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sexta-feira, 24 de maio de 2019

EXISTÊNCIA SEM PROVAS


Não há provas científicas sobre a minha existência
e no entanto tenho sobrevivido com base
num velho documento, autenticado, de seu nome
Cédula Pessoal. Um milagre tê-la guardado até hoje.

Faço pontualmente as minhas festas de aniversário
mas quase ninguém se importa com isso. Eu mesmo
lhes dou cada vez menos importância e até me custa
este ciclo ao mesmo tempo involuntário e indeclinável.

Tudo se passa numa espécie de clandestinidade,
onde o dia é dia e a noite é noite para quem passa
e para mim um entardecer persistente e sem provas.
Nota: não precisam de rezar para eu aparecer…

terça-feira, 14 de maio de 2019

PENSAR O QUE NÃO LEMBRO


Não me lembro de nada, sequer como aqui cheguei,
se é que cheguei, como aparentemente o pressinto.
Não me lembro de coisa alguma, a não ser o facto
de me lembrar que realmente não me lembro de nada.

A par de tudo isto, e tudo isto é um vazio repleto
de tudo o que é esquecimento, que por isso é vazio,
há ainda a perturbação pelo que pode agora não lembrar
e lembrar depois, quando já não lembrar ao diabo.

Na verdade, o que mais quero é não me lembrar de nada;
incluindo o nada que agora lembro que não me lembro

sábado, 4 de maio de 2019

BURACO DO TEMPO




Um buraco à volta do tempo,
uma volta ao tempo do buraco,
um tempo com um buraco à volta
contemplo, com tempo, com templário
num buraco algures de volta.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

AS PEDRAS E AS FLORES


Deram-me há pouco uns seixos matizados, na verdade
com pequenos veios onde outros seixos viveram,
para que fizesse um poema, todo em pedra,
sem qualquer aresta capaz de magoar as mãos do tempo.

Impossível, disse. Recusei amavelmente o desafio:
a poesia não faz milagres, apenas junta as pedras polidas
ou rugosas e atira-as à indiferença, aos lugares muralhados,    
se magoarem, se as mãos do tempo sangrarem, tanto melhor.

Ofereçam-me flores vermelhas; cravos ou papoilas, tanto faz,
e não precisam pedir que as ame, porque é o que farei;
é o que sempre fiz, porque dão cheiro e cor à poesia,
enquanto eu resistir com uma pedra à mão, de pedra e cal.

domingo, 21 de abril de 2019

ABRIL DE NOVO


Aos olhos de um homem são
vem Abril e subsiste o dilema:
se é o travo amargo da desilusão
ou o cravo que ponho no poema.

Persista a constância de lutar
e a flor que for terá a cor precisa
de um cravo vermelho a ondular
na mão mais limpa e mais concisa.

A seu lado um filho pela mão,
que é tudo quanto ao futuro doa,
um filho, que é fruto do coração,

e que aos poucos cuida e afeiçoa
como semente de nova floração,
esse, que é o cravo puro em pessoa.

domingo, 7 de abril de 2019

NESTA ILHA DE CRETA


Ao princípio tive um mal-asado voo, mas desejei
ter um par de asas que me criasse a fantasia de voar.
Fingi tê-las e fingi também voar, imaginando-as apenas…
Nesse tempo, ninguém reparava o quanto eu fingia.

Agora voo com maior agilidade, ganas de avião de papel,
quando vierem as asas já não serão necessárias,
dir-lhes-ei, lá bem do alto dos céus, que não vale a pena,
que houve mudança de planos. Cortavam-mas, se as tivesse. 

quarta-feira, 3 de abril de 2019

À LUZ DOS OLHOS


Às vezes pressinto que posso ver-te, e tudo não passa
de uma ilusão de néons e raios de sol imaginários…
Pequenas luzes intermitentes, o cio dos vaga-lumes,
e em redor a noite calma, silenciosa e escura.

Além, um farol em movimento constante…
Permanece a treva, o manto de nevoeiro, agora tão negro
como a noite à sua volta. Mais nenhuma luz,
céu e terra conspiram para que nada exista em redor,

a não ser aquele ponto reluzente, ao longe,
que finjo acreditar ser a Estrela do Norte,
e se o for de nada me serve a ousadia do seu brilho,
de nada me serve a oferta a anos luz de mim.

Quando a luz vier haverá um manto de negrume
para a receber de braços abertos. A claridade possível.
Então saberei de onde vem, que abertas a permitem
e a falta que me fazem os teus olhos olhando os meus.

quarta-feira, 13 de março de 2019

O PÃO


Ah, sim, o pão é capaz de feitos, que os homens
invejam e usam para alimentar todas as fomes.
Pelo pão se luta, vive e morre; pelo pão se mata
e trai; se enriquece e se mendiga magra côdea.

