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terça-feira, 1 de março de 2016

DEUS QUEIRA


Deus escolheu para si o céu,
deixando a sua obra prima
à mercê das trovoadas,
espargida do alto e encharcada de fé.

Deus escolheu para si as nuvens,
para nelas se representar
nos tectos das catedrais
e as duas obras se contemplarem.

Deus escolheu para os seus
os jardins e canapés celestes,
ciente de que não chove nunca
do negrume para cima.

Deus escolheu para si
o lado cerúleo do universo
e apurou em nós a alma
para a expiação parda do pecado.

Deus concede-nos lugar
no condomínio, caso as lágrimas
nos façam sucumbir
e ter direito a uma morte santa.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O PIOR QUE PODE ACONTECER

O pior que pode acontecer é a ponte não aguentar o peso;
a pedra não suportar a outra pedra; a água congelar
de medo e frio; o sol morrer de tédio…
O pior que pode acontecer é o melhor parecer pior ou, pior,
os teus olhos já não distinguirem o fogo no fumo.
O pior que pode acontecer é esta anáfora crescer como os frutos
e rebentar como as bolas de sabão.
Pode ser melhor o pior de antes ou ser mau o melhor que temos.
Como podes saber o pior se outro ainda pior estiver para vir?
Onde é que tens estado? Que bem te faz às feridas o mal que sentes?
Muito pior será se as tuas mãos já não se conhecerem
e se alvoroçarem por socorro, uma após a outra,
sem água, sem barco, nem sitio algum para o naufrágio.
Tens a certeza?
Isso é que é pior!

quarta-feira, 25 de maio de 2011

DEUS QUEIRA

Deus escolheu para si o céu,
deixando a sua obra prima
à mercê das trovoadas,
espargida do alto e encharcada de fé.


Deus escolheu para si as nuvens,
para nelas se representar
nos tectos das catedrais
e as duas obras se contemplarem.


Deus escolheu para os seus
os jardins e canapés celestes,
ciente de que não chove nunca
do negrume para cima.


Deus escolheu para si
o lado cerúleo do universo
e apurou em nós a alma
para a expiação parda do pecado.


Deus concede-nos lugar
no condomínio, caso as lágrimas
nos façam sucumbir
e ter direito a uma morte santa.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

POEMA MAIS SERÔDIO DO QUE SERIA DE ESPERAR

Fui herói encomendado
para defender a nação:
fizeram de mim soldado
deram-me água e sabão,
uma pistola carregada
para matar o inimigo,
que diziam estar escondido
e ter a mão pesada
para quem fosse cobarde
e lhe virasse as costas:
(- ala, que se faz tarde,
não arme um par de botas!)
Para safar a cabeça
foi preciso usar o corpo
e se já me livrei dessa
foi por pouco, muito pouco.
O bunker deu-me um jeitão:
oculto na catacumba
não fiz lá falta nenhuma
e passei por bom cristão.
E agora, sair daqui,
desta metáfora apertada
da guerra onde me meti?
O melhor é não fazer nada.
Foi aí, inesperadamente,
que apareceu o peclise
com ares de inteligente
p’ra me salvar da crise.
Disse então a eminência,
que, milimetricamente,
é preciso ter paciência
para que nada aconteça
e não cair de borco:
onde couber a cabeça,
cabe o resto do corpo.