quarta-feira, 10 de março de 2021

PANDEMIA


Ter-te de corpo inteiro só de olhar era o segredo…

Até isso me negaste, ó humanidade contrafeita!

Passas, ombro a ombro e olhas como quem espreita

e eu tremo, não sei que diga, mas tenho medo.

 

Dizes-me, de longe, que o asséptico conceito

previne a contaminação e que o álcool, o detergente

e a distância são provas de amor, do novo afecto.

Por hoje sê rebelde e dá-me um beijo; é urgente.  


 

segunda-feira, 8 de março de 2021

DIAS DE GUERRA


Noite de vela

o menino chora

papão vai-te embora

da sua janela

 

o menino chora

em desatino

pela noite fora

não dorme o menino

 

o dia demora

demora o destino

e o menino chora

que é pequenino

 

papão vai-te embora

deixa o menino

sonhar noite fora

que é palestino


 

sexta-feira, 5 de março de 2021

ERA HERA



Era de outro tempo

hera de agora

aqui não há magia, há lamento

e tarda para mandar embora.

 

Bati à porta,

ninguém retorquiu quem era

presumiram vento, folha morta,

incúria de quem não espera.

 

Era o que tinha de ser,

hera tudo o que tem,

o resto é bom de ver:

era em nada e hera também.

 

quarta-feira, 3 de março de 2021

BILHETE DE IDENTIDADE



O tempo passa e vou com o vento…

de manhã esfrego as mãos como quem reza:

é um modo de permanecer atento

e ajuda a ter, pelo menos, meia certeza.

 

Quando a tarde cai e o dia escurece

é hora de avaliar o bom e o seu contrário.

São contradições de quem permanece

e vai retirando folhas ao calendário.

 

Haveria de ter sido um pássaro, ocre,

de olhos bem abertos, como se encantado;

aquele que por ser desenho não sofre,

em vez de sofrer de tanto ter voado.

 

Querem encontrar-me, saber quem sou?

O silêncio basta, mapa não é preciso:

um pássaro que sem querer voou,

algures entre uma lágrima e um sorriso.

 

segunda-feira, 1 de março de 2021

ONDINA


Ondina veio de novo esta noite dar-me um beijo

enquanto dormia, enquanto sonhava,

enquanto me afogava nas águas de um pesadelo.

Ela conhece a minha respiração ofegante

e a estupidez da minha claustrofobia.

Diz-me que os seus beijos são terapia bastante

e as ondas sensuais do seu corpo são o embalo de que preciso.

Ela ama-me enquanto eu me amarro

de unhas e dentes ao bote que me leva mar adentro.

 


 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

DIÁRIO DO CONFINADO


Depois de amanhã? Não sei.

Toda a minha esperança recai sobre amanhã

e o dia de hoje por inteiro.

Depois de amanhã é muito tempo,

deixei de me preocupar com as sobras de vida.

Se houver depois de amanhã,

como será então o silêncio

que hoje nasce com os frutos?

Mas se depois de amanhã vier e não trouxer o teu sorriso

será um dia igual aos outros, sem razão para existir:

talvez hoje novamente;

o mais tardar, novo amanhã adiado.


 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

DEUS QUEIRA


Deus escolheu para si o céu,

deixando a sua obra prima

à mercê das trovoadas,

espargida do alto e encharcada de fé.

 

Deus escolheu para si as nuvens,

para nelas se representar

nos tectos das catedrais

e as duas obras se contemplarem.

 

Deus escolheu para os seus

os jardins e canapés celestes,

ciente de que não chove nunca

do negrume para cima.

 

Deus escolheu para si

o lado cerúleo do universo

e apurou em nós a alma

para a expiação parda do pecado.

 

Deus concede-nos lugar

no condomínio, caso as lágrimas

nos façam sucumbir

e ter direito a uma morte santa.


 

domingo, 21 de fevereiro de 2021

DE PASSAGEM


Ninguém virá ver quem passa

dobrado ao peitoril da janela;

ninguém habita esta casa

e quem passa não repara nela.

 

A janela e as portas fechadas

cegam as vistas pra fora,

que importam às vidas passadas

se a vida já lá não mora?

 

Meio mundo passou aqui

à beira da velha janela,

já viu tanto que não deu por si

nem a vida passar por ela.


 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

POEMA PARA HIERONYMUS BOSCH


Como hei-de dizer de ti como de mim disseste?

Sim, de mim, que sou gente por aqui ou belzebu

e pinto de igual o que é inferno e o que é celeste.

 

Aqui me tens em efémero deleite, um teu criado

jogando as peras mas sempre atento e, no fundo,

não passo dum joguete, dum projecto mal talhado,

a contas com esses tais possuidores do mundo.

 

Não lhes darei tréguas enquanto for eterno…

Serei talvez apóstolo da alegria, como foste tu

e que me sobre mundo, no céu ou no inferno.


 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

UM DIA DESTES


Dia sem sol, dia sem sal, dia sem sul;

dia de sombra,

sobra o dia…

 

À noite:

quem pode da noite

esperar o que quer que seja

se nada tem

a não ser noite dos dois lados.


 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

CONFINAMENTO


As manhãs enoitecidas

dão voltas pra clarear

enrolam-se a mim, atrevidas,

enquanto não me levantar.

 

Rondam a porta do quarto,

urdindo a sua trama,

até que por fim fico farto

e alço o corpinho da cama.

 

Bem sei que é já novo dia

mas não adianta nem atrasa:

a vontade que tinha perdi-a

por não poder sair de casa.


 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

FINISTERRA

 


Não vieram do paraíso, as aves,

surgiram assim de repente,

folgazãs, umas, outras mais graves,

todas em voo permanente.

 

Não pararam um só segundo

sem escolha para nidificar

e foram dar voltas ao mundo,

no seu ofício de voar.

 

Retalhada, a Terra em fragmentos,

de boas e de más intenções:

mais incúrias que lamentos,

não tem estudado as lições.

 

Por isso a migração constante

das aves, exceptuando os pardais,

não poisam um só instante,

terra a menos e céu a mais…


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

PAÍS DE POETAS


Está confirmada a adiposidade

na famigerada rima.

Já no verso branco (devido à liberdade)

não se confirma.

 

Longe vá a censura

e opinião de quem não concorda:

gordura é formosura

e o que não mata engorda.

 

Em alternativa haverá sempre receitas,

curas milagrosas, dietas,

pós de Maio, malvas de rectais maleitas,

que diabo, somos um país de poetas!

 


 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

A DANÇA DOS PÁSSAROS


Asada dança, alada melodia,

enquanto há vento há esperança,

rodopia, balança; balança, rodopia…

 

Se o par desfila e balança

voa ou adejará um dia,

a dança desafia; desafia a dança.

 

Enquanto o par porfia,

se volteia e de júbilo avança,

basta já de tanta filosofia!

 


 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

ARTIFÍCIOS

 


Não vale a pena a indignação, sempre se acaba

por sofrer de dois males: a indignação já referida

e a moléstia que tal acarreta.

Por isso não vejo porque andemos por aí a indignarmo-nos,

azedos como limões verdes.

As pessoas com quem nos cruzamos

não vão entender a nossa indignação e até são capazes

de ver em nós o motivo da sua própria indignação.

Por isso se torna imprescindível não nos tornarmos reféns

dessa prorrogativa constitucional

e mandar à merda quem acha que ver um foguete no ar,

mesmo de lágrimas é descobrir a pólvora.