Porém, vê-lo na seara, baloiçando com a aragem,
o pão sossega, dorme como as águas de um lago
e aguarda o seu tempo de ser o maioral da planície,
dono e senhor da fome e da fartura, inexoráveis.

O pão é segado ao Sol impiedoso e nasce do vigor
de mil braços exaustos, que dele terão notícia,
(se um dia houver notícias deste pão…)
ou dele mais não restar que os dias a pão e água.

segunda-feira, 11 de março de 2019

LUPANAR


Venho para dormir. Desculpa, tenho sono.
Antes o teu perfume barato, de dissecadas violetas;
o teu hálito de álcool e tabaco, que apesta todo o quarto;
o teu sorriso de dez euros a cada meia hora;
enfim, o teu corpo nu deambulando no escuro…
Venho para dormir. Desculpa, tenho sono.
O ar está irrespirável do lado de lá da janela,
sufoco e não consigo adormecer um só segundo.
Tenho o corpo dorido como imagino o teu,
a cabeça vazia ou demasiado cheia de coisa alguma,
que faz de mim um marginal, um autómato tão frio
como estão agora os teus pés descalços.
Venho para dormir. Desculpa, tenho sono.
Abraça-me e dorme, podes beijar-me os ombros,
não os sinto por tudo o que têm carregado e só eu,
não eles, sou capaz de expressar.
Não recordo se é noite ainda ou se o Sol nasceu de novo,
mas não importa, venho para dormir
e prefiro não pensar nisso. Tenho sono, muito sono.

Agora sim, há mais espaço livre nos meus pulmões,
tudo me parece asseado, tranquilo, tu mesma a encarnação
da castidade como no melhor dos sonhos.
Mas como antes te disse, venho para dormir, apenas.
Empresta-me os teus gritos de silêncio e não me acordes,
pelo menos até sentires que sorrio como fazem os loucos.

sexta-feira, 8 de março de 2019

AMARGURADA CHUVA


Para vos dizer a verdade, apenas encontro beleza
na chuva quando escorre, ziguezagueando,
nas vidraças das janelas; quando aceito a falta que faz,
não é mais que um exercício de descarada retórica.

Ontem choveu e eu estava avisado. Os meteorologistas
não se enganaram desta vez. Chovia na clarabóia
das escadas, parecia ela que transpirava ou chorava
minúsculas lágrimas por mim, pelas minhas mentiras…

As gotas vinham correndo vidro abaixo e eu segui-as
até se desfazerem contra os caixilhos. Suicidaram-se
e voltaram a ser a mesma água de que são feitos os rios,
onde deixo os meus olhos voluntariamente naufragar.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

RECOMEÇO


Não guardei azedas nem bugalhas. Ficaram
onde as colhi. Trouxe os rios, os dias de sol,
uma ou outra nuvem prestes a debandar
e o canto de um melro escondido numa laranjeira.

Para minha surpresa, não eram já os velhos calções
que trazia vestidos, mas as calças de inverno,
feitas de outras usadas pelo meu pai durante anos,
com os bolsos ainda cheios de cordéis e de sonhos.

Dei pouca importância à invernia, à chuva.
Talvez por isso, não lamento o que posso colher
de novo e sem pressa de fugir aos cães da horta.
Esperarei pelo sol e depois volto a ser criança.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

AS LEIS


As leis são uma estranha liberdade que me prende.
A todas revogo e levo à frente o meu caminho:
as que fazem de mim prisão e as que me amarram
e deixam inúteis e cativos todos os sentidos. 

Não há leis que me façam sonhar e eu lamento-o!
Bocejo nas entrelinhas e tomba-me a cabeça
nos subentendidos e vazios que elas têm.
Se não me tiram o sono, sonhar não fazem.

As minhas leis são papeis em branco,
que vou escrevendo e rasurando com o tempo.
Normas, prescrições e outros mandamentos
deixo para quando já não tiver de os cumprir.

As leis envelhecem-me, tornam-me rabugento;
cumprem-se para estas maldades legais…
Quando me querem agradar, esperneiam, mimam,
se não me fazem rir, sorrir não fazem. 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

APONTAMENTOS SOBRE AS CASAS


Queremos às casas o mesmo que aos cachecóis,
aos casacos que nos agasalham ou refrescam, mais nada.
Não é amor o que sentimos pelas casas.
Usamo-las, sentimo-nos únicos dentro delas e é tudo.

Dentro de casa somos o que não formos capazes
de ser fora dela. Lá nos refugiamos e lá guardamos tudo:
razões de sobra, memórias avulsas e ninharias
às quais só mesmo nós lhes encontramos algum valor.

É impossível não pensar que há gente sem uma casa,
que vive na rua e não tem segredos para guardar,
aconchego para cobrir a miséria dentro de portas
e chama casa ao lugar onde acontece estar vivo.

