domingo, 1 de agosto de 2021

O OFÍCIO DE POETA


O ofício de poeta tem que se lhe diga…

Matéria-prima em ruptura permanente

e, pior ainda, o que mais intriga

é que todo o verso se crê urgente.

 

O tecido é frágil, fino, quase puído,

junta palavras bailarinas numa dança

e que por fim se transforma em vestido,

todo enredado em si, como uma trança.

 

Não tem prova, se for a gosto, assentar bem,

e a sobranceira figura logo ali se retrate

com o aprumo mais exacto que ela tem,

o poeta não passa de um erudito alfaiate.


 

quinta-feira, 29 de julho de 2021

VIVER COM ASAS


As nuvens são o sonho de voar;

deixamos que nos seduzam

e caminhamos como se tivéssemos asas.

 

Não temos asas; dizem-nos que não temos,

mas o nosso voo é igual ao dos pássaros,

conforme a imaginação.

 

O casario é extenso

e nunca o mundo que sonhámos.

É admirável o mundo como o sentimos, não como o vemos.


 

segunda-feira, 26 de julho de 2021

ÚLTIMA HORA


Informação, a que for certeira

digo, conforme a acta, que enforma

e é esse pormenor subtil que torna

a notícia verdadeira.

 

A notícia é o rufo do tambor

explico melhor: uma verdade contrafeita

escrita por gente eleita

seja lá ela o que for.

 

Serve-se fria, a jeito

e quem julgar que enforma é erro de ortografia,

fica na concha e se fia,

mude de jornal, com efeito.

 

Que tenha um bom dia e bom proveito.


 

sábado, 24 de julho de 2021

ÁGUA CORRENTE


Água nascente

na concha da minha mão,

fresca e pura como o amor que a segura por instantes.

A pouca distância, já o rio

desenha sulcos na lama das margens;

corre loucamente para a foz.

Perco-o de vista.

Toda a minha sede é memória deste rio.


 

quinta-feira, 22 de julho de 2021

NO FIM DO MUNDO



Depois da treva

e dos estilhaços da Lua sobre o oceano,

podem esperar o Sol, as nuvens e o vento:

precisarei somente de alcançar a minha janela

para voltar ao centro do universo

e aí respirar como a terra acabada de lavrar.

 

terça-feira, 20 de julho de 2021

CANDEEIRO



Amiúde, a falta de energia

e de dinheiro

coincidiam no pavio

do candeeiro

 

a petróleo, em lugar certo,

aclarando a vida:

uma chama ali por perto

ia consumindo a torcida.

 

A petróleo, ali por perto,

a chama duma torcida

em lugar certo

ia consumindo a vida.

 

quinta-feira, 15 de julho de 2021

AS FLORES


As flores, o cheiro das flores

e a perfeição que exibem sem vaidade.

As flores são o contrário do mundo, digo

a pulcritude da terra áspera que as impele

para a luz do sol e dos meus olhos.

As flores são o contrário do que morre,

do que fere e do que sangra

(pode ser suor apenas, mas sangra sem o sabermos)

dentro de nós, que as cheiramos e admiramos

pétala por pétala a sua beleza natural.

São tudo isso as flores e são também faróis de esperança

que trazemos no olhar até que a morte nos junta.


 

segunda-feira, 12 de julho de 2021

OVÍDIO MARTINS


                                                                     CARICATURA DE H. BETTENCURT SANTOS (HUMBERTONA) 1973


Ovídio Martins vive em silêncio

dentro de cada verso seu.

Mora aí na ponta de praia desde o ventre

de sua mãe, soterrado por mil ou dez mil poemas

mestiços, tanto faz.

Quem lhe tirou o som do mar, até o de Pasárgada,

não sabia que um poeta ouve com o coração,

o imbecil carrasco.

Sentado na esplanada da pracinha

escrevia versos em guardanapos de papel

e Santiago amanhecia num poema

debruçado sobre as grades que separam o Atlântico

mar, prisão e liberdade, do mundo silencioso à sua volta.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

NÃO RESPIRA A PALESTINA


Não respira a Palestina, não respira;

a bota sionista esmaga-lhe a garganta.

