quinta-feira, 20 de outubro de 2011
PÁTRIA OU LIXO
A pátria é um saco descartável
onde quem quer dela faz lixeira
e o certo é que o cheiro é desagradável,
pútrido, incómodo, intragável.
Então pode definir-se desta maneira:
A pátria é uma renovada estrumeira.
É mais que tempo de limpar
e tornar esta uma pátria asseada!
Conferindo os meios a usar,
(é de excluir a votação, dá azar…)
Aux armes, citoyens! Mão pesada,
o lixo já só sai à vassourada!
terça-feira, 18 de outubro de 2011
MAL TALHADO
Faltava um bocadinho assim para lá chegar,
mostrava entre o indicador e o polegar;
coisa muito pouca, daqui até lá é um ápice.
Logo a seguir vinha a novíssima burrice…
Tomou ofício de ministro com altas notas,
dos que prometem tudo e um par de botas
mas, ao contrário, dele nada se atinge ou herda
e em tudo onde põe a mão faz merda.
Mas não se pense que é obra do destino;
que tudo lhe foi azar, moléstia ou desatino…
Não, essa é a sua capa, o seu disfarce,
que estas malfeitorias têm conteúdo de classe.
Assim deixo a questão para pensar de novo:
faz-se a folha ao mal talhado ou troca-se de povo?
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segunda-feira, 17 de outubro de 2011
DANTES
Antes de correr, andava;
antes de andar, dormia;
antes de dormir, corria;
antes de correr, andava;
antes de andar, sonhava;
mas isso era dantes…
antes de andar, dormia;
antes de dormir, corria;
antes de correr, andava;
antes de andar, sonhava;
mas isso era dantes…
sábado, 15 de outubro de 2011
NOTAS SOLTAS
Perverso é procurar
o mar num verso;
o inverso
é se o verso naufragar.
Mas se de tanto porfiar
der à costa, controverso,
está no verso
e está no mar;
é face e verso.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
DIÁLOGOS CANINOS
CÃO POLÍCIA :
-Travesti – de gatas
tem tal perícia
em quatro patas
o cão polícia
.
CÃO LADRÃO:
Béu – béu disse o cachorro,
se não digo morro.
- Ão, ão refilou, adulto, o cão,
somente eu ladro ão.
CÃO CÃO :
Vida de cão
é um caixote de lixo;
não é luxo, não,
coitado do bicho.
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
DIÁLOGOS CANINOS
Bem te entendo, amigo cão,
o discurso é claro e nada omisso;
não és como quem dá opinião:
coisa e tal, pão com chouriço.
Bem te entendo, amigo cão,
o que os teus latidos pregam,
não és como os de outra condição,
que falam bem mas não m’alegram.
Bem te entendo, amigo cão,
dizes com um gesto de focinho
o que muitos, por apta opinião,
rebebéu, pardais ao ninho.
domingo, 9 de outubro de 2011
POR UM SÓ MOMENTO
Por um só momento quero ser
o odor moribundo da cera lentamente
derretida
e em plena procissão vestir
a pele dum deus vermelho e alquimista
que, sobre a finura da custódia,
solene, para que me sintas mágico;
mágico, para que me sintas o hálito em chama,
te iluda o cântico
e, enfim, possas caminhar de pé.
Por um só momento quero duplicar-te
frente a frente,
para que chores a tua alma
subaproveitada.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
OS DIAS DESCONTADOS
… eu vos digo que antes passariam o céu e a terra do que passaria uma só letra menor ou uma partícula duma latra da Lei sem que tudo se cumprisse.
Mateus
Inesperadamente, a marca
indelével do destino
soou como um badalo
chocalhando-me o cérebro.
Nota oficiosa
-aos cidadãos atentos
O próprio locutor, notou-se,
Compreendeu:
A catástrofe é iminente e universal.
A crise
o petróleo
o dólar
a crista de altas pressões
e, se necessário, o estado de sítio.
Só por milagre será evitado
O agravamento dos preços ao consumidor.
Para evitar mal entendidos, a
a ordem pública,
a ordem pudica,
a ordem pura
e demais ordens de serviço
serão mantidas.
Deus dará.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
NOTA
Três apontamentos “históricos”.
O meu actual vagar para estas andanças, permitiu-me “descobrir” três poemas (dois mais um)
que partilharei convosco sem me alongar muito mais em considerações dispensáveis.
