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terça-feira, 24 de novembro de 2015

A CHEIA


Não tinham margens os rios
que te falei:
eram itinerários devassados,
escassos juncos de enfeite
e um mar imenso a que chamavam foz.

Os rios não tinham margens, já o disse,
- ou que assim possa definir-se –
era tudo água de improviso
o estuário em que quase morri de sede.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

DIÁLOGOS CANINOS



CÃO POLÍCIA :

 -Travesti – de gatas
tem tal perícia
em quatro patas
o cão polícia
    .
CÃO LADRÃO:                           

Béu – béu  disse o cachorro,
se não digo morro.
- Ão, ão  refilou, adulto, o cão,
somente eu ladro ão.

   
CÃO CÃO :                                                      

Vida de cão
é um caixote de lixo;
não é luxo, não,
coitado do bicho.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

ÁFRICA AFRICANA


Em Maio de 1975, Almeida Santos, Ministro português da Coordenação Interterritorial
afirmou ao pisar terra cabo-verdiana: “aqui respira-se Portugal”. Escrevi este poema em 10/6/1975


O Corvo poisou no barro seco
e a terra sorriu rasgada e funda.
É África africana, lábio grávido do oceano.

Meu país é longe
como a estrela do norte…

As árvores vergam-se, beijam o chão,
deixaram de suportar o vento
e o mar não pode valer a esta seca.

África tem sol no peito,
tem coração de boi: é forte
e o sangue corre nos braços lânguidos dos seu filhos.

A brisa fresca ao fim da tarde
é licor que adormece esta África
enorme e africana
e eu digo baixinho:
meu país é longe
como a estrela do norte…

Praia, 10/6/1975

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

LENGALENGA



Era uma vez uma lengalenga que dizia:
…os cavalos a correr,
as meninas a aprender,
qual será a mais bonita que se vai esconder…

Andava por aqui escondida.
Passados tantos esconderijos e sonhos,
encontrei-a!

domingo, 22 de abril de 2012

A CHEIA

Não tinham margens os rios
que te falei:
eram itinerários devassados,
escassos juncos de enfeite
e um mar imenso a que chamavam foz.

Os rios não tinham margens, já o disse,
- ou que assim possa definir-se –
era tudo água de improviso o estuário
em que quase morri de sede.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

POSSIBILIDADE DE AGUACEIROS


Tudo fora previsto
ao mínimo pormenor,
de modo que à representação nada faltasse:
um fio de azeite,
a lágrima refulgente dum estorninho,
a franja duma alma sem proveito
e um arco iris enorme, cercando a cidade
sobrevivente.

domingo, 9 de outubro de 2011

POR UM SÓ MOMENTO


Por um só momento quero ser
o odor moribundo da cera lentamente
derretida
e em plena procissão vestir
a pele dum deus vermelho e alquimista
que, sobre a finura da custódia,
solene, para que me sintas mágico;
mágico, para que me sintas o hálito em chama,
te iluda o cântico
e, enfim, possas caminhar de pé.
Por um só momento quero duplicar-te
frente a frente,
para que chores a tua alma
subaproveitada.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

OS DIAS DESCONTADOS


… eu vos digo que antes passariam o céu e a terra do que passaria uma só letra menor ou uma partícula duma latra da Lei sem que tudo se cumprisse.
 Mateus




Inesperadamente, a marca
indelével do destino
soou como um badalo
chocalhando-me o cérebro.


Nota oficiosa
-aos cidadãos atentos


O próprio locutor, notou-se,
Compreendeu:
A catástrofe é iminente e universal.


A crise
o petróleo
o dólar
a crista de altas pressões
e, se necessário, o estado de sítio.


Só por milagre será evitado
O agravamento dos preços ao consumidor.


Para evitar mal entendidos, a
a ordem pública,
a ordem pudica,
a ordem pura
e demais ordens de serviço
serão mantidas.




Deus dará.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

CORPO DE POEMA


Dá de ti
o corpo desnu
dado
sem amor
dacar
o grito
nem amor
tecer
o golpe
de rins


dá de ti
o corpo
salivado
amor
i
bunda
pomba
líquida
um e outro
lado


dá de ti
o corpo
amor
fina
derme
do teu ventre
sem suar
sensual
mente.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

UTOPIA

Joan Miró, Estéticas, Sonhos e Utopias

Finalmente posso voar


preciso só abrir os braços
como num reencontro de amigos
e de breve impulsão do vento


as asas virão depois