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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

POÉTICA DOS ANJOS


Os anjos parnasianos estão entretidos:
tecem belos poemas para a eternidade
e os querubins fazem ovos mexidos
por terem fome e a fome ser de verdade.

É deixá-los nestes serões celestiais,
eles adoram poesia e festas de salão;
tocam harpas e organizam jogos florais,
enquanto os querubins se ocupam do fogão.

A fome é apenas manigância espiritual
e não há como a poesia para manjar tão rico:
torna-os naperons azuis de renda virtual,
que o espírito santo vai tecendo com o bico.

Há contratempos, sanáveis ao que se diz,
versos indigestos, mas que ao fim e ao cabo
cada um tem seu destino e cada qual aprendiz
de poeta e de anjo, com fome é que é o diabo.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

MOSTARDA NO NARIZ


Diz o versado tribuno, que o assunto
do estômago dorido foi coice ou murro.
Pois eu não comento queixas de defunto
cheira-me a esturro.

O truque já foi usado e é demasiado velho:
baralhar as cores, fingir que es com pinta são is
e pintar panos negros e cinzentos de vermelho
torço o nariz.

Lampeiro, senhor da oração dócil e matreira,
que esconde a face, a postura moral autoritária,
vendedor de cuspo no carrossel da feira
irrita-me a pituitária.

É para desconfiar tanta ousadia do sequaz
inocentado, de fralda enxuta, pão sem sal.
Não se sabe ainda do que o alarve é capaz,
cheira-me mal.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

BEIJOS DE ÁGUA




Chamem-lhe água à solta ou rio,
que de pedra em pedra murmureja;
é aí que a minha sede sacio,
sorvo a sorvo como quem beija.

Ao beijar a água doce da corrente,
matando a sequidão, ela canta:
o rio percorre o corpo de contente,
refresca a minha alma e a garganta.

E quando, enfim, a sede saciada
permite à lucidez que se revele,
eu dou conta que o beijo da levada
foi do rio a mim e não eu a ele.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

PALAVRAS



Soletro devagar a palavra frágua
e gosto do que me chega ao ouvido,
capaz de incendiar toda a mágoa,
se o fogo fizer algum sentido.

Escrevo a palavra lume e apago-a,
queima-me os dedos, a tinta ferve,
uma tempestade num copo d’água,
apenas isso, para mais não serve.

São afinal palavras, nada mais…
Não sei que voltas dão, saem pela boca,
não passam de pequenos sinais
e o que demais trazem é coisa pouca.

Um grito, um pedido, um lamento…
Caem como as folhas; leva-as o vento.

sábado, 18 de janeiro de 2020

JOGOS DE OLHAR




Espreito os teus olhos a medo
por não serem olhos de ver
são antes, em ti, um segredo
e em mim cegueira de os ter.

Jogam comigo às escondidas
fingem que se vão esconder,
que eu já dou por adquiridas
as voltas que dou sem os ver.

Voltam mais tarde a aparecer
neste vaivém permanente…
não sei se ainda os quero ver,
se os vejo e o olhar me mente.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

NOVE VIDAS, NOVE LUAS


Nove sóis de luz
nove sóis de março
‘inda mal eu nasço
já além me pus
já além me pus

Nove vilas corro
nove vilas venço
e não me convenço
que um dia morro
que um dia morro

Nove ais de mim
nove encruzilhadas
mil enganos nadas
há-de ter um fim
há-de ter um fim

Nove meias solas
nove quase amores
novecentas dores
nove carambolas
nove carambolas

Nove águas turvas
nove nuvens rasas
dai-me as vossas asas
às primeiras chuvas
às primeira chuvas

Nove bem contadas
ao longo dos anos
sem contar enganos
nove bem contadas
nove bem contadas

Nove luas d’água
em que fui refém
dentro da minha mãe
nove luas d’água
nove luas d’agua

Nove luas novas
nove luas cheias
são como colmeias
novas caras novas
novas caras novas

Nove vidas nove
vividas uma a uma
sem pressa nenhuma
nove vidas novas
nove vidas novas



domingo, 12 de janeiro de 2020

VÁ LÁ, ALEGRIA


Vá lá uma gotinha de música
neste dia açucarado;
vá lá um raio de sol,
também é do meu agrado.

