segunda-feira, 13 de julho de 2009

PÁSSAROS



Canta o pinta
roxo
(parece-me ouvi-lo)
o pinta
silgo tem outro estilo.

Ao pinta
Inho, é difícil imitá-lo
enquanto o pinto
não for galo.

Todos cantam que dá gosto.
Salvo o pardal:
de desgosto,
veste cinzento, anda mal
posto.

domingo, 12 de julho de 2009

A PULGA



A pulga pula
de pêlo em pêlo
e salta.

Suga, estulta,
pouco a pouco
o sangue suga.

A pulga avulta
gota a gota
e muda.

Se resulta,
chupa, chupa
e deglute.

Insone, cata-
pulta e some
a puta.

sábado, 11 de julho de 2009

O MACACO



Pena que ao macaco lhe falte o falar.
Tão solícito, tão ladino,
às vezes um homenzinho, outras um traste
(sou eu a imaginar)
parece teu primo.
Eu tenho família que baste.


sexta-feira, 10 de julho de 2009

O GATO



Sete vidas de fiada
por conta da vida inteira,
não têm grande piada
se se finar à primeira.

Tal e qual uma mosca,
indesejado é o gato,
e se nos passa a marosca
cai-nos o bicho no prato.

Toda a asneira é gato
enquanto não há culpados:
faz-se do dito sapato,
que à noite todos são pardos.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

O GRILO



Quem disse que o grilo tem cornos
e canta,
se o homem que os tem
fica com o nó na garganta?


O grilo tem antenas.
Canta,
apenas.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

OVINOS



Umas são cobertas,
outras tosquiadas.
Se as contas estão certas,
(incluindo as paridas,
as novas e as velhas)
ao todo cem vidas
o rebanho de ovelhas
subsidiadas.


Carneiros há dois
de presas garbosas
e de maus lençóis.
Borregos contados
são três quarteirões,
salvo os desmamados
já aos encontrões
às ovelhas ronhosas.

terça-feira, 7 de julho de 2009

BICHOS DE NÓS



No meu último livro de poemas (Rebuçados, Caramelos & Sonetos, ed. RVJ, 2008) consta um capítulo – Caramelos – especialmente dedicado aos bichos ou, dito de outra forma, àquilo em que nós nos assemelhamos a eles.
São pequenos poemas, inicialmente integrados num outro conjunto a que chamei Possibilidade de Aguaceiros, que até à edição se mantiveram em banho-maria.
Eles são criaturas simpáticas (quase todos…) mas se os compararmos com alguns comportamentos avulsos do ser humano, verificaremos quantos “bichos” há em nós.
Coloquei fotos que recolhi aleatoriamente da internet para lhes dar um ar mais coiso.
Aplicarei esses posts a partir de amanhã.
Ah, este aqui em cima sou eu à porta da capela de S. Marcos. O ganso, bem, era véspera de Natal e o bicho morreu por toda a minha família, excepto por uma tia velha que era vegetariana ou tinha aftas ou uma coisa assim, já não me lembro.

sábado, 4 de julho de 2009

AZULEJOS DUMA VIDA INTEIRA



Realmente, só mesmo o meu querido amigo Joaquim Carvalho, colocaria este painel de azulejo na parede exterior da sua casa em Castelo Branco. Os detractores dirão tratar-se de puro exibicionismo ou, pior, manifestação sem sentido, que só a ele diz respeito. Mentira! O Joaquim Carvalho é das pessoas mais solidárias que conheço. Mais do que um operário, um homem com consciência operária e das suas origens. Há dias encontrei-o. À pressa, como sempre. - João, preciso de ti, pá - disse ele. Abraçámo-nos e fizemos promessas de novo encontro. O costume...

Tenho poucos amigos: o Chico, o Carlos, o Manel e... o Jaquim, são os do coração e que me perdoem os outros, que não são menos amigos, mas o coração tem estas manigâncias, e é muito difícil fugir a elas quando se quer ser sincero.

O Joaquim Carvalho encomendou e mandou colocar na sua casa este paineAdicionar imageml de azulejo, alusivo ao que entende sobre a verticalidade e a condição do homem (no sentido universal) e do que é preciso para lá chegar. Logo vi, Jaquim, como adivinhaste que plantei uma cerejeira aos dez anos?... Sobre os filhos e os livros já tu sabias...

