segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

RETRATO DO FOGO ENQUANTO NOVO

 


O fogo, ainda fogacho, nasceu em umas palhinhas deitado. Enjeitado à nascença – crê-se que fruto de um qualquer descuido – teve que fazer-se à vida sozinho e pelo seu pé.

Enquanto jovem foi uma graça: brincava com carumas espalhadas na floresta, folhas secas e, mais tarde, com fósforos, que acabavam por perder a cabeça de tanta brincadeira.

As pessoas acharam-lhe graça, chegando mesmo a louvá-lo em festas e romarias em honra de santos padroeiros, carnes assadas e vinho.

Saltitava, ora à frente, ora atrás das procissões, brincava em lanternas improvisadas que os anjinhos faziam erguer em acção de graças, graças ao fogo que nunca se cansava de arder, pois era o que melhor sabia fazer, ou melhor, a única coisa que aprendeu a fazer, por via das pessoas cujo ensinamentos não tinham para dar e se limitavam ao leviano deixa arder.

Fruto de más companhias, diziam, chegou a participar em guerras, dominando os oponentes, de quem lhe dissesse que eram os oponentes. A água era o seu inferno, o resgate da sua alma.

E pronto, adulto já todos o conhecem: ficou enorme, quase sempre anónimo e agora podem soprar à vontade, que já lá não vai com paninhos quentes, salvo seja.

 

 


segunda-feira, 27 de outubro de 2025

DESASSOSSEGO

 


(De)terminando o último capítulo,

com a morte na algibeira

para uso eventual e indesejado,

dei comigo a pensar a cores.

 

Pensei num qualquer presságio,

desses que ocorrem por avistamentos

ou indigestões avulsas, mas era o arco-íris,

tão inesperado e efémero como sempre.

 


terça-feira, 14 de outubro de 2025

DA POESIA


Do poema não espero nada;

nada, longe vá o agoiro…

mas da essência da poesia esperada,

dessa quero todo o seu oiro.

 

Metediços, os versos alcoviteiros

espreitam à tona, espiando a obra

e por fim remetem-se aos canteiros

da folha morta que enfim sobra.

 

Aborrecem-me rimas e brancas,

subir e descer os versos perfilados:

- Poesia, porque não estancas

as veias aos versos fracassados?


sexta-feira, 23 de maio de 2025

AVEC LE TEMPS


 

Vivo de maleitas e penas,

também de alegrias fugazes;

lutas, gritos e novenas

 e assim faço comigo as pazes.

 

São tantas e tais as penas,

que nem me atrevo a contá-las,

das maiores às mais pequenas,

todas são pedras e balas.

 

Apesar disso tenho flores

vermelhas de anos transactos,

hoje lembranças e rumores,

mas a maioria são cactos.

terça-feira, 6 de maio de 2025

EM UM DIA DE PESCA


O meu tempo – e ele é cada vez menos meu –

entrou em velocidade de cruzeiro.

Não para já nas estações; acelera como um louco,

como um comboio sem travões.

 

A poesia vai saindo por uma chaminé

ao sabor do vento, em sentido contrário.

O silêncio, feito de ponteiros de relógio,

não deixa vestígios, é o álibi perfeito.

 

Demasiadas memórias… são sinais – o tempo voa –

nem tanto como pássaros, esses vão e vêm,

mas como o sopro de uma aragem fria

que, por ironia, vai queimando as veias.

 

Agora, o anzol traz-me um peixe,

que não é culpado das minha demoras,

e eu o que faço ao desgraçado, sacudindo a morte?

- Vai! Volta às águas do resto da tua vida!


 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

DAS PALAVRAS ABANDONADAS


Das palavras abandonadas, a palavra paz

encontrei-a com o corpo cheio de mazelas,

segurando uma pomba ferida e suja,

com vestígios de ter sido branca, quando nova.

 

Por outras palavras, já não tinha uso ou préstimo.

Além disso, todos olhavam para ela

com desconfiança, com receio de lhe tocar,

não fosse uma armadilha que detonasse nas mãos.

 

Afastada dos dicionários por falta de significado,

a palavras paz vive sem abrigo, coberta de estrelas

e luzes de néon que a evocam sem convicção,

numa guerra de palavras sem qualquer sentido.