Vá lá um cheirinho de vento,
não parem as caravelas;
eu quero que o povo acorde,
abra portas e janelas.

Vá lá uma canção de amor
de improviso, sem solfejo,
daquelas que matam a dor
e têm o sabor de um beijo.

Vá lá para o que me deu,
valeu a pena esperar:
sequei as lágrimas do peito
estava farto de chorar.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

ABRIR CAMINHO


Tocando a carga a mando, dia a dia,
e ajoelhando aqui e ali, quando calha,
não dá para ver (não é vida nem é via)
com quantos paus se faz uma cangalha.

Um olho basta aos dois que nos assistem;
um olho só pode ver toda a jogada
que eles, por serem cegos, cumulam, insistem,
com quantos paus se faz uma jangada.

Só uma solução existe, só de um modo,
e esse é o nosso canto, a voz que soa:
assim verão (quando, enfim, formos um todo)
com quantos paus se faz uma canoa…


quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

HELA


Dizem que vem sem avisar, pé ante pé,
que é furtiva e, amiúde, traiçoeira.
Negra como a noite, não sei se é se não é;
assim a pintam, quando não doutra maneira.

Outros acham que é fado ou fatalidade,
que alerta e dá ares de ser, que se anuncia,
traja de branco e toda ela aparenta castidade,
não fosse a contrariedade de se servir fria.

Não tenho em minhas mãos como sabê-lo,
por ser coisa do acontecido e do acontecer
e não me mata a curiosidade um só cabelo,
nem estou inquieto ou morto por saber.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

DA LÍNGUA PORTUGUESA


Esbanjamos as palavras até à míngua,
rudes garimpeiros de águas turvas;
na verdade, maltratamos a língua,
vendemo-la e estamos aqui p’ras curvas.

Essa, que os eruditos dizem de Camões,
e aos poetas dá tantas dores de cabeça,
anda por aí aos acordos, aos encontrões,
fingindo não haver mal que lhe aconteça.

No escrever e no falar é dor d’alma,
ver a língua tratada de qualquer maneira:
ao bom senso não se dá a palma
e no fim ou entra mosca ou sai asneira.

Também os tempos verbais e as corruptelas
já não dão para ninguém ficar calmo,
até um dia andarmos às apalpadelas
e pagarmos, bem pago, com língua de palmo.

Uns, porque o que mais importa
é que, em síntese, a gente se entenda;
outros, porque das regras fazem letra morta,
não tardará quem ponha a língua à venda. 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

LUA ATRIBULADA




Ao cimo da ladeira,
ao fundo da rua,
abre a clareira
e vê-se a Lua
nublada, errante,
despida, nua,
em quarto minguante,

em quarto minguante,
despida, nua.

De candeia acesa,
de nuvem vestida,
não tem a certeza
se é luz indevida
ou só ela pressente
uma réstia de vida
em quarto crescente,

em quarto crescente
uma réstia de vida.

domingo, 15 de dezembro de 2019

O TEMPO DA ROSA


Explodiu uma rosa na palma da minha mão;
desfez-se em pétalas, letal estilhaço,
não tinha espinhos nem males de insolação;
foi de repente, explodiu de astenia e de cansaço.

Cansaço de não ser mais nada além de rosa…
Nunca como antes: apetecida rosa em botão
crescia no jardim, alteada pelo caule, viçosa,
jamais como depois, solitária rosa de imitação.

Será plástico, perguntava quem lhe passava a mão,
que artesão foi capaz de obra tão perfeita?
- Antes morta me quero, a este aperto de coração!
E assim explodiu de dor, na minha mão, desfeita.     

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

ESCADAS


Em um só segundo
se chega ao fim do mundo,
para tanto basta subir
as escadas para o conseguir.

