quarta-feira, 24 de março de 2010

VERSOS COM SENTIDOS (7)


naves fora
neves fora
noves fora nada
nu

terça-feira, 23 de março de 2010

VERSOS COM SENTIDOS (6)


moinho de vento
semente moendo
moleiro devendo
do pão o fermento

segunda-feira, 22 de março de 2010

VERSOS COM SENTIDOS (5)


cordas
cordatas
cordiais
secam a roupa
nos estendais

domingo, 21 de março de 2010

VERSOS COM SENTIDOS (4)


cavou à polícia
sub-repticiamente
preso
com as unhas sujas
não é decente

sábado, 20 de março de 2010

VERSOS COM SENTIDOS (3)


se matemática
mente
acertada
a conta está errada

sexta-feira, 19 de março de 2010

VERSOS COM SENTIDOS (2)


a alface cresceu
viçosa transgênica
verde - lismo
pena o mau hálito

quinta-feira, 18 de março de 2010

VERSOS COM SENTIDOS


a rolha roeu
o rato
o rato tinha bicho
e morreu

quarta-feira, 17 de março de 2010

DA LUA


Só hoje reparei como é branca a Lua
e é mais branca ainda
porque a partir de agora
pensarei sempre que a Lua é branca

mas não lhe vi halos
nem lágrimas radioactivas
sobre as hastes e varandas oficiais

a Lua é branca apenas
enormemente branca

e isso basta-me

segunda-feira, 15 de março de 2010

DA VIDA


Não tenho pressa
não sou de pressas
ainda que o julgues
ou isso te pareça essencial

deixo a tarde adormecer num beijo
quero da noite apenas a cintura

eis o meu recado: não tenho pressa
e ao dizer-to fico
com uma pressa enorme que amanheça

sexta-feira, 12 de março de 2010

DO JOGO II


Meio por meio meado sempre a meio
meio de vida pode lá ser meio ordenado
volta e meia à meia volta me chateio
e depois não querem que seja malcriado

jogo nº. 1 xis coluna do meio

quinta-feira, 11 de março de 2010

DO JOGO


1.
Comeram o meu coração de carne

2.
que sorte ter guardado
o ás de copas

terça-feira, 9 de março de 2010

DEPOIMENTO


A sombra que não faço e faz em mim
que a treva em volta inste e permaneça,
é a prova de que existo mesmo assim
e, por fora, o que quiserem que pareça.

Dentro, só me tenho a ver comigo:
sou o que entendo e quando quero.
Não importa como faço ou como digo;
basto-me apenas com o ser sincero.

sexta-feira, 5 de março de 2010

MEIA-VERDADE


Arrogante manhã de sol, que queres de mim?
Acaso a minha sombra te aperreia ou atenua;
te apaga ou apoquenta? - Não estou a fim:
dá-me mais bem-estar a noite e escolho a lua.

Porém, mentia se negasse que não invejo
os pérfidos lampejos das tuas asas matinais.
Mas só no canto da penumbra é que me vejo;
somente aí são verdadeiros os meus ais.

quarta-feira, 3 de março de 2010

ALMA SOALHEIRA


Soalheiros de alma são estes dias frios!
Coração em banho-maria, que mais quero?
O cachecol de lã acautela os arrepios
e o sangue faz o resto, é o que espero.

Um fio esparso de sol vara a janela
e aquieta-se nas cinzas dos meus joelhos.
E que perfeita fica esta aguarela:
além do colo, a fronte em tons vermelhos.

Ardo na cor e nas sombras mescladas
enquanto oiço, lá fora, do vento os assobios
e o relento que consome as madrugadas.
Soalheiros de alma são estes dias frios!

segunda-feira, 1 de março de 2010

DESÍGNIO


Que ando eu fazendo na escarpa além,
se não é o desejo mórbido ou suicida?
Que incontrolado é esse desdém
de brincar assim com a própria vida?

Tudo e nada. É apenas a memória
de vencer em mim o que há de tíbio
e ganhar na morte, o que é vã glória,
lisonjeiro epitáfio no mármore frio.