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segunda-feira, 18 de abril de 2016

O TELHADO


Anda por aqui um melro, digo, um casal de melros.
Poisa no meu telhado, dá-me os bons dias
e imitamo-nos à vez durante o tempo que ele me dá
para a zombaria. Eu não quero mais que isso:
vivemos em mundos diferentes.
Temo-nos por companhia no condomínio do telhado.
Em comum resta-nos a inquietação e um par de asas.

sábado, 16 de abril de 2016

A VARANDA


Na varanda, onde à tardinha ponho a mesa
para comer fora, o mundo ganha as cores que eu quiser.
Às vezes, a vizinhança ignora-me ou finge
que não vê a ostentação exibida nas latas de conservas,
outras cumprimenta-me efectuosamente,
como se há anos não me enxergasse o rasto.
Pura ilusão: tentam ler os rótulos das embalagens;
querem saber mais do que lhes quero mostrar.
É nessas alturas que lhes atiro cá do meu sítio:
- são servidos? Mostram-me a palma da mão
e recolhem-se, pensando sabe-se lá o quê sobre mim.
Pelo contrário, visto da rua, querem lá saber
se como ou me divirto a ver quem passa.
Não é o mundo que me vê;
sou eu que vejo o que o mundo vê em mim. 

quinta-feira, 14 de abril de 2016

A CASA


A minha casa é feita de portas e janelas
para a rua.
As portas e as janelas são as asas da minha casa.
É por elas que me escapo para depois ter saudades
e voltar a escapar-me outra vez.
Quando estou ausente só penso nela por dentro.
Os meus vizinhos cravam os cotovelos nos peitoris
e sentam-se à soleira das portas horas esquecidas
e eu acho que eles se prendem voluntariamente
e se amarram ao mundo, contemplativos.
Tentei imitá-los uma vez mas deixei-me escapar de novo.

terça-feira, 12 de abril de 2016

O QUINTAL


Gostava que a minha casa tivesse um quintal
e se fosse um terçal ou um quartal, já me contentava.
Mas a minha casa tem apenas portas e janelas
para os quintais daqueles que os têm
ou que os deixam estar ali quietos
e nem querem saber da felicidade que é ter um quintal.
Se eu tivesse um quintal mudaria para lá a casa
e passaria a olhar para a casa como um verdadeiro quintal:
talvez assim sossegasse esta ansiedade
e olhasse a casa como coisa que gostasse de ter,
deixando de me sentir amputado dum quintal,
que não saberia cuidar nem para que serviria o musgo
das pedras em cima da minha cama.