sábado, 16 de abril de 2016

A VARANDA


Na varanda, onde à tardinha ponho a mesa
para comer fora, o mundo ganha as cores que eu quiser.
Às vezes, a vizinhança ignora-me ou finge
que não vê a ostentação exibida nas latas de conservas,
outras cumprimenta-me efectuosamente,
como se há anos não me enxergasse o rasto.
Pura ilusão: tentam ler os rótulos das embalagens;
querem saber mais do que lhes quero mostrar.
É nessas alturas que lhes atiro cá do meu sítio:
- são servidos? Mostram-me a palma da mão
e recolhem-se, pensando sabe-se lá o quê sobre mim.
Pelo contrário, visto da rua, querem lá saber
se como ou me divirto a ver quem passa.
Não é o mundo que me vê;
sou eu que vejo o que o mundo vê em mim. 

quinta-feira, 14 de abril de 2016

A CASA


A minha casa é feita de portas e janelas
para a rua.
As portas e as janelas são as asas da minha casa.
É por elas que me escapo para depois ter saudades
e voltar a escapar-me outra vez.
Quando estou ausente só penso nela por dentro.
Os meus vizinhos cravam os cotovelos nos peitoris
e sentam-se à soleira das portas horas esquecidas
e eu acho que eles se prendem voluntariamente
e se amarram ao mundo, contemplativos.
Tentei imitá-los uma vez mas deixei-me escapar de novo.

terça-feira, 12 de abril de 2016

O QUINTAL


Gostava que a minha casa tivesse um quintal
e se fosse um terçal ou um quartal, já me contentava.
Mas a minha casa tem apenas portas e janelas
para os quintais daqueles que os têm
ou que os deixam estar ali quietos
e nem querem saber da felicidade que é ter um quintal.
Se eu tivesse um quintal mudaria para lá a casa
e passaria a olhar para a casa como um verdadeiro quintal:
talvez assim sossegasse esta ansiedade
e olhasse a casa como coisa que gostasse de ter,
deixando de me sentir amputado dum quintal,
que não saberia cuidar nem para que serviria o musgo
das pedras em cima da minha cama.

domingo, 10 de abril de 2016

SINAIS DE FOGO


As manhãs rompem ou não conforme o sol;
cedo dão o primeiro sinal de vida e de alerta:
primeiro sonolentas, a passo de caracol,
depois, bem, depois já não é ciência certa…

Faz-se tarde, os sinais descobrem o velho
dia entorpecido, cor cinzenta, como prata
e a noite, que já se ornamenta ao espelho
cai como lâmina que fere mas não mata.

Vespertino o dia dá sinais de desalento,
de azuis que fingem altivez e desafogo
e desvanecem aos poucos com o vento.

Se não é agora já não será mais logo:
o dia implode mas o seu atrevimento
dá-lhe coragem e o primeiro sinal de fogo.

terça-feira, 5 de abril de 2016

AS FEIRAS


Chorei por mil tambores.
Todos me pareciam magníficos.
Com qualquer um faria marchar o soldadinho de chumbo,
escondido algures, mas com certeza dentro de mim.
Talvez tenha conseguido um ou dois, talvez três.
Normalmente ofereciam-me pandeiretas,
que eram mais baratas. Eu pensava apenas que eram de menina
e por isso as rejeitava.
Se fosse mosca e presenciasse aqueles despiques,
Saint-Exupéry acharia, certamente, cativantes os meus apelos,
ao contrário do meu pai,
que não lhes encontrava muita graça.
Mas os feirantes adoravam-me e até me faziam festas,
mesmo que não me conhecessem de parte alguma.
As feiras, mais do que as simples festas,
tinham a minha preferência.
As festas aborreciam, prolongavam-se demasiado
e tinham poucos motivos de interesse para a criançada.
Por outro lado, as feiras,
para além do ar de festa que eu lhes via nos balões,
nas luzes e cores e na gente sempre em movimento,
tinham o encanto do regalo que eu podia levar para casa,
continuando a divertir-me
e a atormentar os ouvidos de todos,
até à próxima. 

quinta-feira, 31 de março de 2016

PROEMA


primeiros prantos
pregos proibidos
prémios primos
prédios pretos
pratos prévios
praias próximas
preces privadas
praças preenchidas
pregam presbíteros
pregões preceptivos
prefixos preditos
problemas primários
presos preventivos
professores provisórios
projectos profundos
procissões profanas
próximos programas
provas práticas
princesas prenhas
provisoriamente
pronto 

segunda-feira, 28 de março de 2016

O TEMPO


(esboço para uma informação diária)

Segundo
observadores
geralmente
bem
c o l o c a d o s
a crista de altas pressões
que vem afectando o estado do tempo
em todo o hemisfério ocidental
tende
a
dissipar-se

- o tempo vai mudar

sábado, 26 de março de 2016

ILUMINAÇÃO NOCTURNA


À luz enganadora da imaginação,
que lhe deixa desprendida a fantasia,
subo e desço a imensa escadaria
com o olhar nocturno preso ao chão.

