Mostrar mensagens com a etiqueta João Corvo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta João Corvo. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 13 de novembro de 2018

OS PRIMEIROS DESAFIOS



Quando brincávamos na rua e o Sol se rendia,
submisso, aos nossos pés,
não subtraiamos; apenas somávamos e multiplicávamos,
dividíamos tudo: repartíamos, como então nos era modo de ser.
Jogávamos contra e a favor dos nossos, partilhávamos a bola
como coisa íntima e colectiva. Não havia adversários:
todos eram companheiros no jogo, nas mazelas e em tudo mais,
excepto nos golos, que eram de cada um…
Naquele tempo não subtraíamos, nem tal nos ocorria.
O tempo era de somar, de multiplicar para os mais ansiosos…

Não se pensava nas classes que haveriam de surgir
entre nós com o passar dos anos: os que teriam meios
e os que haveriam de sujeitar-se, vendendo a sua força de trabalho.
Julgávamo-nos como iguais e assim fomos sendo
até nos perdermos de vista, que é jeito particular de crescer
e nos encontrarmos num mundo dividido, que não era então
da nossas contas, porque apenas somávamos e multiplicávamos,
dividíamos tudo,  éramos incapazes de subtrair o que quer que fosse
à alegria de ali estarmos e partilhar o nosso mundo.

As corridas sem freio e os remates longe da baliza
eram só intenções, só isso, nada de ultrapassar quem quer que fosse
e, no entanto, ganhávamos e perdíamos (às vezes empatávamos…)
com o mesmo entusiasmo e com os mesmos abraços
de vencidos e vencedores de um jogo que não era mais que um jogo,
mais que um tempo em que todos nos juntávamos
e nos comprazia estarmos, naquele tempo em que não subtraíamos;
apenas somávamos e multiplicávamos e dividíamos tudo,
tal como o desejo de sermos homens e ter futuro.

domingo, 11 de novembro de 2018

O PRINCÍPIO DO MUNDO


Se o mundo teve um início, como eu espero,
imagino que irrompeu da treva
ao som de uma música, também primordial,
onde predominavam os címbalos, os fagotes
e os tambores, de enormes proporções,
ainda em embrião. O resultado terá sido estrondoso,
por não existir pauta ou director de orquestra.
O mundo terá saído desse caos musical,
que o impediu de nascer perfeito e harmonioso.
Deuses houve, mais tarde, a reclamar para si
a autoria de tamanha obra,
sem saberem uma única nota musical.

Os primeiros acordes, estou certo, eram gritos
da terra nua, rompendo águas e negrumes:
o mundo chorou ao nascer, não seria de outro modo.
Serenou depois. Deixou-se cobrir de nuvens
e o seu corpo tornou-se num imenso colo de água.
Por esta altura surgiram violinos e violoncelos
a imitar ventos e medonhas tempestades.
E de novo se intrometeram os deuses, com os querubins,
soprando flautas, dedilhando harpas, suspensos.
Apesar de tudo, imagino que o mundo
só podia ter nascido ao som de música,
porque ninguém lhe sobrevive
e nada pode existir na sua ausência.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

LÁGRIMAS DE SOL


Não se faz de água e sal a minha vontade;
faz-se do sol que todas as manhãs rompe,
aflito, na ânsia de ser dia em terra firme.

E não se faz de mitos, de assombros:
se não dá fruto a semente é porque o sol
se atrasa de tanto romper a treva.

Mas há uma excepção de água e sal
na minha vida: essa não é potável
e invade-me na tristeza: eu também choro.

domingo, 9 de setembro de 2018

O SOM DA CONCHA


Uma concha, uma pequena concha,
uma conchinha com a capacidade
de um dedal de água – e sal –
contém um poema imaginado
por um marinheiro errante.
Não se pode pedir mais
a quem guarda todo o mar dentro de si.

Uma concha, só uma pequena concha,
que leva dentro todo o mar.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

A MEDALHA


Um dia, com os sonhos ainda povoados de fantasia,
competimos e os adultos atribuem-nos uma medalha.
É o nosso primeiro ouro. Guardamo-la carinhosamente
num local seguro e que ao mesmo tempo permita
nunca a perder de vista, para a exibir
sempre que possível e contar a façanha da sua conquista.
Mais tarde saberemos que aquela medalha
não correspondeu à conquista de qualquer pódio,
mas da simples participação no convívio escolar.
Sentimos a primeira frustração da nossa vida,
a primeira que sabemos ter força para superar,
embora doa bastante, como as que virão depois.
Destas, não o saberemos ainda, terão o seu tempo.
Mesmo assim, mantemo-la guardada numa gaveta,
junta a tantas inutilidades que fomos acumulando.
Não nos ocorreu, então como hoje, desesperadamente,
procurarmos a primeira medalha da nossa vida,
o sonho que nela empenhamos, o desencanto depois…
Onde teremos guardado aquela medalha de pechisbeque,
para a admirarmos e voltarmos a ser crianças?! 

