terça-feira, 15 de maio de 2018

SILÊNCIO



No dizer das aves é que as palavras voam;
no dizer do sol é que as palavras ardem;
no dizer da água é que as palavras choram;
no dizer das árvores é que as palavras florescem.

E, ao dizê-las, todas as palavras morrem.

domingo, 13 de maio de 2018

FOTOSSÍNTESE


Ah, o casamento (em segundas bodas)
do dióxido de carbono com a luz:
primeiro a água – engraça com todas,
que bem lhe fazem, seu ai Jesus.

É uma química que há nele,
mais os punhos de renda, todo um boneco,
leva-as à certa, que o sol para ele
é dama em traje de surrobeco.


quinta-feira, 10 de maio de 2018

TEMPO PERDIDO


No meu relógio as horas não voam
como na literatura; consomem
o tempo, a compasso, seguem o sol.
Vagabundas e sem horário,
Irrepetíveis como os caminhos do vento.
Se as uso em longas cavalgadas,
também as ignoro, também as maldigo:
as minhas horas abrem as pétalas das flores,
que em segundos as perdem depois.
As minhas horas só me fazem perder tempo.

terça-feira, 8 de maio de 2018

ALEXANDRE O'NEILL


Por causa do pardilho, ainda o peixe,
tiveste – sabias lá! - direito a eleição.
E de toda a obra, o maior ensejo,
de ombro na ombreira, dizer não.

Como hipótese surreal de refeição,
digo, fome, eis, O`Neill, o que vejo:
uma fatia assimétrica de pão
com outra em cima, que é o queijo.

Tenho um fraco: não sou capaz
de te fazer de farrapilha ou bom rapaz,
porém, de modo algum incorrecto.

Mas há nisto coisas boas e más:
jamais quis escrever este soneto
e agora que o fiz fica incompleto.  

sábado, 5 de maio de 2018

O CHATO VAI AO TEATRO


Silêncio na sala, o pano que se erga!
Em cena os de cena, como convém.
Ah e digam merda
p’ra correr bem.

Nova temporada, o mesmo chato,
que além de chato tem tosse.
Não sei se o mato,
se o coce.

Chega, roçando, com atraso evidente,
o chato de última hora, marca presença,
impertinente:
com licença, com licença.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

ATÉ AO CÉU


Lá bem no alto
farei uma estrada
toda de asfalto
toda bordada
de árvores e flores
de nuvens e estrelas
com lápis de cores
para que possas vê-la
como a vejo eu
semelhante a uma tela
brilhando no céu

E dê o que der
que isso acarrete
não me vou esquecer
do meu canivete

lá bem no alto
que o amor me tome
e na estrada de asfalto
escreverei o teu nome


quarta-feira, 2 de maio de 2018

CANTO DE SEREIA LUSA COM ECO


                                           mais     c’antigamente
                         a cantiga    mente
                     mais antiga    e mais dormente
                           mentira    utilizada
                            cantiga    inútil   

                            cantiga    inútil
                           mentira    utilizada
                     mais antiga    e mais dormente
                         a cantiga    mente
                                mais    c’antigamente


segunda-feira, 30 de abril de 2018

RADÍCULA



Semeamos porque não servimos de semente;
quando enterrados não há nada mais a esperar
e o fruto não nasce com orações.

sábado, 28 de abril de 2018

MILAGROSAMENTE



Eu faço milagres
é verdade
eu faço milagres

quem melhor do que eu
o poderia afirmar com segurança?
eu faço milagres
além disso não sou caso único na família
o meu avô fazia milagres

a Senhora de Mércoles
a Senhora Sant’Ana e a Senhora do Almortão
fazem milagres
dizem até que o ti Alexandre de Segura
também fazia autênticos milagres

eu porém faço milagres
eu e todos os santos da minha terra.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

AMOR SUSPICAZ


Não sei se é amor, se é feitiço,
se há em frasco mais pequeno;
não sei se é raiva, o que é isso:
se é insolação ou veneno.

Apenas sei que dói por dentro,
em lágrimas que sei de cor,
atraiçoa como o aloendro,
que beija e mata por amor.

E que sei eu do amor, se de mim
nada aprendi? Disso me lamento:
uma seara de cardos, coisa assim,
magoada vida de alegre sofrimento.

terça-feira, 24 de abril de 2018

VICISSITUDES DE UM HETERÓNIMO

    Joan Miró, gravura

Haveriam de passar anos, até que um dia,
hoje mesmo, desisti de procurar Bernardo Soares.
Explicaram-me há pouco as razões deste mistério:
ambos nascemos do nada, do cérebro povoado
de alguém que, em desassossego, nos deu carta de alforria
e nos abandonou. Nada mais que isso.
Não se trata de uma reclamação e muito menos
de um lamento de órfão em letra de forma.
Afinal tem muitas vantagens esta relação fria com o tempo:
as plantas crescem e os frutos vão amadurecendo
à vez, como podem e como tem de acontecer,
sem se importarem que todos os ontens tenham existido.
O mais relevante é que a natureza não dê conta
que andamos a abrir regos onde não passa  água nenhuma,
seque e hoje nunca mais chegue a ser dia.


domingo, 22 de abril de 2018

JARRO


Jarro, que escolha tão severa
tem a flor airosa e original…
Alva, altiva e não austera
como cálice de carne sensual.

Só pode ser por crueldade:
para vaso basta onde é criado.
Jarro não, antes majestade
das flores, príncipe encantado.

E se a noiva aceita o seu alvor
e o leva junto ao peito ao altar,
então, a nobreza desta flor
mais se alteia, mais nos pode dar…


sexta-feira, 20 de abril de 2018

MARÉ CHEIA




Grande novidade era o mar,
o que outrora foi esperança
da aventura de navegar
foi o meu sonho de criança.

Ondas - tinha-as alterosas –
diziam. Outras de apanhar à mão;
umas como os espinhos das rosas,
outras como bolas de sabão.

Primeiro foram trilhos e vento,
mistérios, desassossego, ficções,
mas para mim, deslumbramento
pago em mergulhos e escaldões.

Não é o mesmo este mar antigo
igual para toda a gente:
um exultante, que vinha ter comigo,
e outro, rancoroso, seguindo em frente.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

DO DISCURSO


Não demovo
a cor ao cravo
e de novo demovo
a casca ao ovo

enquanto me comovo
com o cravo
como o ovo
e aprovo o cravo
uma ova a cor do ovo

pelo povo não demovo
a cor ao cravo

segunda-feira, 16 de abril de 2018

ADEUSES


Ah, que sorte: hoje há deuses lá em cima
sedentos de versos, dormentes de sono!
Vou fazer-lhes pontaria com rima
e acertar-lhes em cheio no buraco do ozono.

Podia ser em lugar alabastrino, como a testa,
mas é pecado, além da enviesada geografia:
não os quero mortos nem o fim da festa,
quero apenas treinar a pontaria.