domingo, 31 de janeiro de 2016

À FLOR DAS HORAS


As horas são como as flores,
têm o tempo contado:
ainda agora eram louvores
e já são tempo passado.

Por cada hora uma flor
de mim
mas corre, por favor,
não tenho grande jardim…

Diz-me que vais depressa,
que não demoras,
não deixes que esmoreça
à flor das horas.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

LUAR


À noite, uma luz. Só um fio
de claridade me deleita:
em simulado convívio,
a lua, lá longe, que me espreita.

Não tenho dúvida: a lua,
que ao longe me persegue
e com o olhar se insinua
não quer que durma ou cegue.

De olho em mim, que não
deixe de a olhar
neste efémero serão
de alvura imanente do luar.

Exagero. É talvez consequência
apenas da minha vontade
ou será de outra ciência,
de outro fim ou verdade?

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

POR UM SORRISO


Sufoco, às vezes, esbracejo
e procuro a luz do dia.
não sei se pelo que não vejo,
se por claustrofobia.

Procuro um lugar sossegado
onde deixe de sentir e ver
(mesmo acordado)
e mal não me veja amanhecer.

Em campânula transparente,
de vidro, que se possa abrir
para respirar  e, suavemente,
poder sorrir.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

PÁTRIA OU LIXO


A pátria é um saco descartável
onde quem quer dela faz lixeira
e o certo é que o cheiro é desagradável,
pútrido, incómodo, intragável.
Então pode definir-se desta maneira:
A pátria é uma renovada estrumeira.

É mais que tempo de limpar
e tornar esta uma pátria asseada!
Conferindo os meios a usar,
(é de excluir a votação, dá azar…)
Aux armes, citoyens! Mão pesada,
o lixo já só sai à vassourada!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

VERSOS DA FELICIDADE DOMÉSTICA


Debaixo da mesma bandeira,
qual arco-íris de luz e cores,
o tempo mantem-se no Continente e na Madeira;
menos uma hora nos Açores.

Se tem cura, que deus o guarde;
se peca, que deus seja complacente.
Mas se deus não releva, quando já é tarde,
não passa  de adjectivo omnipresente.

Meias verdades, mentiras, louvaminhas e cantigas,
aqui, onde é bom de ver,
são virgens todas as raparigas
até deixarem de o ser.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

SER NORMAL


É fantasioso ser normal:
ser assertivo a quaisquer opiniões,
manter a calma no bem e no mal
e cumprir todas as obrigações.

O mesmo é ser casto e santo,
como um altar de linho puro,
aguentar a dor sem queixume ou pranto
e caminhar certeiro em sítio escuro.

Normal: no fundo o que é ser normal
senão sentir o cheiro da peçonha
que nos corrói e mata e, no final,
bebê-la sem parcimónia nem pingo de vergonha.

Essa é a verdadeira conclusão,
porque ser diferente de ser normal
é apenas fruto da imaginação.
De resto, mais vírgula, menos ponto, é tudo igual.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

UM DIA DESTES


Dia sem sol, dia sem sal, dia sem sul;
dia de sombra,
sobra o dia…

À noite:
quem pode da noite
esperar o que quer que seja
se nada tem
a não ser noite dos dois lados.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

CAMINHANTE


Um caminho e uma lua cheia
é esse o meu trilho predileto,
sem descurar almoço e ceia,
uma cama macia e um tecto.

É privilégio, sei disso muito bem,
mas por que hei-de dar conselho,
preferindo manjedoura, em Belém,
e depois me desmentir no evangelho.

Pode ser um sol, que entre a folhagem
espreite, me alumie e reserve
um pouco de alento e aragem:
tanto faz; qualquer um serve.

Quero um trilho e uma lua cheia,
quero-os para mim e meus iguais
que, fartos de más falas e tareia
andamos há tempo de mais!

sábado, 9 de janeiro de 2016

DIAS DE CHUVA



Chove. Chove fora e dentro de mim
a copiosa água. Desforma o dia,
fustiga, tocada a vento e assim
decanta e escorre amarga e fria.

O céu lamenta-se, cinzento,
e espelha a cor da terra que piso:
os charcos, o triste chão, o meu alento
reprimido, quando mais dele preciso.

Tudo é água invernosa que amolece
e nos beirais de abrigo a mesma trova.
Fico aqui parado a ver o que acontece
e a suplicar em vãs lamúrias que não chova.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

ESPERA

Foto de Lucien-Clergue

Água, mais que água
e espuma e espera
e todo tempo do mundo
que enfim se expande.
Na maré, os teus frutos,
água, mais que água.
E no derrame salgado,
no último suspiro, a espuma.
Na perturbação da espera,
água, mais que água
a fluência do esperma,
enfim, em todo o corpo.

Água, mais que água,
o delta que se espraia.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

CORPOS EM ESPERA

Foto de Lucien Clergue

Em síntese, o teu corpo,
o toque macio dos teus frutos
e as ondas e a espuma
e a areia finíssima que invejo.
O teu corpo, em síntese,
os teus lábios saciados,
ciciados no meu peito,
no meu corpo, em síntese.
O teu corpo, em síntese,
a minha febre de viver.
A pele, o cheiro, o fluido
do teu corpo, em síntese,
derramado sobre o meu.

Que é do meu corpo, se é o teu;
que é do teu corpo, se é o meu?

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

(H)ORA VIVA

(foto de Mário Quintas)

Tudo o que vivemos nos mata,
nos transforma, crespa e vence;
toda a vida se ata e se desata,
a par disso, não nos pertence.

Incha o tempo, vai-se o tempo
em horas boas, más, austeras,
mais um ou outro contratempo
e todo o resto são esperas.

Toda a vida tem pressa, voa.
(- Eternidade, onde é que moras?!
- Súplica que às vezes ecoa)
Abranda, que não são horas…

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

AS MINHAS MÃOS


Tenho uma mão que tudo sabe,
destra por natureza e feição
e outra, igual, onde tudo cabe,
do lado do coração.

Mesmo que a ideia desabe,
não perdem nunca a condição:
uma espera que a outra acabe,
seja qual for a função.

E por muito que me gabe,
nunca faltarei à razão,
dizendo que ao que uma não sabe
a outra lhe dá a mão.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O TRAJE


Dentro da lapela há uma tela
e em tê-la se entretém  a vida,
como no mar alto içar a vela
esperar do vento o invento da saída.

De facto, o fato é um afecto
ou o tacto de um braço nu.
Assim o branco é brando no aspecto,
quando brinda em lençol de pano cru.

Por fim o toque do laço
e para que o lenço realce, ao centro
o lance alongado do traço
e a legenda: frágil, leva gente dentro.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A VOLTA DAS ANDORINHAS


Chegaram em força as andorinhas. Vi-as hoje
com estes dois que a terra me há-de comer…
Se são saudades suas ou se o tempo lhes foge,
isso não sei: sei que já se podem ver.

Ver voar em desatino, ora abaixo, ora acima,
no céu que as hospeda, limpo e prazenteiro
e a todos faz esquecer as variações do clima;
acreditar no encalmado verão já em janeiro.

Nem quis admitir mas eram de facto
reais as andorinhas, (brancas por baixo; pretas em cima)
e nada de fantasias, de artesanato:
rai’s partam o tempo, rai’s partam as alterações do clima!