Descê-las já não digo,
isso aconselho, meus amigos,
não é o mesmo, não se iludam,
nem todos os santos ajudam.

sábado, 7 de dezembro de 2019

É UMA PENA

É uma asa
uma casa pequena
não é uma casa
é uma pena

é um ninho de pardais
um imaginário bando
um a menos um a mais
que vai voando

é o tecto do mundo
a cair-nos em cima
de andar vagabundo
é o clima é o clima

um que vai e que volta
outro que já não vem
outro fica à solta
à boleia duma nuvem

são anjos alados
é quem mais ordena
é uma pena aos bocados
é uma pena

são os pássaros à toa
na eterna novena
é uma pena que voa
é uma pena é uma pena

sábado, 30 de novembro de 2019

À CHUVA


Uma gota de água fria
veio aquecer-se na minha
pele, que se arrepia
enquanto ela se aninha.

É da chuva que cai
subitamente do céu
miudinha, que vem e vai
e me apanhou sem chapéu.

A gota, na perfeição,
com pontaria e jeitinho
acertou-me com precisão
entre a nuca e o colarinho.

Que falta de delicadeza!
Não reparei que chovia…
Sou amigo da natureza;
Foi um balde de água fria!

A partida não teve graça
Nenhuma, passa por hoje
mas só desta vez passa  
na próxima já não me foge.

Deu-se às pressas a gota,
nem me deu tempo de um ai,
espinha abaixo, a marota,
sei lá onde ela já vai…

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

DEITAR CONTAS À VIDA


Quanto custa um malmequer,
que tenha a contrapartida
de só dizer bem me quer,
quero deitar contas à vida.

Quanto vale um girassol,
que por vontade assentida
não vire as costas ao Sol,
para deitar contas à vida.

E quanto é preciso penar
com conta, peso e medida,
para o cravo não definhar
e eu deitar contas à vida.

E a deitar contas à vida,
os anos em flor já lá vão…
o que sobra é tara perdida
e as contas certas ou não.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

AGORA


São iguais o antes e o depois,
pretextos de quem chora:
não existe nenhum dos dois,
tudo o que existe é agora.

Antes, lágrima de saudade;
depois, um desejo ardente.
Nenhum é pois verdade;
tudo é fantasia, tudo é aparente.

A dor que dói é esta dor, não
me magoa a dor de outrora,
mas se depois, por qualquer razão,
voltar, será de novo agora.

sábado, 16 de novembro de 2019

FLORES À JANELA


Na janela vejo flores e elas
a olharem para mim
debruçadas são tão belas,
que só elas o fazem assim.

Sinto o perfume das flores
como tranças de uma fada;
regalam-me o cheiro e as cores
da floreira da sacada.

Fico suspenso, preso nelas,
como o caule que as alteia:
fazem-me adeus das janelas,
- adeus flores da minha aldeia.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

AS CASAS DE NOVO


Ao longe as casas, memória delas,
há tanto tempo, que são as casas agora?
Portas, varandas, alpendres, janelas
ou quartos e salas onde gente mora…

As casas, de pedra e cal, dormem o seu sono;
cobrem-nos os sonhos em silêncio profundo.
As casas ao longe são como um trono
e por dentro verosímeis interiores do mundo.


quarta-feira, 30 de outubro de 2019

TUDO ESTÁ BEM


Enquanto a Terra faz o giro de serviço,
as plantas crescem como convém.
À parte disso
tudo vai bem.

Às vezes uns contratempos dão reboliço
uns com infortúnio outros sem.
À parte disso
tudo vai bem.

A América só tem guerra a sul, valha-nos isso;
do norte, olham o sul com desdém.
À parte disso
tudo vai bem.

Já a velha Europa é uma estação fora de serviço;
aluga carruagens de um comboio que vai e vem.
À parte disso
tudo vai bem.

Todas as religiões anunciam um paraíso,
prontas para o vender a quem não tem.
À parte disso
tudo vai bem.

As grandes empresas nunca têm prejuízo,
sem reportarem à custa de quem.
À parte disso
Tudo vai bem.

Há milhões de crianças em busca de um sorriso,
têm de seu o sono e os sonhos como ninguém.
À parte disso
tudo vai bem.

À parte disto
está tudo bem.