sábado, 21 de julho de 2018

LÁ VAI DE NOVO O SOL




Lá vai de novo o sol, gordo e enfastiado,
para outro lugar onde for sul
e por sua causa um novo dia.
Finge mergulhar para quem não lhe conhece
os hábitos de romeiro de fé incandescente.
Anda nisto há anos, mentido a quem, da verdade,
se alimenta desta mentira encantadora.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

PÁSSAROS DA MINHA RUA




Andei por aí a ver os pássaros:
andorinhas, pardais, alvéolas, melros e estorninhos,
todos velhos amigos.
Aparentemente nada entendem de alterações climáticas
e mantêm os seus hábitos, os seus ritmos diários.
Eu é que acrescento ao momento da vida
essa preocupação, que me entorpece as asas
e me impede de cantar como eles, se é que os pássaros cantam.
Aparte estes humanos cuidados,
não há como um ninho de andorinha, um salto de pardal,
uma corrida de alvéola, a matreirice do melro
ou uma nuvem ondulante de estorninhos.
Alegra-me saber que os pássaros ainda me receiam;
assim o mundo voe ao nosso lado.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

TEMPO PERDIDO


No meu relógio as horas não voam
como na literatura; consomem
o tempo, a compasso, seguem o sol.
Vagabundas e sem horário,
Irrepetíveis como os caminhos do vento.
Se as uso em longas cavalgadas,
também as ignoro, também as maldigo:
as minhas horas abrem as pétalas das flores,
que em segundos as perdem depois.
As minhas horas só me fazem perder tempo.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

RADÍCULA



Semeamos porque não servimos de semente;
quando enterrados não há nada mais a esperar
e o fruto não nasce com orações.

terça-feira, 24 de abril de 2018

VICISSITUDES DE UM HETERÓNIMO

    Joan Miró, gravura

Haveriam de passar anos, até que um dia,
hoje mesmo, desisti de procurar Bernardo Soares.
Explicaram-me há pouco as razões deste mistério:
ambos nascemos do nada, do cérebro povoado
de alguém que, em desassossego, nos deu carta de alforria
e nos abandonou. Nada mais que isso.
Não se trata de uma reclamação e muito menos
de um lamento de órfão em letra de forma.
Afinal tem muitas vantagens esta relação fria com o tempo:
as plantas crescem e os frutos vão amadurecendo
à vez, como podem e como tem de acontecer,
sem se importarem que todos os ontens tenham existido.
O mais relevante é que a natureza não dê conta
que andamos a abrir regos onde não passa  água nenhuma,
seque e hoje nunca mais chegue a ser dia.


terça-feira, 13 de março de 2018

ONDE A TERRA?


Onde nos leva o mar, onde nos deixa?
Eu quero o mar com pássaros, com árvores
e com cheiro a maresia sobre as pétalas.

Quero um mar de flores, barcos de árvores;
ilhas  de sossego e sem cidades;
quero as coisas livres, inacabadas, naturais.

E, se assim não for, se o não quiser,
que seja terra, água da ribeira, musgo ou beijos
de sol na eira debutando em cada safra.

Por fim, se mais não sobrar, não sobreviver,
quero trajar-me de nuvens e de água, porque quero ir
bem vestido quando já não fizer qualquer sentido.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

RAIZ


Não, não foi para alimento
que a semente deu a árvore, a árvore a flor
e a flor o fruto.
Tampouco para serem vistos ou tocados,
não foi para isso
que vieram em nosso socorro,
âncora dos nossos desvarios:
são de outra raiz…
Se aprendemos a consumir os frutos,
cheirar as flores e cortar as árvores
à sombra da sua imutável quietude
é porque não estamos à sua altura.   

