domingo, 7 de novembro de 2021

CONTA GOTAS


Uma gota que seja

e nela a água toda,

que molhe e não se veja

vai pingando, incomoda.

 

Pingue, pingue, a gota

vai alagando o chão

uma a uma não se nota

e mata e mata ou não.

 

Não mata a gota, cai,

alaga, se não mata mói

vai e vem, vem e vai

pingue, pingue, dói.

 

Já é mar faz de conta,

malvada seja, a gota,

então não é afronta

que mal se vê, mal se nota?


 

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

A LUZ E A TREVA



O candeeiro da cidade

(o mais poupado da rua)

resolveu gastar a lua

em vez de electricidade.

 

havendo necessidade

e sempre que vê a lua

logo lhe chama sua,

mordomo da claridade.

 

Mas um dia, por maldade,

uma nuvem cobriu a lua,

enegrecendo a rua,

o candeeiro e a cidade.

 

Não sei se isto é verdade;

quem mo contou foi a lua.

 

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

EFÊMEROS



Era um rio,

um rio, que era todos os rios, de águas vivas

enfileiradas ao longo do caminho.

Às vezes um barco fazendo pela vida.

Nas margens, os salgueiros

inclinavam-se; faziam vénia e aproveitavam

para refrescar na água corrente os ramos mais afoitos.

O rio ia passando

tinha mais caminho, mais água à sua espera.

Algum tempo depois, nesse ou noutro dia,

o rio teria o fim anunciado, um mar imenso

onde não haveria mais falas sobre o rio

e aquela imensidão de água não contaria

senão para morrer dentro de si com o rio na barriga.

 

domingo, 17 de outubro de 2021

CANTAR DE AMIGO


O que me mentem as tuas mãos, quando acenas?

Sei lá se te despedes com ganas ou me dizes adeus,

com ares de exuberância imitada ou apenas

fátua negaça,  se me insinuas vem ou vai com deus.

 

Tenho dúvidas, tenho por traquejo muita dificuldade

em saber  se realmente me honras e me tens em alta

ou se apenas é comum em ti dar azo à vulgaridade

de adeusar quem fica e adejar a quem já não te faz falta.

 

Cobro o mesmo: sou amigo de quem sempre fui;

não precisas de fingir, nem te exijo esse empenho

e não tenho pretensões ao que do nada nasce ou flui,

mas apenas do que de amizade  por ti ainda tenho.


 

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

FOLHAS DE OUTONO


Era a tarde do dia. Envelhecida

e gasta pelo Sol. De preguiça e sono.

Veio voando, caindo a folha amarelecida,

entre mim e o Outono.

 

Aos meus pés, a natureza morta

acenava, com serenidade, a despedida:

- Hoje bateu-me à porta

uma experimentada prova de vida.

 

Trazia o pó do caminho

(viver cria sempre esta poeira)

e aquietou-se ali, arrastando-se devagarinho,

despojada do verde-vida, uma vida inteira.


 

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

A MOSCA NA SOPA


De vez em quando

cai-nos uma mosca na sopa,

que nós vamos levando:

- Se retirar a mosca ninguém topa.

 

Nova colherada de sabor inalterado,

não reclamamos à copa

para não aborrecer o empregado

e comemos a sopa.

 

Ma virá o dia em que a sopa sem mosca

está insonsa e está fria

e então vem a revolta tosca:

- Assim nem com mosca comia!

 


 

sábado, 2 de outubro de 2021

VOU COM AS ÁGUAS



Vou na água dos rios,

nas voltas que os rios dão;

vou nas águas,

de aluvião.

 

Por vezes as águas sossegam

chapinham mansas na margem

vou com elas

sem destino e sem portagem.

 

Vou com as águas de Março;

com as de agora,

de Outono, e todas as águas que correm:

toda a água corre, toda a água chora.

 

Na levada é que me entendo,

sem barco nem jangada,

vou correndo, vou correndo,

sem pressa de chegada.

 

 

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

QUANDO EU MORRER



Quando eu morrer

saberei tudo o que ficou para trás

e de nada farei queixas.

Batam palmas, sorriam e finjam que são eternos.

Eu já não terei essa prorrogativa.

Quando eu morrer

esqueçam o bastante para que a minha morte

não vos seja perturbadora, porque se o for

será a vossa consciência; a minha estará tranquila.

