sábado, 21 de agosto de 2021

SOL E DO


Quando o sol arrefece,

a modos que entristece

em arrepiante glacê.

Apenas ri quando aquece

ou porque lhe apetece

sem saber bem porquê.

 

Um ror de tempo enroupado,

sei lá em que vergonhas,

não sei se dorme, se sonha,

se o céu o traz ocupado

ou fica envergonhado

por ter chegado atrasado

à partida das cegonhas.

 

Este sol habituado

ao palco diurno do fado,

que nem por um dia se acoite,

se bem que triste ou magoado,

e mesmo se estiver cansado

nunca saiba o que é a noite. 


 

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

PÁSSARO OCRE


Não era afinal de ouro

nem possuía riqueza,

e fosse embora tesouro

era-o por singela beleza.

 

Amarelo-torrado, canário,

tudo lhe ficava a matar;

profissional do canto, operário

de antes morrer que cantar.

 

Morreu ocre e mudo,

escravo do tudo ou nada,

sem liberdade e, contudo,

numa gaiola dourada.

 


 

domingo, 15 de agosto de 2021

O GALHETEIRO DE CAMPAINHA


A tentação do aparador ainda hoje persiste:

a campainha do galheteiro era irresistível

e como ouvir aquele trim-trim de bicicleta

sem que a minha avó desse por isso?

A missão era ingrata, impossível,

Excepto aos meus ímpetos de menino…

De um lado do guarda-loiça havia copos e chávenas,

que só de tempos em tempos tinham serventia,

mas do outro estava o galheteiro e a sedutora campainha

exposta à imaginação de como tocá-la e ouvi-la

sem que os demais dessem conta.

Este princípio de vida permaneceu até hoje:

como fazer o impossível, como?

E o impossível ali, a dois passos, guardado no aparador.


 

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

QUERIDAS CEGONHAS


Há cegonhas que já não se dão ao trabalho

das migrações

aqui têm casa, que vão ajeitando galho a galho

durante gerações.

 

Por cá têm vida estável e habitação social,

salvo eventual revés,

aqui vivem e morrem de morte natural

e são elas que trazem os bebés.

 

Faz parte da paisagem permanente,

este príncipe das nuvens, voador:

plana, compete com o céu diariamente,

é a gaivota do interior.


 

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

PRECLARA DÚVIDA


Um prolapso do sol

um pedaço de sal

uma côdea de pão mole

um percalço ocidental

 

de escabeche um carapau

para uma fome futura

no fundo não é bom nem mau

mas dura dura dura

 

um passo de caracol

menos mal menos mal

um peixe no anzol

quanto é que isto vale?


 

sábado, 7 de agosto de 2021

CONSELHO VITRUVIANO



Vitrúvio queixa-se de novo:

- Que sina esta! De mim ninguém tem pena.

uma vida em quarentena,

oh redimensionado povo!

 

E a lamúria continua:

- Tirem medidas. Façam dieta,

todo aquele que arquitecta

uma vida ideal e saudavelmente nua.

 

Mil jejuns é a receita,

comer e beber também mata

e ponham-se no meu lugar, em espargata,

é uma quarentena perfeita, 




 

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

NADA


Nada não existe por nada ser,

que sendo nada, algo tem,

alguma coisa tem de acontecer

para ser nada, de onde vem?

 

Nada é o que não tem nome

e morre antes de nascer;

é o mesmo que morrer de fome

sem ter vontade de comer.

 

Ou seja, é conversa fiada,

quando nada há para contar

e então alguma coisa é nada,

para tanto dar que falar.

 

O tempo que leva isto tudo

sem encontrar substância

é porque o nada absoluto,

mais que tudo é abundância.


 

domingo, 1 de agosto de 2021

O OFÍCIO DE POETA


O ofício de poeta tem que se lhe diga…

Matéria-prima em ruptura permanente

e, pior ainda, o que mais intriga

é que todo o verso se crê urgente.

 

O tecido é frágil, fino, quase puído,

junta palavras bailarinas numa dança

e que por fim se transforma em vestido,

todo enredado em si, como uma trança.

 

Não tem prova, se for a gosto, assentar bem,

e a sobranceira figura logo ali se retrate

com o aprumo mais exacto que ela tem,

o poeta não passa de um erudito alfaiate.


 

quinta-feira, 29 de julho de 2021

VIVER COM ASAS


As nuvens são o sonho de voar;

deixamos que nos seduzam

e caminhamos como se tivéssemos asas.

 

Não temos asas; dizem-nos que não temos,

mas o nosso voo é igual ao dos pássaros,

conforme a imaginação.

 

O casario é extenso

e nunca o mundo que sonhámos.

É admirável o mundo como o sentimos, não como o vemos.


 

segunda-feira, 26 de julho de 2021

ÚLTIMA HORA


Informação, a que for certeira

digo, conforme a acta, que enforma

e é esse pormenor subtil que torna

a notícia verdadeira.

 

A notícia é o rufo do tambor

explico melhor: uma verdade contrafeita

escrita por gente eleita

seja lá ela o que for.

 

Serve-se fria, a jeito

e quem julgar que enforma é erro de ortografia,

fica na concha e se fia,

mude de jornal, com efeito.

 

Que tenha um bom dia e bom proveito.


 

sábado, 24 de julho de 2021

ÁGUA CORRENTE


Água nascente

na concha da minha mão,

fresca e pura como o amor que a segura por instantes.

A pouca distância, já o rio

desenha sulcos na lama das margens;

corre loucamente para a foz.

Perco-o de vista.

Toda a minha sede é memória deste rio.


 

quinta-feira, 22 de julho de 2021

NO FIM DO MUNDO



Depois da treva

e dos estilhaços da Lua sobre o oceano,

podem esperar o Sol, as nuvens e o vento:

precisarei somente de alcançar a minha janela

para voltar ao centro do universo

e aí respirar como a terra acabada de lavrar.

 

terça-feira, 20 de julho de 2021

CANDEEIRO



Amiúde, a falta de energia

e de dinheiro

coincidiam no pavio

do candeeiro

 

a petróleo, em lugar certo,

aclarando a vida:

uma chama ali por perto

ia consumindo a torcida.

 

A petróleo, ali por perto,

a chama duma torcida

em lugar certo

ia consumindo a vida.

 

quinta-feira, 15 de julho de 2021

AS FLORES


As flores, o cheiro das flores

e a perfeição que exibem sem vaidade.

As flores são o contrário do mundo, digo

a pulcritude da terra áspera que as impele

para a luz do sol e dos meus olhos.

As flores são o contrário do que morre,

do que fere e do que sangra

(pode ser suor apenas, mas sangra sem o sabermos)

dentro de nós, que as cheiramos e admiramos

pétala por pétala a sua beleza natural.

São tudo isso as flores e são também faróis de esperança

que trazemos no olhar até que a morte nos junta.


 

segunda-feira, 12 de julho de 2021

OVÍDIO MARTINS


                                                                     CARICATURA DE H. BETTENCURT SANTOS (HUMBERTONA) 1973


Ovídio Martins vive em silêncio

dentro de cada verso seu.

Mora aí na ponta de praia desde o ventre

de sua mãe, soterrado por mil ou dez mil poemas

mestiços, tanto faz.

Quem lhe tirou o som do mar, até o de Pasárgada,

não sabia que um poeta ouve com o coração,

o imbecil carrasco.

Sentado na esplanada da pracinha

escrevia versos em guardanapos de papel

e Santiago amanhecia num poema

debruçado sobre as grades que separam o Atlântico

mar, prisão e liberdade, do mundo silencioso à sua volta.