sexta-feira, 10 de maio de 2013

POEMA DESENHADO



Uma gota em cada ponta
que o orvalho frio pesponta
na folha verde que desponta
e fá-lo vezes sem conta:
o que para a folha é afronta
para o orvalho tanto monta,
por agora não amedronta
porque só o desenho conta.

terça-feira, 7 de maio de 2013

A TEMPO E HORAS



O caminho é feito de tempo e horas:
ganha-se todo tempo de uma vida;
perdem-se horas em esperas e demoras
e, feitas as contas, é a hora da partida.

E nós damos corda ao passatempo
como num relógio os ponteiros,
caminhando a compasso com o tempo:
e viva o velho, vivos e inteiros!

domingo, 5 de maio de 2013

DESCOBRIMENTO



Nada, nada, nada, não temos nada!
Onde a bússola, a carta, o sextante,
a bolina inventada à pressa, nada,
e tudo se parece com Abril distante?!

Nada, nada, nada, não temos nada!
Que rio ou mar nos falta descobrir,
para onde nos empurra esta levada,
se não temos céu nem sítio onde ir?!

Nada, nada, nada, não temos nada!
Excepto a voz, ninguém aqui é mudo.
Então posso dizer-te amigo, camarada,
ergue tua voz e de novo teremos tudo!



quinta-feira, 2 de maio de 2013

EM OUTRO TEMPO



Ainda me lembro bem daquele tempo
de mão dada tu e eu sorrindo à lua,
coisa que empertigava quem na rua
nos via daquele jeito, em tal contentamento.

Era mau tempo, de cortinas entreabertas,
dos mil termos proibidos, dos mil segredos,
mas nós éramos contra tabus e medos
e não sabíamos das coisas erradas ou certas.

Houve um tempo, houve uma ocasião,
em que festas e beijos eram o nosso melhor,
depois, bem, depois foi de mal a pior
e já não nos olhávamos nem dávamos a mão…

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O SOL E O SUL


Longe o sol e o sul, ambos bastardos
Onde a seara loira, que é do pão?
Que não vejo senão veredas de cardos;
ao sul somente o sol da solidão.

A mentira é causa híbrida sem saída
deitada à terra, que se atira à cara,
seca de semente e fruto, inconcebida,
onde o sol e o sul brilhavam na seara.

Terra onde as papoilas detêm sonhos
e o sol ao sul brilhando ainda nos meus olhos.

domingo, 28 de abril de 2013

A.O.



Uma luz no teto,
um c no cato,
aí não me meto
nem me mato.

O ator veste
ou é, de fato?
que acordo é este;
que desiderato?!

Perdoem a redação,
a confusão ou estorvo:
não é minha intenção
nem estou de acordo.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

DOS BÚZIOS



Naquele dia o velho búzio
emergiu do oceano
desenhando círculos no espelho da água
e a praia cobriu-se
duma espessa e incorruptível bruma

naquele dia o velho búzio
não era mais que uma crisálida de névoa
em vésperas de música

segunda-feira, 22 de abril de 2013

POSSIBILIDADE DE AGUACEIROS

E é já na próxima sexta-feira, dia 26, pelas 18 horas, no Auditório da Biblioteca Municipal, o lançamento do meu livro de poemas POSSIBILIDADE DE AGUACEIROS. Aqui dou conta da respectiva capa (desdobrada). Sobre o conteúdo dirá a Drª. Cristina Granada e todos vós... Até lá.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

OS RECICLADOS




Dos príncipes lustrosos e perfilados,
com discurso ampliado e já revisto,
vamos ouvindo falas em tons ultra irados
e mais não fazem, não passam disto.

Cambalhotas de puro divertimento
em palcos de renome e bom registo,
disso fazem, se a tanto for o atrevimento
mas, como já disse, não passam disto.

Antes foram estes os mestres do embuste,
depois, no costumado rendez-vous previsto,
negam a própria mãe, ainda que lhes custe,
para voltar ao mesmo, não passam disto.

Chamem-lhes salvadores, messias, Cristo:
negam, juram; juram, negam e não passam disto.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

CATARINA EUFÉMIA



Quem lhe atirou a matar
está vivo e de regresso,
já não ordena mãos ao ar,
mata por outro processo.

Agora veste cambraia,
invólucro de popelina
e é com essa indumentária
que esmaga, mente, assassina.

Eles aí estão de novo,
Com suas carinhas de santos,
sugando as veias ao povo
para dar o sangue aos bancos.

Catarina foi uma lição
do que hoje podemos ser:
juntemo-nos, demos a mão
e juntos iremos vencer!

segunda-feira, 15 de abril de 2013

JOGO BRANCO



De insónias se faz o sono,
toda a chona de solavanco,
já se não é de si dono
e passa-se a noite em branco.

Há três gerações que é o isto:
faz-se da vida um tamanco,
a investir, a correr riscos,
vai-se a ver, sai tudo branco.

sábado, 13 de abril de 2013

A VOLTA




Não é normal que a gente
passe a vida a pedalar
sem ver o pelotão da frente
par a par.

Não é justo o sol presente
que, em tese, é suposto
ser de toda a gente

e, uma vez à frente,
já é sol posto.
Pedalamos à nossa maneira:
da frente para trás,
de trás para a dianteira,
a mostrar como se faz,
dando gás na bicicleta
com os olhos postos na meta
e os pés na pedaleira.

terça-feira, 9 de abril de 2013

PROPRIEDADES DA ÁGUA



A água torna puras as almas
e pedras grandes em pedrinhas,
por isso vê se te acalmas
no rio onde chapinhas.

Teus alvoroços e velas
não te auguram boas medras:
só se, esconso, o diabo ao tecê-las,
te benzer com água das pedras.

domingo, 7 de abril de 2013

ÚLTIMA LUA



Já sabemos que mente
com quantas fases tem:
se decresce é crescente
e se cresce já não vem.

Inspira uivos aos lobos
oculta-se na água dos poços:
encanta os tolos;
engana os moços.

Bateu certo por uma vez
nas fases e voltas que tem,
na hora no dia e no mês
da novena de minha mãe.