Desculpa, Amigo, não fiz um poema (ou fiz?!); fiz este texto em prosa, que é uma excepção no blogue e... é em tua homenagem!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

MULHER E ALENTEJANA



A figura é religiosa e é profana,
como é sua fragrância costumeira,
se é um dom da natureza humana,
cheira a incenso e hortelã da ribeira.

Frágil, como mãos de costureira,
È, na sua essência, altiva, ufana.
Primordial e última trincheira,
ambas numa só, que a vida aplana.

A golpes de sol e lida humana,
curvada mais de músculo que de vontade.
E, à parte, doce – o mel é a verdade

toda! – que no auge da adiafa há-de
ser flâmula brandida à posteridade,
como exemplo de mulher e de alentejana.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

MULHER

Picasso - Le Demoiselles d'Avignon


Mariana, mulher de sentir a alma na garganta,
o sorriso um tanto liso e o coração na mão
e amante de cor, sem soluçar nem pintar a manta,
ainda agora Mariana, mulher de profissão.

Para elegias reles e caldos de galinha, não
precisava deus inventar-te última costela e santa;
mas para encher o olho na transparência do roupão
e achar-te uva redonda, estaca viva duma planta.

Já está bem de ser cantiga esta oração,
que é carrossel de feira a girar sem ter estação
e estares tão perto, Mariana, mulher, longe de ti.

Os garridos mais fortes e os pardos de doentes
hão-de repousar da infusão. Depois de assentes,
marcaremos novo encontro, ad infinitum: aqui.

("Poesia de Costumes" 1981)

terça-feira, 30 de junho de 2009

LUIS SILVEIRA/AUTO-RETRATO



No desdém da tela onde aparece
caricatural no traço e na vontade
de omitir o que afinal esclarece
na feição austera da realidade.

Eis como ele se nos oferece
ou esconde para a eternidade:
linear, pálido, como se quisesse
mentir de si toda a verdade.

Há ainda o breu donde provem
o fulgor alado da trama inocente
que a tudo cede e deixa. Porém,

esse, que é místico e se consente;
fere de morte e arrasa com desdém
o que tem por sorte e mais conveniente.

quarta-feira, 24 de junho de 2009



BREVE BIOGRAFIA


Há muitos anos que faço, por gosto e dedicação, e sempre que convidado para tal, actividades de animação com crianças do Ensino Básico e Secundário, designadamente, acções de dramatização de histórias e lendas, promoção da leitura, leitura de poemas próprios e de outros autores, e também saraus, colóquios e tertúlias para outros públicos.


Para além da ilustração avançada nesta minha apresentação, posso dar conta de que tenho, desde 1972, oito títulos de poesia e um de ficção editados, colaborações dispersas em jornais e revistas, como é o caso, actualmente e desde há onze anos, no Ensino Magazine.


É assim meu propósito colocar-me à disposição para eventos que entidades interessadas queiram levar a cabo, nos quais se enquadrem actividades como as que atrás refiro, sendo a divulgação respectiva por conta de quem as promova.


O valor de cada sessão (cerca de uma hora) será de setenta e cinco euros, mais despesas de alimentação e transporte.


Contacto:


 


terça-feira, 23 de junho de 2009

TRÊS GLOBOS



Globos ou punhos (de renda) partindo
os vidros da noite?
globos ou cravos brancos ensaiando o lume
quando desvanece o dia?
globos ou olhos de um olhar pálido e labiríntico?
- rosa dos ventos escorrendo anti rosas e anti ventos
outubros verde rubro
amieiros dormindo

itinerários cativos
velando o cio de cães e gatos
sem migração aparente

segunda-feira, 22 de junho de 2009

O MONTINHO



Um pássaro de vidro canta
a melodia que pode encantar
outro pássaro de vidro

um pássaro tem as penas que tem
suspensas umas outras por cumprir
as penas que um pássaro tem

um pássaro não sabe que o cipreste
cresce em pose oficial
de diligências à porta da gaiola

um pássaro canta por falar
e não sabe por que levo ao arraial
um flor vermelha com as ancas descompostas

um pássaro de vidro
ou uma rosa de plástico

domingo, 21 de junho de 2009

CANSADO (S. JOSÉ OPERÁRIO)

Pelo cansado se vai à romaria
da senhora de mércoles e de regresso
traz-me o torrão que eu tanto queria

e na alameda triste como antes
de dois sentidos no bom sentido
e tão mal sentidos nos restantes

insólito o seu ar magoado
mortiço d'alma o dia inteiro
morto noite dentro o bairro do cansado

só gramaticalmente vivo:
cansado aqui
é substantivo