quinta-feira, 19 de julho de 2018

AS COISAS SIMPLES


A gasta varanda de ferro forjado persiste
desde o tempo em que, debruçado no peitoril,
deixava o gato adormecido (já não existe),
aproveitando o último raio de sol primaveril.

Na alameda, a mesma gente, vista de cima,
gente a quem raramente desvendava o rosto,
quase sempre à pressa, quase sempre anónima,
sem nunca saber se sorria, se o seu oposto.

Às vezes ladravam cães para desassossego
do bichano: abria um olho e, pressentindo-me ao pé,
tornava silencioso ao morno aconchego
sem qualquer necessidade de ir dar fé.

Não faziam falta as horas porque eu nada esperava;
via passar todo o tempo, toda a gente num frenesim
e eu (e o gato) debruçado na varanda imaginava
que o tempo, visto de cima, não passaria  por mim…