sábado, 9 de julho de 2016

BIBELOT


Perfeito monte de brincar
com tudo no lugar exacto;
malgrado, dá para olhar:
é bibelot de artesanato.

Mas podem tirar o retrato,
fica para depois recordar;
salvo a gente e o aparato
do trabalho noutro lugar.

Depois, ainda o respeito
a quem, curvado, labuta
e que se apruma a eito,
que trabalha e que luta.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

REIS PARTAM


É rei el rei se for bolo;
reinação, se o rei for tolo.

Abjecto rei de nu vestido;
rei momo é adjectivo.

Todos os reis, reis para tudo;
desde o bacalhau ao Entrudo.

De reis, até ao pescoço,
a quem tem dez reis no bolso

Copas, paus, ouros, espadas:
reis p’ra todas as jogadas

De um tal Midas, o toque
ficou sem rei nem roque.

Reis da rádio telefonia…
Reis partam a monarquia!

terça-feira, 5 de julho de 2016

PENHA GARCIA


Enquanto dorme, a penha imita o sono,
habita o coração e a aguarela do sonho.
Escala a memória, rude, áspera e medonha,
para se adentrar no vale como lençol de estopa
e voltear no leito como quem já não sonha
ser tão grande o mundo e a vida tão pouca.

domingo, 3 de julho de 2016

SUPERSTIÇÃO


O gato branco brilha no escuro
da noite empoleirado no muro
é, por si só, apenas um gato.
Mesmo que o gato fosse preto
(sendo embora branco, é um facto)
seria um gato e não um amuleto.

Porém o gato é branco como o luar
e por não ser preto não dá azar.
Preto é o tempo, a noite lá fora
e o azar não está no gato galdério.
Antes que o gato se vá embora
temos de  resolver este mistério.

Se o gato fosse preto, que mal fazia
e o branco fosse agora a luz do dia?
Tudo seria igual ou então parecido.
Pior era se o gato preto, por capricho,
se deitasse à noite escura, sem luar:
ninguém daria razão do pobre bicho
e não haveria nem gato, nem azar.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

VERÃO SE VIREM


Agora era suposto o sol na eira,
digamos, que salvo à sombra, em todo o lado,
mas não: ora se mostra, ora se esgueira
e assim vai o tempo, triste e nublado.

Meteu-se o homem com os elementos,
com experiências estranhas e deu-se mal.
Agora deixem-se de lágrimas e lamentos,
que o Verão só como prenda de Natal.

De repente uma trovoada daquelas,
frio de rachar seguido de sol abrasador,
que se não nos tomarmos de cautelas,
ai de nós, com este Verão no seu melhor.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

OLÍMPICA EPOPEIA


Alto é o alcantil,
a pedra em terra,
que o mar lhe foi ardil
e temor de finisterra.

Forte, o rochedo,
o destino adverso,
que converteu o medo
em universo.

Longe vai o mar,
as velas ao vento;
cansado de as olhar,
longe vai o tempo.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

EU ALGURES


Às vezes não sei se sou um ponto
algures no profundo universo,
sequer o beco em que me encontro,
ou sou todos os lugares, no inverso.

Há momentos em que sim, digamos, minto,
fingindo o bom tempo e a bonança,
mas isso são coisas que digo e não sinto;
são práticas que apendi, de boa vizinhança.

In verso sou, declamado ou em surdina,
como nuvem exposta, propositadamente nua,
ensaiando passes de columbina
sob o véu que me intromete entre a terra e a lua.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

EXPECTATIVA


A terra corrompida como o pó de defunto,
como o pó daquilo que em pó se tornará o seu futuro.
Resta um caule de erva daninha erguido na orla
mas não será isso que me fará deixar de ser
deus e demónio de mim mesmo
(e alguns anjos para tarefas menores,
por influência ocidental e de ouvir falar);
nem a terra terá fé em vez de frutos.

terça-feira, 21 de junho de 2016

O DOM DA PALAVRA


O som da palavra, bom,
é a sua pele, o seu tom:
o bom da palavra é esse;
o dom não lhe pertence.

Meio-tom é quando abranda,
amolece e não desanda,
é som que não aquece,
dom que nem aquece nem arrefece

e o dom não flui, não sai,
nem com palavra d’honra lá vai.

domingo, 19 de junho de 2016

GALINHAS D`ÁGUA



Quando no rio brincávamos,
em tempos que já lá vão,
até nas pedras que atirávamos
palpitava um coração.

Se eram beijos ou pedradas,
perguntas com certa mágoa:
os beijos são águas passadas
e as pedras, galinhas d’água.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

CESTEIRO


cesteiro
que faz um cesto
faz
a sesta
(de segunda a sexta)

sexta-feira, 10 de junho de 2016

AS LETRAS


As letras, ai as letras, se pudesse lavrá-las,
podá-las, como seriam as palavras?
Soletram a pauta feitas pulgas, feitas putas
rodopiam nas esquinas mais sombrias
e depois saltam, as vadias,
no dorso das palavras indecisas.
Ai as letras, que me fogem das palavras
à procura de ditongos já proscritos e teimam,
a altas horas, que a exigência é das sílabas
tónicas, das rimas escorraçadas.
Quero uma palavra esdruxula, se plantada de raiz;
aguda se podada com preceito. As restantes
são palavras sem princípios, contagiadas de letras
vadias e sofrem de epidemias graves
e o texto não são versos, são frases apalavradas.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A CASA



Não mora quem morou antes,
antes mora quem não morou:
mora a memória que dantes
não se lembrava e mudou.

Mudou para outro lugar
longe ou ao pé da porta.
Mas se a memória mudar,
quem mudou não se recorda.

Recorda que em tempo viveu
longe ou ao pé da porta,
onde o tempo ao tempo deu
e a lembrança não importa.

Agora a casa está morta.


sábado, 4 de junho de 2016

CUIDAR DO SOL


Atava o sol, se ele deixasse,
na ponta, com um cordel,
e ficava de olho nele
do lado que mais brilhasse.
Deixava-o brincar no céu
levando-o sempre p’la mão,
como se fosse um balão
de ar quente e só meu.

Abraçava o sol, se pudesse,
cuidava dele noite e dia
e eternamente fazia
com que nunca arrefecesse.
Beijava-lhe as mãos e o rosto,
com desvelo redobrado
para ficar sempre acordado
e nunca mais haver sol-posto.

Se o sol quisesse, subisse,
se não quisesse, ficasse,
mas que desse sempre a face
do local de onde o visse.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

CEREJAS


Cerejas, para que possam reconhecê-las,
são pequenas luas doces e vermelhas,
que tanto podem tingir a boca ao comê-las
como pender aos pares nas orelhas.

Cerejas são a carne de um desejo,
dum abraço a que a memória nos convoca.
São, além do mais, um lábio, um beijo
e a sede que a sua ausência nos provoca. 

Ah, a sede, pois, hei-de falar dela um dia,
quando suplicantes cachos irromperem
neste pomar de empréstimo, estufa fria,
onde os lábios secam e as cerejas morrem.

Então gritarei se ainda valer a pena, vede:
estas sempre foram o vosso desdém da sede.