terça-feira, 16 de agosto de 2011
UM ADEUS COM CHUVA PARA A FOTOGRAFIA
Chove, chove sempre no adeus:
tem muito mais poesia…
Não sei se nos teus olhos, nos meus
é pura fantasia.
Adeus, adeus. Literariamente
repete-se o substantivo,
ainda que por dentro, literalmente,
não faça qualquer sentido.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
ANDORINHAS DE PARTIDA
Eis as andorinhas de braços cruzados.
Para quem não sabe, deixo aqui a dica:
filhos criados, trabalhos dobrados,
para elas é norma que não se aplica.
Estão como quem toma balanço,
refasteladas ao sol que lhes dá genica
e a combinar a hora do avanço.
Não tarda nada, nem uma só lá fica
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
FOTOSSÍNTESE
Ah, o casamento (em segundas bodas)
do dióxido de carbono com a luz:
primeiro a água – engraça com todas,
que bem lhe fazem, seu ai Jesus.
É uma química que há nele,
mais os punhos de renda, todo um boneco,
leva-as à certa, que o sol para ele
é dama em traje de surrobeco.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
ACORDO
o gato era um rato
e o rato era um gato
não por trocarem de fato
por acordo, era um facto:
o rato era um gato
e o gato era um rato
o rato morreu farto
e o gato de parto
ortograficamente
exacto
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
PEDRA A PEDRA
Uma pedra que arrima,
ainda outra pedra,
outra pedra em cima.
Não é a perfeição;
é no início
toda a construção.
Pode ir abaixo, cair.
Mas levanta-se
e torna a construir.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
PAINEL DE AZULEJOS (PORMENORES)
Eu sei, Joaquim, que faltam pormenores aos pormenores…
Faltam a janela e o relógio do refeitório e todos saberíamos que os operários almoçam à quatro da madrugada; falta um operário na fundição e, enfim, faltam as cenouras ao “Sancho Pança”.
Mesmo assim, vale a pena publicar estas fotos, com um abraço para ti e para a Ana Maria.
No dia em que choveram sardinhas assadas na tua casa, com os meninos (grandes e pequenos) a Esmeralda e o Fernando.
Faltam a janela e o relógio do refeitório e todos saberíamos que os operários almoçam à quatro da madrugada; falta um operário na fundição e, enfim, faltam as cenouras ao “Sancho Pança”.
Mesmo assim, vale a pena publicar estas fotos, com um abraço para ti e para a Ana Maria.
No dia em que choveram sardinhas assadas na tua casa, com os meninos (grandes e pequenos) a Esmeralda e o Fernando.
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
O ESPECIALISTA
Aqui estou bem, sinto-me bem.
Sei do que falo. Sou especialista em estar.
De papo para o ar, olho para cima
onde o negro-azul me tranquiliza.
Outros chamam-lhe apenas noite.
Saber estar é uma disciplina complicada. Chumbei.
Todos apreciam estar, desejam estar.
Já quanto a mim, basta-me estar.
Faço seminários
onde as pessoas falam de coisas estranhas,
como por exemplo alguidares, sopa de vagens e de persianas.
(levam tudo para a brincadeira…)
Nunca estão onde realmente devem estar.
Às vezes nem eu mesmo sei onde estou,
sendo obrigatório que o saiba, pois sou especialista, como já disse.
Dizem que sou um chato,
não entendem o que é uma vida inteira dedicada a estar.
Quero ver como se desenvencilham
no dia em que deixe de estar. Será o caos.
Vou agora especializar-me em ser.
Será o segundo mestrado.
Afinal não poderia estar indefinidamente
sem ser e estar mais à-vontade.
sexta-feira, 29 de julho de 2011
VÃO PENTEAR MACACOS
Há por aí criaturas, de ressaca,
que garantem que o leite em pó
(nada tendo a ver com o da minha avó)
é de vaca.
Que os sumos, embalados de forma astuta,
e calibre segundo sabores e formas,
respeita a lei e apertadas normas
e sabe a fruta.
O jamon, que é presunto de pata negra,
é espanhol de origem, nunca de Barrancos.
Isso juram pela mãe de todos os santos,
segundo a regra.