As casas são eternas entre si, não para nós,
que as deixamos, as desprezamos sempre com amor,
porque as vestimos e despimos, porque são a pele
do nosso corpo respirando em carne viva.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

DETALHE

     Eleonore Koch


Às vezes um salto brusco, um sobressalto
daqueles que guardamos em gavetas abarrotadas
com papeis, cumpre a sua missão de catarse:
-Eu sabia que um dia te encontrava – suspiramos.

Um papel escrito. Um pedaço de papel sem valor
aparente, a que só nós damos toda a importância,
e mais ninguém arriscaria uma molécula de interesse.
É nesse instante que nos tornamos únicos.

Levamos estes sinais sem dar por eles.
São subtis, não estão ao alcance dos outros
nem de nós, salvo naquele momento preciso,
de sobressalto, em que connosco nos encontramos

algures, num rascunho perdido ao fundo da gaveta,
onde sempre estivemos a sós e em silêncio,
sem dar conta que algo ainda havia para acrescentar
ao que somos, mas que mais ninguém irá dar por isso. 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

OS RETRATOS


A memória tem um lugar próprio para os retratos:
os de família, os de viagens e os nossos, em criança.
A verdade é que os retoca, troca de lugar
e, mesmo os a preto e branco, dá-lhes brilho e cor.

Tenho assim um álbum de recordações,
nem todas reveladas. Muitas, em película,
têm as cores trocadas e sou eu agora que as invento,
ao desafio com a memória, dando cor ao meu passado.

Mas o passado foi muito mais do que retratos,
foram anos de memória ausente, e tão velozes passaram,
que hoje se parecem com as desbotadas cartolinas
à la minute, em pose e vestes que já não reconheço.

Deixemos então os retratos nos lugares onde estão,
mesmo sabendo que são únicos e que nunca poderemos
pedir cópias daqueles em que ficamos bem,
só para repetir as qualidades que duvidamos ter.

sábado, 26 de janeiro de 2019

VERSOS PERDIDOS


Tenho pena dos versos que encontro, perdidos
na memória dos arrabaldes despovoados
e do cheiro a mofo e a caliça, que persiste,
que resiste ao tempo e à voragem das casas.

É estranho que não se tenham dissolvido
na chuva dos invernos passados; rasgado,
como as folhas caducas das árvores no Outono;
desbotado ao sol, como a roupa estendida nas janelas.

Comovo-me ao vê-los dispersos e sem sentido,
mas quase todos me acenam e dão a salvação…
Já não os sei de cor nem reconheço pelas rimas.
Afinal, não estão perdidos: eu é que tenho envelhecido.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

PALAFITA, PELA VIDA


É sobre paus, sobre pedras que fosse
a cama onde me deito e sonho e durmo
e volto a sonhar acordado. Onde não há meio-dia,
senão o dia inteiro e algum peixe.

O desconforto das águas é a minha vida!
Chapinho com os pés, que balançam na estacada
e murmuro uma canção aprendida em criança,
o céu tem o encanto mas não o pão de cada dia.

Range a palafita, como os meus ossos,
como tudo à minha volta, excepto o sonho,
que balança sobre a ondulação constante,
vai e vem, vai e vem, e me conta os seus segredos.

Aqui morre tudo o que é brando e o que afaga,
não se extrema a vida porque decorre igual todos os dias,
nem se condensa em palavras prontas a servir:
aqui baloiçam as ondas enquanto a vida dorme.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

LÁSTIMA


Sou o piloto das minhas salgadas lágrimas
com experiência em muitas horas de voo…
Na verdade, sou um pacífico camicase,
que com elas me despenho e mortifico.

Se houvesse um deus visível, a quem
pudesse, cara a cara, contar como me violenta
este suicídio líquido, haveria de o comover
e por certo convencer da sua imperfeição.

Ressentido, logo me falaria das unções,
que os deuses guardam como mezinhas,
para me secar o pranto. Mas é escusado:
nenhum deus dá a cara por uma gota de água.

Tudo junto – deuses e lágrimas – é-me igual:
não os convenço a eles da imperfeição original,
nem eles a mim de milagrosa cura,
se for cura secar de vez, sem uma lágrima de sede.



segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

PRECLARA DÚVIDA


Um prolapso do sol
um pedaço de sal
uma côdea de pão mole
um percalço ocidental

um passo de caracol
menos mal menos mal
um peixe no anzol
quanto é que isto vale?

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

VERDADE POÉTICA


O poema foi uma semente e fez-se árvore;
deu frutos, sombra e cachos de versos…
Saboreio-os agora, sumarentos.
É impossível mentir sobre tudo isto.
Então, uma folha solta-se de um ramo
e em queda, oscilante, vai com o vento
poisar onde os últimos versos ainda dormem.