Todos eles datam do princípio da década de 70 (do século passado, pois!)
Se os dois primeiros são inspirados em leituras de Nietzsche (quem não leu o filósofo “pirotécnico” do século XIX?); o terceiro é um desmentido a propósito do nome deste blogue, que eu mesmo disse ter origem no título do meu livro homónimo editado em 1983: reponho assim a verdade, dizendo que Corpo de Poema existe nos meus papeis desde 1970.
Publicarei os três poemas, começando por corpo de poema, com a periodicidade habitual: quarta (hoje), sexta e segunda-feira.
O meu actual vagar para estas andanças, permitiu-me “descobrir” três poemas (dois mais um)
que partilharei convosco sem me alongar muito mais em considerações dispensáveis.
Todos eles datam do princípio da década de 70 (do século passado, pois!)
Se os dois primeiros são inspirados em leituras de Nietzsche (quem não leu o filósofo “pirotécnico” do século XIX?); o terceiro é um desmentido a propósito do nome deste blogue, que eu mesmo disse ter origem no título do meu livro homónimo editado em 1983: reponho assim a verdade, dizendo que Corpo de Poema existe nos meus papeis desde 1970.
Publicarei os três poemas, começando por corpo de poema, com a periodicidade habitual: quarta (hoje), sexta e segunda-feira.
CORPO DE POEMA
Dá de ti
o corpo desnu
dado
sem amor
dacar
o grito
nem amor
tecer
o golpe
de rins
dá de ti
o corpo
salivado
amor
i
bunda
pomba
líquida
um e outro
lado
dá de ti
o corpo
amor
fina
derme
do teu ventre
sem suar
sensual
mente.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
DRAPEAUX ROUGES
Tem pelo menos uma coisa boa este Outono:
o inconformismo dos plátanos, a folha solta;
recusam a morte sazonal; “a voz do dono”,
e empunham bandeiras vermelhas de revolta.
Efabulo. Pois as pobres árvores, já enxutas,
nada pensam. É o seu ciclo; a sua essência.
Mas a vida faz-se de etapas e de lutas:
compõe-se de mudança e resistência.
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
POEMA COM UMA QUEDA LIGEIRA
A morte teria sido um exagero
ou pelo menos uma facilidade escusada, prematura.
É verdade que havia o sangue vazado dos joelhos
deitados abaixo, coalhado nos buracos da terra e nas frinchas das pedras,
o fémur fracturado, coisa pouca, e o hematoma
que lhe escureceu as nádegas até às lágrimas
mas nada comparado com os golpes fatais,
que matam logo ali ou adiam o último suspiro
para quando já se pensa que tudo não passou dum susto.
Finalmente podia respirar de alívio
por não ter ficado paraplégico ao saltar a vedação da quinta,
como a si mesmo tinha prometido,
caso fosse surpreendido a roubar fruta para comer.
Afinal a morte, como a fome, só acontece da cintura para cima…
terça-feira, 27 de setembro de 2011
COISAS DO ARCO-DA-VELHA
Ele há coisas do arco-da-velha;
coisas da velha sem arco
e coisas do arco sem velha.
Ele há coisas que já estou farto.
E a velha criação resulta:
o arco arredonda a velha
e o que sobra é a pulga
abstrusa atrás da orelha.
É resignação que me aconselha?
Ele há coisas do arco-da-velha!
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
UM CERTO ROMANCE
De tão pueril e casta,
mais esperta do que culta,
depressa se fez madrasta
e virou mulher adulta.
Não o digo por espanto
nem sombras d’amiração,
que tampouco sou um santo
ou falho de compreensão.
Digo-o por contrição
e as penas me sejam brandas
(impulsos do coração,
que o amor faz em bolandas).
Casta e pueril, como disse,
pareceu-me a alva flor,
quer ela chorasse quer risse,
em tudo eu via amor.
Dentro do peito guardava
recatos mil por tesouro,
não de fel, pois pensava:
-longe de mim vá o agouro.
Tudo efémera ilusão,
oásis de fruta e de mel:
quando o amor é paixão
da carne fica só pele.
A tempo não consegui ler
seu ar pueril e casto
e tive então que aprender
à custa do próprio canastro.
Lá vingou o seu conceito
de moça, profanada em fúria,
que o mais que tinha no peito
não era amor, era injúria.
Não era assim nem assado,
mais esperta do que culta.
No fim, fui eu o culpado;
eu é que fiquei com a culpa.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
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