Comam, bebam e dancem: a vida estará do vosso lado

e se isso vos der prazer, a mim não fará diferença.

Pelo que tenho ouvido, ninguém me irá dar conta

se é alegria ou tristeza o que vos vai na alma.

Quando eu morrer

não pensem muito no assunto:

“mal de quem vai e mal de quem cá fica”

- isto não vai ajudar em nada…

Mantenham a esperança de que tudo vai melhorar.

Mas lutem por isso, é essencial!

Quando eu morrer

não acharão qualquer diferença no que vos é dado para viver:

os ursos polares continuarão a ter focas para a sua dieta

e o vosso talher permanecerá no lugar habitual;

a lua dará as mesmas voltas, apesar do cansaço evidente,

e ser-vos-á permitido fotografar a lua cheia como sempre.

Quando eu morrer

será tudo igual ao que hoje achamos diferente de um dia para o outro.

 

 

 

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

DIVINOS ENLEIOS


Ah, que sorte: hoje há deuses lá em cima

sedentos de versos, dormentes de sono!

Vou fazer-lhes pontaria com rima

e acertar-lhes em cheio no buraco do ozono.

 

Podia ser em lugar alabastrino, como a testa,

mas é pecado, além da enviesada geografia:

não os quero mortos nem o fim da festa,

quero apenas treinar a pontaria.

 

Qualquer deus é grande, maior que tudo,

de forma que vivem longe em lugar além…

A seu modo poliglotas, estilo surdo-mudo,

e assim ditam o pecado, o mal e o bem.

 

A seus ministros é pesado o fardo alombado:

abençoam, excomungam, conforme as escrituras,

alteram as combinas, corrigem o pecado

e determinam a morte e as vidas futuras.

 

Eu vou falar com um deus um dia destes

e dizer-lhe cara-a-cara, muito abertamente:

“mas que mundo é este que concebestes

onde só vós viveis sem leis eternamente?”


 

domingo, 19 de setembro de 2021

CÁ DENTRO DE CASA


Cá dentro de casa

nada me faz mal,

calor em brasa

ou brisa outonal.

 

Se houver vendaval,

chuva persistente,

ficam no quintal:

cá dentro só gente.

 

Amigos, quero dizer,

de boa companhia…

Calha às vezes não ser

mas fica pra outro dia.

 

Cá dentro de casa

é como vos digo:

um dia, um golpe d’asa,

outro dia a sós comigo.


 

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

ASSIM DE SIMPLES


Sombras mais adiante e o tempo a amolecer

à nossa frente. Brando, o Sol morre

e todo o mundo desaba ao entardecer,

esse mundo que não pára e corre, corre…

 

Seguem-no os olhos que avistam o horizonte,

edificando um mundo novo mais além;

no limite, o olhar vai construindo uma ponte;

um caminho do que foi para o que lá vem.

 


 

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

FLOR


A flor leva apenas um laço,

eu mesmo faço;

é para oferecer. Ou pô-la na sala

para o que der e vier.

Ponha na conta, vou levá-la.

Ficarei com ela, se a merecer.

 

Solitários, não tem?

Só, a condizer, ficava lá bem

junto à janela

para que o sol lhe dê.

É isso, talvez fique com ela

e será dádiva para quem a vê.


 

domingo, 5 de setembro de 2021

POEMA DO MAR


Confia em mim – disse o mar –

eu protejo-te, avança…

(ele, que não é flor de se cheirar

nem amigo de confiança)

 

Contudo, tem charme e mistério,

ousa matar sem piedade:

tanto pode zangar-se a sério

como depois ser bondade.

 

É assim que o mar ensaia

ondas e marés em vaivém,

pelo menos visto da praia

é tudo o que o mar tem.


 

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

SEXTO ASCENDENTE



Descendente,

a lua faz de bola,

e no mesmo gesto

a lua enrola, enrola

e faz um cesto,

ascendente.

 

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

ANEXIM CRUZADO


Olha lá, ligeiro irmão,

que pressa a tua, onde vais?

Trocas a fome pelo refrão:

o primeiro milho é dos pardais.

 

E o segundo e o terceiro,

se à vez forem todos hoje

quebra-se o anexim embusteiro:

devagar se vai ao longe.

 

Que o capricho ou fatalidade,

a ventura não te deserde,

porque também manda a verdade:

quem tudo quer tudo perde.