que me sinto mal
e chamar-lhes, sem peias, filhos da puta!

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

DA LUA


Só hoje reparei como é branca a Lua
e é mais branca ainda
porque a partir de agora
pensarei sempre que a Lua é branca

mas não lhe vi halos
nem lágrimas radioactivas
sobre as hastes e varandas oficiais

a Lua é branca apenas
enormemente branca

e isso basta-me

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A ÁGUA DURA


Água mole pedra dura
água mole pedra dura
água mole pedra dura
tanto dá
tanto dá
tanto dá

água dura pedra mole
água dura pedra mole
água dura pedra mole
até que fura
até que fura
até que fura

dura a pedra dura a água
quem as fura?

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

POEMAMÁQUINA

tec tarec tec

a máquina
de escrever
à tec tecla
poemas plim
rima assim:

tec tarec tec

tec larec tac
re re retrocesso
meti o dedo
no buraco

tec tarec tec

maiúcula plim
a vermelho
minúscula ploc
muda a cor
agora não rima
fica assim

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

JANELAS DA MINHA RUA


Janelas com vistas para nós...


segunda-feira, 20 de setembro de 2010

COMO CANDEIAS

Deixamos nos outros um traço
de memória, um fio de voz,
e neles criamos um espaço,
que sendo alheio, somos nós.

Também dos outros temos
lembranças boas e más
e por mais voltas que demos,
é essa soma que nos faz.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

DAS ESTÓRIAS

Minha paciente memória desfia
como a um terço de ave-marias
as mil versões do capuchinho

em todas me vejo menino triste
por aquela avó sem despensa
a quem o lobo engole em desespero

só mais tarde graças a subtis pedagogias
a pobre avó consegue a elementar assoalhada

hoje as coisas voltam a estar feias
e não se sabe mesmo se o lobo
a não comeu já pela segunda vez

terça-feira, 14 de setembro de 2010

DO SILÊNCIO


Aquele professor de cinquenta e nove
arrastava-se para o quadro
como uma lesma de meias pretas
e desenhava em cursivo
a palavra silêncio extra caligrafia

corria então um sinal de cotovelos
adiando-se no momento a aventura mais fresca

desde então sempre associei o silêncio
à respiração nasal
e a uma velha cana de quatro metros