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sexta-feira, 8 de setembro de 2017

CEDO ERGUER


Sobre o ditado que diz
deitar cedo e cedo erguer
não passo de um aprendiz
sem saber o que fazer.

Dá saúde e faz crescer,
ditam as suas razões.
Mas para quê amanhecer,
se sabem tão bem os serões?…

Não cederei ao desplante
e fica assente, vou cumprir,
nem que para tal me levante
antes mesmo de dormir.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

PAPAGAIO DE PAPEL


Tive um papagaio de papel,
feito de canas, folhas de jornal
e um novelo de cordel
para a coluna vertebral.

E já no céu do céu,
de tão longe que se via mal,
aquele papagaio era o meu,
mais pequeno que um pardal.

Como os demais, voava,
esse era o meu intento.
Pobre na cor mas rodopiava,
que de cores não sabe o vento.


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

PÁSSARO OCRE


Não era afinal de ouro
nem possuía riqueza,
e fosse embora tesouro
era-o por singela beleza.

Amarelo-torrado, canário,
tudo lhe ficava a matar;
profissional do canto, operário
de antes morrer que cantar.

Morreu ocre e mudo,
escravo do tudo ou nada,
sem liberdade e, contudo,
numa gaiola dourada.


sábado, 2 de setembro de 2017

PÔR-DO-SOL



O oceano e o céu ardentes,
como no fogo primordial
de achas rudes, incandescentes,
deste horizonte irreal.

Lá mais adiante falece
o meu olhar por delir de mais
e incrédulo por ver o que parece
o princípio e o fim, ambos reais.

Só porque o Sol sucumbiu
de novo à noite prestes a tombar
e o dia vivo por um fio
estrebucha de pavor e falta de ar.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

PÁTRIA


As brumas então cantadas
de pé, na escola, não eram
nuvens, mas palavras cifradas,
o que afinal nos deram.

Se era cantado era doce:
éramos demasiado pequenos,
eu julgava assim, fosse o que fosse,
farófias, do mal o menos…

Era porém memória espessa,
flagelada, onde assentava o destino
- de todos nós? Homessa! -
Não era cantiga, era o hino.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

PARDAL



O admirável pardal,
que sem andar não se atrasa,
faz ninho no meu quintal,
ganha o céu num golpe d’asa.

Pula, gracioso, saltita
e, sem se cansar jamais,
torna, esvoaça, debica,
que o primeiro é dos pardais.

Cinza é a cor; não a vida,
para ele prova de fundo,
dia a dia, sem guarida
ganha a rua e ganha o mundo.

domingo, 27 de agosto de 2017

SOBRE O PÃO


Ferra o sono o padeiro
cansado, durante o dia,
mas pão há o dia inteiro,
fresco, à venda na padaria.

Quem puder ferrar o dente
no pão (nosso) de cada dia,
pela hora do sol nascente,
há pão quente na padaria.

O pão é diário e persistente,
tão pertinaz como a fome
e contradição evidente,
excepto para quem o come.


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

SOU UMA ÁRVORE


Sou uma árvore frondosa e viva,
não ardida. Das que não suplicam
quando estendem os ramos. Altiva,
acolho as aves que em mim nidificam.

Hei-de trepar as nuvens e o vento,
chegar ao sol sem me queimar.
Jamais me ouvirão qualquer lamento:
sou uma árvore, vivo do ar,

da água e da luz que me alimentam
trepam as raízes lá do fundo.
As minhas leis não se decretam:
sou uma árvore e todas as árvores do mundo.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

TRAJE DE NUDEZ


A nudez é um singelo vestido
natural e de tão patentes formas,
que a simples venda do tecido
obrigaria a rigorosas normas.

Normas, porém, são o que são,
e é bom de ver já o aparato,
mercê das artes de corrupção,
luxuosas vestes expondo o trapo.

Mas os moralistas, não faltaria
esconderem de vergonha as caras,
que por pudor nos meteria
em camisas de onze varas.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

NEM SEMPRE


Aposto que hoje me esperavas
coberto de rosas, perfumado,
com um enorme chapéu de abas,
lenço e colarinho engomado.

Aposto que hoje me esperavas,
sorrindo de orelha a orelha,
prazeroso e mandando às favas
rancores e tudo o que se semelha.

Aposto que hoje me esperavas
desdenhando de tudo o que tenho:
terra seca e ervas bravas…
Não esperes, que eu hoje não venho.

sábado, 19 de agosto de 2017

FIGOS


Não me livro de castigos,
sorte a minha, que é tão pouca:
uns tantos comem os figos
e a mim rebenta-me a boca.

Há os lampos, de S. João
e ouriços da piteira,
uns são legítimos, outros não
têm eira nem beira.

Conduto, de quem tem
outras fomes, é como digo:
tudo o que nos sabe bem
é norma chamar-lhe um figo.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O BEBÉ E O CÃO


Ladra o cão sem razão,
o bebé que não acorde,
o menino dorme e o cão
por ladrar não morde.

De ambos é condição:
um ladra, outro dormita,
as coisas são como são
haja quem o não admita.

Mais tarde ou mais cedo,
O bebé acorda e chora,
o cão amua de medo,
é a vez da criança agora.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

UMA CAMISA À VARANDA



Uma camisa à varanda
- camisa cintada aquela -
e a dona por onde anda,
que não vejo, onde está ela?

Esvoaça alegre a camisa,
a meus olhos, num vaivém…
até parece que me avisa
da roupa que a dona não tem.

Vejo na corda estendida
o corpo fino da donzela
em forma de tara perdida
mas da dona, nem sinal dela.

domingo, 13 de agosto de 2017

A MÚSICA DO BEIJO


Quanta música há num beijo,
quanta área condensada
em movimento de solfejo,
dança lenta e ensaiada.

Os sons mudos misturados
da delicada sinfonia
são os beijos que são dados
de improviso, em sintonia. 

E baila, e baila sem parar,
beijo que é dado não cansa
(uma pausa para respirar…)
E siga o beijo, siga a dança.