E anunciam a pequena maravilha
de bisnaga, essência de vaselina,
com sabores e extractos de areia fina,
que arde na virilha.
Ainda um kit com cheiro para os sovados,
champô e gel de banho com essências,
tudo das melhores proveniências.
Vão pentear macacos!
quarta-feira, 27 de julho de 2011
REMINISCÊNCIA
Mulher ao Espelho - Picasso
O espelho do pechiché era a moldura diáriado seu próprio corpo,
do seu rosto jovial de recém-casada, virgem e sem rugas,
de uma castidade prestes à consumação do amor eterno.
Reclinável, o espelho, decotava o vestido de seda
e aprimorava a imagem.
A figura era magnífica:
bela, sensual, com fantasias inconfessadas
e cândida como a primeira água da nascente.
O espelho do pechiché, dizia, era a moldura diária do sonho.
Tão real, que era difícil desmenti-lo
ou acreditar que o espelho permanece fiel
como no primeiro dia.
sábado, 23 de julho de 2011
SIGA SIGA
Há quem diga
que a fadiga
é inimiga
da formiga
siga siga
se se empertiga
é intriga
se arreia a giga
logo há quem diga
siga siga
como aquela rapariga
vizinha nem me diga
se o pão mastiga
ninguém liga
se anda à espiga
é mendiga
siga siga
é cantiga
de quem tem mais olhos que barriga
quinta-feira, 21 de julho de 2011
IMPRUDÊNCIA
Falei sim, de bravura
para enfrentar a fera,
mas não falei de loucura,
que exaure e desespera.
De coragem, quanto baste
como na morte o seguro,
não vá acabar em desastre
o que era p’ra ser futuro.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
AFINAL, EM QUE FICAMOS?
Que fazem aí perfilados?
Quem tem maior patente?
Nunca os vi por estes lados,
aqui não vem toda a gente!
Isto aqui não é caserna,
nem passerelle militar,
nem eu dona da taberna
para vos ter que aturar.
Sei a cartilha de cor,
não me julguem pel’altura:
não me levam a melhor
se ponho as mão na cintura.
domingo, 17 de julho de 2011
SEMPRE ESTRADA...
A estrada está por nossa conta,
do traço contínuo até à berma.
Pelo menos ninguém nos monta,
nem há quem nos passe a perna.
Pano para mangas, é o que te digo
- seja em que circunstâncias for -
e fica-te com esta, amigo:
ir para casa a pé, é bem pior.
sexta-feira, 15 de julho de 2011
RETRATO DE POETA,
sexta, dia de revisões e queixas
Nunca me fizeram um retrato
de poeta.
Mas fotografaram, pintaram e até esculpiram Pessoa
com o inevitável chapéu de feltro e o par de lunetas
que repartia com todos os heterónimos.
Não tenho um único retrato
de poeta.
Ao contrário de Walt Whitman,
que foi imortalizado em pose de patriarca iluminado,
velho, de barbas esgadanhadas muito além da decência
da pilosidade poética.
A Baudelaire que era feio, fizeram-no
com certeza por maldade.
Eu é que nunca posei
enquanto poeta,
com a mão apoiando o queixo, como os românticos
ou ambas todo o rosto, como os surrealistas.
Ou será ao contrário?
Vá lá, por favor, façam o meu retrato
de poeta,
que não tardam aí poetas do futuro,
desejosos de escrever sobre ele um ou dois versos
dum poema magnífico.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
ALDRABA
Eis a chave que tranca,
mestra por tal valor,
o nosso dinheiro na banca
para não lhe vermos a cor.
Ficamos tão ofuscados
com o vislumbre da massa:
luxo, p'ra mal dos pecados,
lixo, p'ro rating da praça.
Não passamos da cepa torta,
olha a grande novidade!
Então, ponham trancas à porta
e atirem-lhes com a chave.
mestra por tal valor,
o nosso dinheiro na banca
para não lhe vermos a cor.
Ficamos tão ofuscados
com o vislumbre da massa:
luxo, p'ra mal dos pecados,
lixo, p'ro rating da praça.
Não passamos da cepa torta,
olha a grande novidade!
Então, ponham trancas à porta
e atirem-lhes com a chave.
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