Não precisaria dizer mais, fosse o que fosse,

porque a morte não vem atrás pedir desculpa;

porque a vida não vem depois abrir os braços.

Não respira a Palestina, não respira,

porque o seu peito já não inspira o ar da vida:

apenas expele o grito da revolta!

 


 

sexta-feira, 2 de julho de 2021

ESCOLHA


Este é o percurso, sozinho

e nele não vai ninguém;

é esse o destino que tem

quem nasce para ser caminho.

 

Tem escolhos e pedras, é certo.

Não há como a água de um rio

a correr ao desafio,

nem de longe nem de perto.

 

Escolho a terra batida, desde logo

é terra firme, está-me nas veias:

vou pelas pedras e areias,

canto o vento, não me afogo.


 

quarta-feira, 30 de junho de 2021

O VERBO SER


Estás convencido de tudo, que conheces tudo;

que sabes até por que tudo é como é.

E afinal erras, enganas-te, tropeças e feres-te

por saberes tudo de toda a gente, tudo de ti.

Enuncias os verbos, conheces de cor os advérbios,

longe de saberes o que está mais perto…

Ainda agora acordaste e já o sono de novo te invade;

ainda agora nasceste, ainda hoje morreste sem dares por isso.

Conheces a migração dos pássaros e a raiz

que prende as árvores à terra pelo mesmo motivo.

É claro que é a vida. Que mais haveria de ser?

Aprendeste o aroma dos frutos, o valor da água,

do sol, da terra. É provável até que saibas o significado do sangue.

Do teu sangue e do outro que corre por aí, avulso e sem nome.

Estás mesmo convencido que és aquela figura

que te mostra o espelho, como ainda ontem aconteceu.

Se não falasses, não te teria reconhecido,

porque ainda falas e falar é o recomeço de tudo.


 

sábado, 26 de junho de 2021

NOTÍCIAS


Há coisas que oiço outras que leio.

São notícias, senhor;

vai longe o tempo em que vinham pelo correio

e tinham sentido, cheiro e até sabor.

 

Hoje, são as notícias que me querem dar,

carregadas de cokies, umas, outras de risco;

todas por medida, para meditar:

que mal fiz eu para merecer isto?!

 

Esperem, aqui há notícia duvidosa

para esclarecer no café, entre outros dramas,

que é sítio de sábios e de gente palavrosa,

a quem nunca disse uma letra dos meus aerogramas.


 

terça-feira, 22 de junho de 2021

QUINTAL


Gostava que a minha casa tivesse um quintal,

um pedaço de terra, já me contentava.

Mas a minha casa tem apenas portas e janelas

para os quintais daqueles que os têm

ou que os deixam estar ali quietos

e nem querem saber da felicidade que é ter um quintal.

Se eu tivesse um quintal mudaria para lá a casa

e passaria a olhar para a casa como um verdadeiro quintal:

talvez assim sossegasse esta ansiedade

e olhasse a casa como coisa que gostasse de ter,

deixando de me sentir amputado dum quintal,

que não saberia cuidar nem para que serviria o musgo

das pedras em cima da minha cama.


 

sexta-feira, 18 de junho de 2021

SEM NOVIDADES


Novidades que aqui se possam anunciar,

nem uma, por rara que pareça ser.

Há uma chuva por aí, que alguns gabam

e outros de fastio se queixam.

O mesmo de sempre.

Vivemos neste intervalo entre o amor e as trovoadas.

O mesmo de sempre.

É aqui que nos sentimos bem; onde coaxamos,

sempre que a água permite

e o amor nos faz tenores em pleno charco. 


 

segunda-feira, 14 de junho de 2021

O MONTADOR


Há quem monte por gosto

e por montar:

não tem sinais no rosto

nem botas de cavalgar.

 

Podendo montar a eito

roda a monta, roda a festa,

sem se dar por satisfeito,

seja qual for a besta.

 

Monta quem bem entender

e, para memória futura,

afinal quem monta a valer

é a própria cavalgadura.