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

PEDRA-DE-TOQUE


As pedras têm rondado os meus versos
com a frequência dos meteoritos.
Creio que o fazem por imitação das palavras.
Como elas precisam de um intérprete
ou correm o risco de calarem para sempre
a sua razão de existirem.
Serpenteiam os poemas, inflamam os versos
e abrem-se, por fim, para quem quiser espreitar
a sua alma de infinita delicadeza,
de proverbial eficácia.
Têm vida própria e jamais as convenço
sobre funções ou itinerários.
Permito-lhes uma existência natural,
a mesma que me é dada a mim,
enquanto não precisar de arremessá-las
contra os muros levantados pela indiferença.  

domingo, 28 de janeiro de 2018

EQUAÇÃO


Em prudente equilíbrio, que vai-não-vai,
vai indo, vai indo…
Em permanente equilíbrio
entre todas as coisas e coisa alguma;
entre o que nunca chega e o que já basta.
Em periclitante equilíbrio:
morto pelo início, vivendo para chegar ao fim.
E no fim são as contas, as contas à vida
em vésperas de concluir a equação.

sábado, 20 de janeiro de 2018

PARADOXO



Vejo todos os clarões da minha cegueira
e o silêncio teima em ensurdecer-me:
as certezas são as minhas maiores dúvidas.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

UM DEUS ACHADO



Tenho finalmente um deus em quem posso confiar.
Não é desses que tropeçam connosco
ao dobrar de uma esquina
e tampouco dos que nascem embutidos na pele
e deles nos dão garantia eterna.
Casos há em que nos asseguram a genuinidade
registada na ourela em auxílio da fé.
Tenho um deus definitivamente bom,
que não me descobre pecados de maior
e até se parece comigo.
É assertivo, conversamos sobre todos os assuntos
e dividimos razões e caminhos a seguir.
Tem apenas um senão:
é invisível e tão irreal como todos os outros.    

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

TEMPO DE VIDA


Pensar na morte é só pensar na morte.
Uma pedra gasta na calçada,
uma folha derrubada pelo vento,
um ninho abandonado
e até o sol cinzento e frio, dão a perecer
que o tempo, por ali, se aborreceu de velho,
mas pensar na morte é só pensar na morte
e a própria morte é não pensar mais nela,
porque tudo é tempo que passa sobre a vida.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

O DIA-A-DIA


Esta alternância de equinócios e solstícios
é ciência de grande enfado:
ora o dia, mal começado, já declina para a morte;
ora se torna em modorra, extenso,
com presunções de ser também o dia que há-de vir.
Decidi por isso comprazer-me
- somente no que ao dia diz respeito –
apenas com a parte da manhã. É bastante
e condiz com a minha origem rural e simples,
habituado desde criança ao sol por relógio
e à brisa matinal para tempero do corpo.
O que sobrar pode o dia utilizar como muito bem entender,
mas não conte comigo.
Tome o dia, o dia inteiro por sua conta,
até um dia…

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O LIMITE DA PACIÊNCIA


Há com certeza um limite para a paciência
que eu não conheço e, assim sendo, o elástico
invisível da tolerância pode abrir fendas
e estalar-me nas mãos ou, pior ainda, na cara.
Ninguém é suficientemente louco para
suster dessa forma a respiração.
Dito de outra forma, ninguém, por muito parvo que seja,
deixa que o elástico estique, estique, estique,
ao ponto de não se poder falar já de tolerância
mas de uma qualquer algolagnia mal curada…
Deuses e construtores de automóveis
compreenderam desde o início
a necessidade de um limite para a paciência:
os mandamentos e as buzinas, se não resolvem completamente,
vão dando para as encomendas.

Os asininos de fala fácil e fato assertoado
- albarda-se o dito à vontade do dono –
cumprem um papel relevante:
obrigam os restantes a testarem os limites
(se os mandamentos estão bem encrustados nos sentidos;
se as buzinas são suficientemente timbradas).
O problema é que se multiplicam com maior frequência
e a sua proliferação pode tornar-se intolerável.
Apesar das galinhas serem o que são
e não suas excelentíssimas mães,
a vontade de que aqueles fossem ovíparos
e se pudessem comer no ovo,
não deixaria de ser um princípio de alívio,
fosse mexido ou estrelado.
Estou a perder a paciência. Repito: não conheço o limite,
mas garanto que não vai sobrar elástico.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

VICISSITUDES DA LÍNGUA


No dia em que me apercebi que “às vezes”
tem o mesmo significado que “nem sempre”
fiquei muito desiludido.
Nunca esperei que existissem duas frases
desprovidas de um objectivo mensurável
e o mesmo significado,
semelhantes a cotonetes, cujo lado a utilizar
depende do acaso e é aleatório.
Mas não disse nada, não fosse a descoberta
causar pânico ou, pior, alguém dizer
que o assunto constava já de uma velha agenda
da Academia das Letras, tornando ridícula
a minha desencantada descoberta.
Um autêntico desperdício, que às vezes molesta
e dá vontade de desistir, mas nem sempre.