Subo sem subir; desço sem descer,
passo o tempo neste vaivém constante,
de cima abaixo; de trás para diante
e todo eu ali parado, sem me mexer…

segunda-feira, 21 de março de 2016

SONHO DE MIM



Vivo de sonhos e espuma,
e de planos que nunca traço.
Ao todo é coisa nenhuma,
habitando o mesmo espaço.

E enquanto sonho que vivo
neste imaginário compasso
vou coabitando comigo
à distância de um abraço.

Insisto – se é que insisto,
vestígios de mim ou cansaço –
em ser, nunca desisto
do sonho de que me faço.

quinta-feira, 17 de março de 2016

CHOVEM NOTÍCIAS


A terra, tão bastarda como fértil
que conheço e onde, ainda hoje,
tenho braços e pernas enterrados,
aqui é entulho e lama e os frutos,
cromaticamente falsos, são artigos de folheto.

A chuva, a inconveniente chuva,
se se demora e inunda, é notícia de jornal,
carreiros de rega transformados em valetas,
estéreis barrancos da cidade,
vertendo no bueiro mais próximo,
para o descanso de todas as almas recenseadas.

terça-feira, 15 de março de 2016

VERSOS ACIDENTAIS

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Pela porta entreaberta numa parede
da minha velha casa espreito o mundo
na rua, que de nada desconfia.
Eu é que suspeito que ele sabe mais de mim,
sem me ver, do que eu dele, que se esconde
além da porta acidental da minha parede.

sábado, 12 de março de 2016

PALPOS DE ARANHA


Passam-se coisas estranhas
ou, pelo menos, esquisitas:
na terra dos parasitas
anda tudo às aranhas,
salvo as ditas.

Passando aos pormenores,
há os que por acaso mero
tecem teia a partir do zero:
aracnoexploradores,
salvo erro.

Usando de baba e peçonha,
são servidos de bandeja
mesmo que a gente não veja
por outros bichos sem vergonha,
salvo seja.

terça-feira, 8 de março de 2016

NEGLIGÊNCIA


Na árvore havia sempre um fruto
mais vistoso e mais difícil de se lhe chegar,
lembro-me bem.
E também me lembro que comia
todos os frutos fáceis de alcançar e me sabiam
àquele que o meu olhar guloso mastigava.

Guardava diariamente o fruto mais apetecido…
Afinal, ele dava sabor a todos os outros
que me alimentavam e um dia, pensava,
haveria de abandonar tanta arrogância
e cair-me nos braços.
No dia em que finalmente caiu
estava amargo e velho como o meu desleixo.

sábado, 5 de março de 2016

A CIDADE PERFEITA


Ainda a simulada defesa do património
assentava arraiais no perfil das aduelas,
na cor dos telhados, portas e janelas
e já sopravam ventos doutro demónio.

Vieram então granitos de encomenda,
rectroescavadoras e demais engenharias,
capazes de transformar em poucos dias
a cidade que assim se pôs à venda.

Ferro para ali e para acolá, fora o cimento,
um arame floreado em perfeita simetria
e holofotes capazes de imitar a luz do dia,
podendo não ir muito além do que é cinzento.

E passam por tudo isto os cidadãos utentes
no vaivém, como cães por vinha vindimada,
farejando o chão e o oxigénio de mão dada,
a quem só faltam palas nos olhos e freio nos dentes.

Vão passando adormecidas por aí as criaturas,
carregando a fé nos sacos do supermercado,
o dia a dia e também o mau bocado,
agora e na hora das nossas acções futuras.

Contas feitas, não há como a saudade
do ronco dos motores das betoneiras,
do brilho dos néones e das floreiras,
e do pechisbeque aramado no centro da cidade. 

terça-feira, 1 de março de 2016

DEUS QUEIRA


Deus escolheu para si o céu,
deixando a sua obra prima
à mercê das trovoadas,
espargida do alto e encharcada de fé.

Deus escolheu para si as nuvens,
para nelas se representar
nos tectos das catedrais
e as duas obras se contemplarem.

Deus escolheu para os seus
os jardins e canapés celestes,
ciente de que não chove nunca
do negrume para cima.

Deus escolheu para si
o lado cerúleo do universo
e apurou em nós a alma
para a expiação parda do pecado.

Deus concede-nos lugar
no condomínio, caso as lágrimas
nos façam sucumbir
e ter direito a uma morte santa.